Diversificação
Agro de AL vai além da cana e aposta em assistência técnica
Álvaro Almeida diz que Estado vive diversificação no campo e defende parceria entre Senar e Emater para ampliar atendimento a produtores rurais
O agro de Alagoas continua tendo na cana-de-açúcar uma de suas principais bases econômicas, mas já não pode mais ser resumido a ela. O campo alagoano se diversificou, ganhou novas cadeias produtivas e passou a depender cada vez mais de tecnologia, assistência técnica e qualificação profissional.
A avaliação é do presidente do Sistema Faeal/Senar, Álvaro Almeida, durante entrevista ao editor do Gazeta Rural, Edivaldo Junior.
O setor agropecuário representa entre 14% e 15% do PIB alagoano, estimado em cerca de R$ 100 bilhões em 2024. Só a cadeia sucroenergética movimenta entre R$ 5 bilhões e R$ 6 bilhões por ano e emprega mais de 60 mil pessoas durante a safra.
Mesmo com esse peso, Álvaro afirma que o campo alagoano mudou muito nas últimas décadas. A cana segue estratégica, mas outras atividades ganharam força e começam a redesenhar o perfil produtivo do estado.
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Ele citou avanços na pecuária de corte, na pecuária leiteira, no cultivo de milho, soja, eucalipto, mandioca, coco, fumo, hortifruti, cacau e até café em novas áreas produtivas.
“Alagoas produz milho, soja, eucalipto, pecuária de corte, pecuária de leite. Isso aqui é um oásis”, afirmou.
CANA CONTINUA ESTRATÉGICA
Álvaro fez questão de destacar que a diversificação não reduz a importância da cana-de-açúcar para Alagoas.
Para ele, o setor sucroenergético foi, é e continuará sendo decisivo para a economia estadual, apesar das crises enfrentadas nos últimos anos.
“A cana foi, é e será de suma importância para a economia do Estado de Alagoas”, disse.
O presidente da Faeal lembrou que o setor já teve mais unidades industriais em operação e passou por um forte processo de concentração. Ainda assim, acredita que tecnologia, manejo e eficiência no campo serão decisivos para manter a relevância da atividade.
Na avaliação dele, a cana continuará forte se conseguir produzir mais, reduzir custos e incorporar novas técnicas de gestão e produtividade.
LEITE, CORTE E EUCALIPTO
Um dos exemplos de transformação citados por Álvaro foi a pecuária leiteira.
Segundo ele, a chegada de novas indústrias, como a Betânia, somada ao trabalho de produtores e lideranças do setor, mostra que o leite ganhou novo peso na economia rural alagoana.
A pecuária de corte também aparece como uma cadeia em evolução, embora parte dos animais produzidos em Alagoas ainda seja abatida em estados vizinhos, como Pernambuco.
Outro avanço citado foi o eucalipto. O setor praticamente não existia em Alagoas há pouco mais de uma década e hoje já soma cerca de 40 mil hectares plantados, com impacto na produção de biomassa, madeira tratada, paletes, energia e novos projetos industriais.
Para Álvaro, esse conjunto demonstra que Alagoas passou a explorar melhor suas vocações produtivas.
PRODUZIR MAIS NO MESMO ESPAÇO
A diversificação do agro alagoano tem uma característica própria: acontece em um estado pequeno, com terra valorizada e pouca margem para expansão horizontal.
Por isso, afirmou Álvaro, o caminho é produzir mais, com melhor qualidade e em menor área.
“O melhor caminho é produzir mais, com melhor qualidade, no menor espaço. É isso que dá resultado”, afirmou.
Ele citou como exemplo a evolução da pecuária leiteira, com inseminação artificial, transferência de embriões, assistência técnica e uso de tecnologia para elevar a produtividade.
Esse avanço, segundo o presidente da Faeal, exige mudança de mentalidade, qualificação profissional e apoio técnico permanente.
ASSISTÊNCIA TÉCNICA
É nesse ponto que Álvaro defende uma parceria mais ampla entre o Senar Alagoas e a Emater.
Segundo ele, o Senar já realiza um dos maiores trabalhos de capacitação e assistência técnica no campo em Alagoas, mas poderia ampliar seu alcance ao atuar de forma integrada com a estrutura pública de assistência rural.
“Em vez de fazer duas coisas com dois dinheiros, vamos fazer, em português bem claro, com um dinheiro só. A gente faz duas coisas em vez de gastar dois dinheiros e fazer uma coisa só”, afirmou.
De acordo com Álvaro, o Senar atende, em média, 35 mil produtores por ano em Alagoas. Na assistência técnica gerencial, o sistema já acompanhou cerca de 16 mil produtores e hoje mantém atendimento direto a aproximadamente 8 mil.
O trabalho é desenvolvido por grupos de produtores acompanhados por técnicos de campo. Segundo o presidente da Faeal, o Senar conta atualmente com cerca de 220 técnicos em atividade no meio rural, além de equipes de supervisão e fiscalização.
DESAFIO AO PRÓXIMO GOVERNO
Durante a entrevista, Álvaro deixou um recado ao próximo governador de Alagoas.
Para ele, uma parceria entre Estado, Emater e Senar poderia multiplicar o alcance da assistência técnica, evitar a sobreposição de gastos e levar orientação a um número maior de produtores.
“Ao invés de termos 8 mil produtores sendo assistidos, podemos passar a ter 16 mil, 20 mil, 30 mil. Quem ganha é o Estado, com a evolução da produção e da economia”, afirmou.
Para o presidente da Faeal, a qualificação do produtor rural é decisiva para ampliar a produtividade, reduzir custos e melhorar os resultados no campo.
“O homem qualificado dá outro resultado completamente diferente”, resumiu.
SAÚDE E SUCESSÃO
Álvaro também destacou a ampliação das ações sociais do Senar no meio rural.
Além dos programas de formação profissional, assistência técnica e promoção social, ele citou o trabalho de prevenção à saúde do homem e da mulher, com ações voltadas especialmente às comunidades rurais.
O presidente da Faeal também falou sobre o novo programa Saúde no Campo, que começou em fase piloto em cinco municípios, atendendo cerca de 1.500 pessoas.
A proposta é acompanhar famílias rurais com orientação médica, controle da pressão arterial e da glicose, uso correto de medicamentos e atendimento por equipes de saúde.
Segundo Álvaro, o objetivo não é substituir os municípios, mas atuar em parceria.
“Nós não queremos concorrer com a saúde do município. Pelo contrário, estamos fazendo parceria”, afirmou.
Outro tema tratado foi a sucessão no campo e nas entidades do setor produtivo. Álvaro afirmou que a renovação passou a ser uma preocupação central nos últimos anos.
Segundo ele, a nova gestão da Federação teve renovação de cerca de 60%, com a entrada de jovens e mulheres.
A presença feminina e a participação da nova geração, disse Álvaro, ajudam a preparar o futuro da entidade e do setor agropecuário.
NOVO MOMENTO
A leitura de Álvaro Almeida reforça uma percepção que vem ganhando força no debate econômico local: Alagoas passou a ter um agro mais diversificado, mais técnico e mais integrado.
A cana continua sendo uma base essencial. Mas o campo alagoano já se movimenta também por outras frentes: leite, carne, grãos, florestas plantadas, frutas, hortaliças, mandioca, coco, fumo e novas culturas.
Em um estado pequeno, produzir mais e melhor deixou de ser apenas uma escolha. Virou uma necessidade econômica.