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Mapa é destino?

O determinismo geográfico tem estética sedutora, mas está longe de traduzir a realidade dos povos

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Imagem ilustrativa da imagem Mapa é destino?
| Foto: Departamento de Criação da Central Gazeta de Notícias

Há uma pergunta que atravessa os séculos e se disfarça em muitas roupagens. Os gregos a conceberam sob o nome de destino. Os medievais a reformularam como Divina Providência. Montesquieu, no século 18, em O Espírito das Leis (1748), já sugeria que o clima determinava as instituições: povos do Sul seriam preguiçosos, os do Norte, vigorosos. No fim do século 19, a tese ganhou sotaque alemão e rosto acadêmico: Friedrich Ratzel, em sua Antropogeografia (dois volumes, 1882 e 1891), sustentou que solo, clima e relevo moldam a história dos povos. Traduzindo para linguagem brutal: diga-me onde você nasceu e eu lhe direi quem você é. Há algo profundamente perturbador nessa afirmação. O mais inquietante é perceber a longevidade da ideia.

O determinismo geográfico tem estética sedutora. Ele explica tudo. Por que o Egito desenvolveu sua civilização? Pelo Nilo. Por que o Japão é insular em sua mentalidade? Pelo mar. Por que a Rússia é autoritária? Pela imensidão das estepes. Por que o Brasil seria atrasado? Pelos trópicos. Assim assegurava Buckle em sua History of Civilization in England (1857-1861). Ellsworth Huntington, em Civilization and Climate (1915), chegou a cartografar os climas ideais para a civilização. Que coincidência feliz: ficavam justamente nas latitudes da Europa branca. O pensamento determinista sempre encontra, ao final do silogismo, uma justificativa para o poder de quem o formula. O britânico Halford Mackinder, em The Geographical Pivot of History (1904), criou a tese do Heartland, depois usada para justificar projetos imperiais. Ratzel cunhou a expressão “espaço vital”, Lebensraum, e as palavras, como observava Victor Klemperer em LTI: a Linguagem do Terceiro Reich, têm biografia própria. Décadas depois, o nazismo transformaria aquele conceito acadêmico em programa de extermínio, justificando a invasão do Leste Europeu como necessidade geográfica do povo alemão. Ideias, convém lembrar, nunca são inocentes.

Foi contra essa vertigem do destino geográfico que Paul Vidal de la Blache ergueu o possibilismo. A tese francesa é elegante em sua sobriedade: o meio oferece possibilidades; o ser humano escolhe entre elas. Lucien Febvre, em La Terre et l’évolution humaine (1922), deu ao argumento sua formulação definitiva: “Não há necessidades, em toda parte há possibilidades”. É uma frase que merece ser lida duas vezes. Ela devolve ao ser humano aquilo que o determinismo havia confiscado: agência, cultura, história. Dois povos vivendo no mesmo vale podem construir civilizações radicalmente distintas. Comparem-se Haiti e República Dominicana, que partilham a mesma ilha e seguiram trajetórias diferentes. Ou Coreia do Norte e Coreia do Sul: mesma península, mesmo povo, mesmo clima, destinos opostos. Mais perto de nós: os Estados Unidos e o México partilham uma fronteira de 3 mil quilômetros e indicadores sociais incomparáveis. O genoma do território não é o destino da sua história.

Confesso uma suspeita. O possibilismo, quando mal compreendido, gera otimismo tão ingênuo quanto o pessimismo do oponente. Se tudo é possível, nada é responsável. Em certo ultraliberalismo, se o homem sempre escolhe, então o pobre escolheu ser pobre, e o rico escolheu sua fortuna. A liberdade absoluta é ilusão tão cruel quanto o determinismo exaltado. A verdade desconfortável habita o entremeio, e é por isso que a geografia crítica, de Milton Santos a David Harvey, desloca a pergunta. Não se trata de natureza contra cultura, mas de saber quem, no interior de uma sociedade desigual, tem acesso às possibilidades que o território oferece. Milton Santos dizia, em A Natureza do Espaço (1996), que o espaço é “um sistema de objetos e um sistema de ações”, nunca um cenário neutro.

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Jared Diamond, em Armas, Germes e Aço (1997), reabriu a ferida. Muitos o leram como um upgrade do determinismo, agora sob a roupagem respeitável da biologia evolutiva e da difusão de cereais. Para o autor, o eixo eurasiático, orientado leste-oeste, permitiu a difusão de plantas e animais domesticados em latitudes semelhantes. A convivência prolongada com esses animais criou resistência a doenças zoonóticas, ao contrário das Américas, que sentiriam o impacto dos germes em escala imensa: estima-se que até 90% da população indígena americana morreu de doenças nos primeiros 150 anos após 1492. Não foram raças, mas a geografia, a base das diferenças. Críticos como o geógrafo James Blaut acusaram Diamond de “eurocentrismo refinado”, e a polêmica continua viva.

Resta-nos a velha pergunta, agora vestida de geografia: somos livres? Kant diria que a liberdade é um postulado da razão prática, algo em que precisamos acreditar para agir. Sartre diria que estamos condenados a ela, sem possibilidade de fuga. Espinosa, mais melancólico, diria que a liberdade é apenas o conhecimento das causas que nos determinam. Marx, antes deles, advertia que os homens fazem a história, mas não nas condições escolhidas por eles. Eu, mais modestamente, sugeriria que a liberdade humana é como um rio: corre nas margens que o terreno lhe impõe, mas escava o próprio leito ao longo dos séculos. O Sena não escolheu Paris, mas Paris escolheu o Sena. Nem prisioneiros do solo, nem deuses sobre ele: somos seres abaixo da onipotência divina e acima da impotência da pedra. Apenas humanos, isto é, seres que, diante de cada paisagem, ainda precisam decidir o que fazer com ela. E essa decisão, precária e cotidiana, é talvez o único território em que a liberdade ainda faz morada.

PS: conheci, na USP, Milton Santos. Dedico este texto a ele no ano do centenário de seu nascimento. Foi um homem livre e sábio. Ele faz muita falta.

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