⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
O debate dos cogumelos
Depois de 81 anos das bombas de Hiroshima e Nagasaki, esta é a minha esperança: nunca mais
Dias 6 e 9 de agosto de 1945: Hiroshima e Nagasaki inauguraram o horror atômico. Duas bombas: Little Boy, de urânio, equivalia a cerca de 15 quilotons; Fat Man, de plutônio, a 21. Estima-se que 70 mil pessoas morreram instantaneamente em Hiroshima e 40 mil em Nagasaki. Até o fim de 1945, com queimaduras, ferimentos e doença aguda da radiação, o número total ultrapassou 200 mil mortos. As cifras seguiram subindo por décadas, com leucemias, cânceres e malformações congênitas.
O Japão deveria ter sido bombardeado? Vamos recompor o cenário. O clima amistoso da Conferência de Ialta (fevereiro de 1945) selara a entrada da URSS na guerra contra o Japão. No verão europeu daquele ano, com a Alemanha já derrotada e Roosevelt morto, o ambiente na Conferência de Potsdam era outro. A URSS virara aliada incômoda. A bomba atômica seria um argumento contra Stalin.
No ano final da Segunda Guerra, o Império do Sol Nascente estava de joelhos. Os desembarques em Iwo Jima e Okinawa, porém, demonstraram resistência inacreditável. Só em Okinawa, entre abril e junho de 1945, morreram cerca de 12 mil estadunidenses, mais de 100 mil soldados japoneses e estimados 100 mil civis okinawanos. O Alto Comando dos EUA fez suas contas. A Operação Downfall, plano para a invasão das ilhas principais, projetava entre 250 mil e 1 milhão de baixas americanas. Como seria conquistar o arquipélago palmo a palmo? O argumento a favor das bombas se firmou: encerraria a guerra mais cedo e pouparia vidas, japonesas e, sobretudo, estadunidenses. Truman autorizou. Em 10 de agosto, o Japão comunicou aos Aliados a aceitação dos termos de Potsdam, condicionada à manutenção do imperador. Em 15 de agosto, Hirohito anunciou publicamente a rendição. As bombas foram necessárias?
Vencendo a guerra, Washington dominou a narrativa inicial. Henry Stimson, secretário de Guerra, em artigo célebre na Harper’s (fevereiro de 1947), registrou: a bomba teria sido a escolha “menos abominável” entre as disponíveis. Robert James Maddox, em Weapons for Victory (1995), e Richard B. Frank, em Downfall (1999), defendem, com base em documentos japoneses, que o governo do Japão não pretendia capitular nos termos aceitáveis para os Aliados. Trata-se de uma ética pragmática: as bombas mataram muitos, mas pouparam mais gente, segundo esse recorte.
POLÊMICA: Marlan Ferreira diz que JHC traiu aliados: “Não tem palavra” #tvgazeta #alagoas #jhc
Homem é encontrado morto enrolado em fios em São Brás
Avô é preso 5 anos após estuprar neta durante ceia de Natal
Vendiam perfumes furtados no Centro de Arapiraca e acabaram presos
Suspeito de matar duas pessoas durante o réveillon no Pilar é preso
Há também uma corrente revisionista. A tese central: as bombas foram desnecessárias militarmente (o Japão já estava derrotado) e seu uso se explica por motivos políticos, sobretudo intimidar a União Soviética. Gar Alperovitz, em Atomic Diplomacy (1965), argumenta que existiam alternativas (modificar a exigência de rendição incondicional, esperar a entrada soviética, fazer uma demonstração) e que Truman e Byrnes escolheram a bomba pensando no pós-guerra. Tsuyoshi Hasegawa, em Racing the Enemy (2005), oferece interpretação intermediária a partir de fontes japonesas, soviéticas e americanas: a entrada soviética em 9 de agosto teria sido mais decisiva para a rendição do que os próprios bombardeios. Curiosamente, generais como Eisenhower e o almirante Leahy, então chefe do Estado-Maior de Truman, registraram em memórias que consideravam o bombardeio desnecessário. Leahy escreveu, em I Was There (1950), que ao usar a bomba os EUA “adotaram um padrão ético comum aos bárbaros da Idade das Trevas”.
