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Os idosos precisam de programas e cuidados, não de Ministério

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Criar mais uma estrutura burocrática em Brasília não significa proteger a velhice; o Brasil precisa de políticas públicas permanentes, respeito, assistência, segurança e dignidade para quem ajudou a construir este país.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, reeleito para seu quarto mandato, começa a sinalizar a possibilidade de criar um Ministério do Idoso. Segundo a imprensa, o assunto ainda está em discussão no Palácio do Planalto.

A primeira pergunta que me ocorreu foi simples: em que está pensando Lula? Em melhorar efetivamente a vida dos brasileiros que envelheceram ou em criar mais uma estrutura administrativa, com ministro, secretários, assessores, cargos comissionados, gabinetes e despesas permanentes para o contribuinte?

Se a intenção for transformar uma causa tão nobre em instrumento de acomodação política, Lula já começará errando em seu quarto governo. Não precisamos de mais um prédio suntuoso em Brasília nem de cargos para aliados. Precisamos de médicos, medicamentos, cuidadores, transporte acessível, proteção contra a violência, moradia digna e programas que devolvam aos idosos segurança e respeito.

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O Brasil envelheceu, mas seus governantes parecem não ter percebido. Segundo o Censo de 2022, já éramos mais de 32 milhões de brasileiros com 60 anos ou mais.

São milhões de pessoas que trabalharam, pagaram impostos e ajudaram a construir o país que hoje as trata, muitas vezes, como cidadãos de segunda categoria.

A velhice brasileira, especialmente entre os mais pobres, tornou-se uma combinação cruel de dificuldades financeiras, abandono, enfermidades e solidão. Há idosos que precisam escolher entre comprar medicamentos e colocar comida na mesa. Outros enfrentam filas intermináveis no SUS por consultas e exames. Alguns vivem praticamente prisioneiros de suas casas porque as cidades não oferecem calçadas transitáveis, transporte adequado ou condições mínimas de mobilidade. E há os abandonados pela própria família, vítimas de humilhações, agressões e exploração financeira.

O problema brasileiro não é a ausência de leis. É a distância vergonhosa entre o que está escrito e aquilo que acontece na vida real.

Lula poderia começar seu novo governo lançando um grande Programa Nacional de Proteção e Cuidado da Pessoa Idosa, com orçamento definido, metas verificáveis e responsabilidades compartilhadas entre União, estados e municípios.

Uma das primeiras medidas deveria ser a ampliação da assistência domiciliar. Equipes multiprofissionais do SUS, com médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, psicólogos e assistentes sociais, poderiam acompanhar idosos com dificuldade de locomoção, doenças crônicas ou dependência de cuidados permanentes. Seria necessário também expandir os centros-dia e criar programas de apoio e capacitação para familiares e cuidadores.

Outro compromisso indispensável seria enfrentar a violência contra a pessoa idosa. Maus-tratos, negligência, abandono, apropriação indevida de aposentadorias e violência psicológica exigem tratamento prioritário. Defendo o fortalecimento das delegacias especializadas e dos canais de denúncia acessíveis, a fiscalização rigorosa das instituições de longa permanência e punições mais severas, proporcionais à gravidade dos crimes.

Também precisamos reconhecer que envelhecer não significa perder a capacidade de participar da sociedade. O poder público deveria estimular universidades abertas à terceira idade, inclusão digital, atividades culturais, trabalho voluntário e projetos de convivência entre gerações. A solidão pode ser tão devastadora quanto uma doença física, e combatê-la também é responsabilidade de uma sociedade civilizada.

O Brasil deveria criar uma rede nacional de centros de convivência e reabilitação e estimular moradias assistidas para pessoas sem apoio familiar. Deveria assegurar transporte público acessível, calçadas seguras e atendimento presencial nos serviços públicos. Não é aceitável obrigar um cidadão de 85 anos a resolver tudo por aplicativos e senhas eletrônicas.

Há ainda a dignidade econômica. Aposentados de baixa renda não podem continuar reféns dos preços dos medicamentos, da alimentação e dos serviços essenciais. É necessário ampliar a distribuição gratuita de remédios, combater fraudes e descontos indevidos em benefícios previdenciários.

Se Lula pretende realmente homenagear os idosos, poderia começar com uma decisão política corajosa: fortalecer a rede já existente, estabelecer metas nacionais de atendimento, criar mecanismos independentes de fiscalização e destinar recursos diretamente aos serviços prestados à população.

Escrevo também como alguém que chegou à velhice e conhece suas limitações e desafios. Envelhecer deveria ser a conquista de uma etapa da existência, não uma condenação ao isolamento ou à dependência humilhante. A sociedade que menospreza seus idosos está desprezando a própria história. Afinal, quem hoje é jovem, se tiver a felicidade de viver bastante, também conhecerá as dificuldades que agora prefere ignorar.

A proteção à velhice não pode ser favor político, promessa eleitoral ou instrumento de negociação partidária. É dever constitucional, compromisso humanitário e medida da civilização de um povo.

O presidente, que também chegou aos 81 anos, tem experiência suficiente para compreender essa realidade. Pode deixar como legado uma política nacional de envelhecimento digno, com resultados mensuráveis. Ou pode optar por mais um órgão na Esplanada dos Ministérios, destinado a produzir solenidades, discursos e fotografias oficiais.

Espero que escolha a primeira alternativa.

O Brasil não precisa de mais gabinetes para abrigar políticos.

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