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O ouvido ofendido

A língua é viva e põe em diálogo o texto escrito e o som enunciado – que, às vezes, não combinam

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Imagem ilustrativa da imagem O ouvido ofendido
| Foto: Departamento de Criação da Central Gazeta de Notícias

“Ah, eu amava a boca dela.” A intenção era um elogio, mas o som aproximou a mulher admirada do feminino de cachorro. Cadela é termo forte, um quase palavrão. Minha mãe não a pronunciava e preferia cachorra para a fêmea do cão. Tornar insulto cadela ou vaca, e não touro ou cachorro, é sinal de misoginia, claro. Hoje, vou me prender aos fonemas e não aos preconceitos.

As sílabas se reagrupam ao serem enunciadas e formam sons indesejados e até obscenos. Você deve se lembrar: o fenômeno se chama cacófato. “Boca dela” é o exemplo mais citado.

Por vezes, o som desagradável pode ser intencional e político. Quando Maria Antonieta, arquiduquesa austríaca, chegou ao ambiente cáustico do Palácio de Versalhes, passaram a chamá-la de “autrichienne”. A palavra significa apenas “austríaca”, mas, com essa separação intencional em “autri-chienne”, era ouvida como “cadela da Áustria”. Cacófato xenófobo…

Voltemos aos nossos sons estranhos em português. Se minha alma “por ti gela” ou meus olhos “por ti são”, aparecem imagens complexas no ouvinte. Se eu exemplifico que devemos ser “como a dama”, parecemos indicar que devemos deglutir a referida senhora. “Foi na vez passada” insinuaria que a vespa também poderia ser flambada ou frita?

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Por vezes, ao querer elogiar, agredimos até o que é inatacável. Isso ocorre quando se elogia “nosso hino”, parecendo que contemplamos suínos às margens plácidas do Ipiranga. O mesmo fenômeno ocorre quando se anuncia o preço de dez reais “por cada”. Uma vara!

Só nós, pessoas comuns? Camões encantou-nos com o soneto Alma Minha. O verso inicial famoso cria o som de “maminha”. Quer um exemplo de peso ainda maior? Virgílio usa a expressão, para o acampamento militar grego, “dorica castra”. A junção das sílabas final e inicial dos termos resulta em ca-ca (imperativo do verbo latino cacare, isto é, “defecar”). Acho muito elegante usar um cacófato no latim de Virgílio. Se é para descer ao inferno dos sons, que seja tendo o autor da Eneida como guia.

Nem sempre o erro é obsceno ou vulgar. Por vezes, apenas faz surgir ruído na leitura da frase. “Uma mão e outra” vira “um mamão e outra”. “Ela tinha” pode indicar que a pessoa possuía uma pequena lata. Se acaso eu “vi ela”, fica a dúvida se a moça transitava por um pequeno beco, uma viela. Alguém teria “fé demais”? O recado foi dado “pela dona”? “Vou-me já”. Óbvios cacófatos.

A língua é viva e põe em diálogo o texto escrito e o som enunciado. Não posso reduzir nossa “última flor do Lácio” a apenas letras, nem aceito supor que apenas o que é enunciado “da boca para fora” seja a realidade. A língua é linda por ser viva e mutante.

Tenho um guia há anos: o genial pernambucano Evanildo Bechara (1928-2025). Ele comenta, na Moderna Gramática Portuguesa (Nova Fronteira/Lucerna), que os fonemas de efeito desagradável podem ser: a) colisão (“o retrato dela, ao lado do marido”); b) eco (“realização ou não realização da ação”); c) hiato (“hoje há aula”); e, por fim, os já citados cacófatos. Para fugir dos sons desagradáveis, o autor recomenda ler o texto em voz alta. Assim, evitam-se formações pouco delicadas: “Tijuca ganhou”, “O jogador marca gol”, etc. Alguém poderia usar o cacófato de propósito, para um efeito duplo. Ampliando o exemplo de Bechara, se um atacante conseguisse balançar a rede adversária e, concomitantemente, estivesse com grave diarreia, o narrador diria: “Pedro marca gol!”: teríamos um cacófato estilístico sintético. Ah, a riqueza da língua!

Tenho o hábito de estudar gramática quinze minutos por dia, todos os dias, desde o ensino médio. O costume tem diminuído meus barbarismos, afogados na água pura de grandes mestres da língua como Bechara.

Infelizmente, alguns defeitos sabem nadar e sobrevivem bem. Derrapo! Quando alguém me pergunta quantas línguas eu falo, costumo dizer: “Nenhuma; nem a materna eu domino”. Riem. Acham que é piada. Nunca foi.

“Ah, Leandro, faça-me o favor”, diria um leitor ranzinza. As pessoas não sabem mais ler, interpretam mal e empacam em estruturas que não sejam monossilábicas, e você vem falar de beleza fonética, de ortoepia e de qualidade do som emitido?

Acho a crítica justa, ainda que incompleta. Preferiria todas as crianças vivas e vacinadas (mesmo emitindo cacófatos). Paz e comida têm prioridade diante da norma culta. Acredito que a preocupação com a beleza e a qualidade da expressão, de muitas formas, faz parte de um mundo que também respeita pessoas. Estou entre os seres que lutam contra toda “novilíngua”, ou seja, a simplificação vocabular e semântica defendida pelos ditadores do livro 1984 (de George Orwell). Luto pela complexidade da vida, pela beleza do ser humano, pela densidade de um mundo mais justo. Amo coisas inúteis como Bach e a luz do arrebol. Podem me acusar de nefelibata, um sujeito com a cabeça nas nuvens, característica que Aristófanes imputou a Sócrates. Defendo-me: não tenho a capacidade racional de Sócrates, nem terei de tomar cicuta. O Brasil apresenta outras inúmeras causae mortis mais comuns do que a erva venenosa. Apenas não queria beber para sempre a língua feia, contraída, cheia de cacos e rudimentar do zap. Eis minha esperança nefelibática. Prefiro nuvens celestes ao “kkkkk”.

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