O debate é militar, geopolítico e ético até hoje. Convém lembrar, porém, que o Império Japonês cometeu crueldades que, embora menos conhecidas no Ocidente, permanecem inacreditáveis. Chineses e coreanos sofreram escravização sexual, bombardeios criminosos e experiências científicas que fariam corar o próprio doutor Mengele. A guerra na Ásia começara em 1931, com a invasão da Mandchúria. Tornou-se total em 1937, com o Incidente da Ponte Marco Polo. Rudolph J. Rummel estima 19,6 milhões de mortos chineses; a pesquisadora chinesa Bian Xiuyue calcula 20,6 milhões de mortos e 14,2 milhões de feridos. É preciso ressaltar: a matança de chineses e coreanos não era o tema principal do debate em Washington. Para a vida importar, ela precisava ser classificada pela nacionalidade; geopolítica tem cor.
Hiroshima e Nagasaki abriram, na verdade, uma era nova. Em 1955, Albert Einstein e Bertrand Russell assinaram, com mais nove cientistas, o Manifesto Russell-Einstein. A frase central permanece atual: “Lembrem-se da humanidade e esqueçam o resto”. O documento alertava que a guerra nuclear poderia significar o fim da espécie. Einstein, que assinara em 1939 a carta a Roosevelt sugerindo o desenvolvimento da bomba antes dos nazistas, declararia depois: “Se eu soubesse que os alemães não conseguiriam produzir a bomba atômica, eu não teria movido um dedo”. Eisenhower, já presidente, advertiu em 1953, no discurso Chance for Peace: “Cada arma fabricada, cada navio de guerra lançado, cada foguete disparado significa, no fim das contas, um roubo dos que têm fome e não são alimentados”. Kennedy, em junho de 1963, na Universidade Americana, propôs uma “estratégia de paz”, lembrando que “no final, o que mais nos une é o fato de que todos habitamos este pequeno planeta. Todos respiramos o mesmo ar. Todos prezamos o futuro de nossos filhos. E todos somos mortais”. Bertha von Suttner, autora do romance Abaixo as Armas! (1889) e primeira mulher a receber o Nobel da Paz, em 1905, já dedicara a vida a denunciar a guerra como decisão humana e, portanto, evitável. Camus, no editorial do Combat de 8 de agosto de 1945, dois dias depois de Hiroshima, escreveu: “A civilização mecânica acaba de chegar a seu último grau de selvageria”. A encíclica Pacem in Terris, de João XXIII (1963), em plena Guerra Fria, afirmou: “Não é mais possível pensar que nesta nossa era atômica a guerra seja um meio apto para ressarcir direitos violados”. Leão XIV herdou esse pacifismo.
Hoje, segundo o Stockholm International Peace Research Institute, há cerca de 12 mil ogivas nucleares no mundo, divididas entre nove países. Cada uma dezenas ou centenas de vezes mais potente do que as bombas de 1945.
Eu ainda me lembro do impacto de um livro da minha adolescência: Os Sinos de Nagasaki, do médico radiologista japonês Takashi Nagai (1908-1951). Os relatos dos dias seguintes ao cogumelo atômico me marcaram para sempre. Nagai escreveu da cama onde morreria de leucemia: “Que esta tragédia seja o preço da paz”.
Visitei Hiroshima há alguns anos. Fiquei em profundo silêncio diante do monumento a uma menina, Sadako Sasaki, que se propôs a dobrar mil tsurus (grou-da-mandchúria, ave símbolo de saúde e longevidade) na esperança de obter a cura. A pequena Sadako morreu de leucemia em decorrência da radiação, em 1955, aos 12 anos. Ali me lembrei de uma expressão aprendida ao visitar um campo de concentração na Europa: nunca mais. Esta é minha esperança: nunca mais.