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Pesquisa

Microrganismos raros viabilizam cultivo de milho em solos afetados por excesso de sal

Em experimentos, promoveram o crescimento vigoroso das plantas e elevaram sua tolerância fisiológica

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Os microrganismos foram isolados das raízes da erva-sal, planta naturalmente adaptada à salinidade e utilizada na fitorremediação de solos salinos
Os microrganismos foram isolados das raízes da erva-sal, planta naturalmente adaptada à salinidade e utilizada na fitorremediação de solos salinos | Foto: Clarice Rocha

Uma pesquisa conduzida pela Embrapa, em parceria com a Brandeis University, nos Estados Unidos, identificou que arqueias extremófilas (grupo de microrganismos distintos das bactérias e adaptados a condições extremas) são capazes de aumentar a tolerância do milho ao excesso de sal no solo e permitir que as plantas cresçam de forma vigorosa mesmo sob condições de estresse salino. Os pesquisadores demonstraram que essas arqueias colonizam a rizosfera, a região do solo junto às raízes, marcada por intensas trocas químicas e biológicas. O trabalho foi publicado no periódico Environmental Microbiome.

Os microrganismos foram isolados das raízes da erva-sal (Atriplex nummularia), planta naturalmente adaptada à salinidade e utilizada na fitorremediação de solos salinos. Após cultivo em laboratório, foram avaliados em plantas de milho. A cultura é estratégica para a produção de alimentos e altamente sensível ao acúmulo de sais no solo, o que compromete o crescimento das plantas e reduz a produtividade.

Nos experimentos conduzidos em ambiente controlado, os pesquisadores observaram que, sob estresse salino, as arqueias reduziram os efeitos tóxicos do sal, permitindo que o milho mantivesse crescimento mais vigoroso e maior tolerância fisiológica em comparação com plantas não tratadas com arqueias.

A análise por qPCR (técnica molecular utilizada para detectar a quantidade de microrganismos presentes em uma amostra) do gene 16S rRNA, específico para arqueias, confirmou a colonização bem-sucedida. A abundância desses microrganismos na rizosfera do milho aumentou proporcionalmente ao avanço da salinidade no solo.

O sequenciamento do genoma completo identificou genes associados à produção de fitormônios (hormônios vegetais), como auxinas, e de osmoprotetores, substâncias que auxiliam no equilíbrio hídrico celular em ambientes salinos. O achado evidencia o potencial das arqueias de interagir com a planta e mitigar o estresse osmótico causado pelo sal. Nos ensaios, a presença desses microrganismos elevou a biomassa e preservou os níveis de clorofila mesmo sob altas concentrações de sal.

O resultado reforça o potencial da tecnologia para fortalecer a estabilidade da produção de alimentos em áreas afetadas pela salinização. Diferentemente das bactérias, organismos mais conhecidos, as arqueias pertencem a um domínio próprio de seres vivos e se destacam pela elevada resistência a condições químicas severas.

No curto prazo, os resultados indicam potencial para testes em condições reais de produção. Bioinoculantes à base de arqueias isoladas de ambientes naturalmente salinos, ou de consórcios microbianos adaptados a esse estresse, poderão ser avaliados quanto à aplicação em sementes ou diretamente no solo antes do plantio.

A hipótese é que essa estratégia ajudará culturas como milho, feijão e hortaliças a manter o desempenho produtivo em áreas irrigadas com água salobra, situação comum no Semiárido nordestino. Uma vez integrada a práticas de manejo já consolidadas — como rotação com plantas halófitas (espécies adaptadas a ambientes com alta salinidade), cultivo mínimo e adubação equilibrada, por exemplo — a inoculação microbiana poderá reduzir os efeitos da salinização sobre as lavouras, aumentar a resiliência dos sistemas agrícolas e contribuir para a segurança alimentar e a renda no campo.

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