Produção
Serra Grande inova com colheitadeiras que operam em áreas de declive
Máquinas menores e adaptadas à topografia da Zona da Mata ajudam usina a enfrentar escassez de mão de obra


O Brasil é o maior produtor de cana-de-açúcar do mundo, com produção anual superior a 650 milhões de toneladas. A Índia ocupa o segundo lugar (com cerca de 439 milhões de toneladas na safra 2024/2025) e, assim como o Brasil, investe fortemente em tecnologias voltadas à mecanização e ao aumento da produtividade agrícola. Esse intercâmbio tecnológico — ainda que informal — tem contribuído para soluções adaptadas a diferentes realidades, especialmente em regiões com topografia acidentada.
Em Alagoas, berço de importantes variedades de cana utilizadas no país e no exterior, a mecanização enfrenta um desafio adicional: o relevo irregular da Zona da Mata, onde predominam áreas com declives acentuados. Para superar essa limitação, a Usina Serra Grande, localizada em São José da Laje, passou a utilizar colheitadeiras de porte reduzido, adaptadas para operar em terrenos com inclinação de até 30 graus.
O modelo adotado, conhecido como Shaktiman Tejas, foi desenvolvido originalmente para pequenas propriedades na Ásia e passou por adaptações para atender às condições locais. A principal modificação foi a substituição dos pneus traseiros por esteiras metálicas, que aumentam a estabilidade e permitem a operação em áreas onde colheitadeiras convencionais não conseguem atuar com segurança.
Em operação há cerca de dois anos, as máquinas representam uma alternativa concreta diante da escassez crescente de trabalhadores no corte manual da cana — uma tendência observada em todo o setor sucroenergético brasileiro. De menor porte e maior agilidade, o equipamento permite manobras em áreas reduzidas e atinge produtividade de até 200 toneladas por dia. Com quatro unidades em operação na Serra Grande, a usina já conseguiu alcançar volumes diários de até 800 toneladas colhidas.
Segundo o industrial Miguel Bezerra, o grupo adquiriu quatro máquinas para a unidade em Alagoas e outras oito destinadas à Usina Trapiche, em Pernambuco. Ele destaca que o principal diferencial está na adaptação ao relevo. “É uma máquina menor, equipada com esteiras nas rodas traseiras, o que garante maior estabilidade. Ela também pode operar apenas com pneus e é extremamente eficiente em áreas curtas, onde as manobras são frequentes e impactam diretamente a produtividade”, explica.
A topografia é um dos principais entraves à mecanização no Nordeste. Em Alagoas, estima-se que apenas cerca de 30% da área canavieira esteja plenamente adaptada à colheita mecanizada com máquinas convencionais. O restante depende de adaptações tecnológicas ou ainda é colhido manualmente.
Para Miguel Bezerra, a mecanização deixou de ser apenas uma opção e passou a ser uma necessidade estratégica. “O corte manual de cana é uma atividade em declínio, com cada vez menos trabalhadores disponíveis. A mecanização é uma questão de sobrevivência para o setor. Temos áreas plantadas há anos que foram projetadas para corte manual e que agora estão sendo adaptadas à mecanização com essas novas máquinas”, afirma.
Outro avanço importante é a possibilidade de operar tanto na colheita de cana crua quanto em áreas onde a queima ainda é utilizada como forma de facilitar a visualização do terreno. Segundo o diretor industrial, a tendência é reduzir gradualmente o uso da queima, à medida que o preparo do solo evolui. “Estamos utilizando equipamentos para nivelamento e retirada de pedras, o que permitirá, no futuro, ampliar a colheita mecanizada de cana crua, com maior eficiência e menor impacto ambiental”, explica.
Para Magno Cláudio, operador da usina, os resultados operacionais já são positivos. “Estamos no segundo ano de uso dessas máquinas e o desempenho tem sido satisfatório, mesmo em áreas que ainda não estão totalmente preparadas. São equipamentos ágeis, que podem operar continuamente e aumentam nossa capacidade de colheita”, relata.
A adoção dessas colheitadeiras representa um avanço importante para a mecanização da cana em regiões de relevo complexo. Em um momento em que o setor enfrenta aumento de custos e escassez de mão de obra, a incorporação de tecnologias adaptadas à realidade local surge como um fator decisivo para garantir a continuidade da produção e a competitividade da atividade sucroenergética em Alagoas.
