A POLÍTICA NÃO ESPERA
A soberba e o risco de perder para si mesmo
JHC parece ter nascido para a política. Ainda muito jovem, construiu um espaço próprio no cenário alagoano, foi eleito deputado estadual, chegou à Câmara dos Deputados e rapidamente demonstrou habilidade para o exercício da vida pública. Diferentemente de muitos políticos de sua geração, compreendeu cedo a importância da comunicação, das redes sociais e da construção permanente de uma imagem pública.
Em 2020, disputou a Prefeitura de Maceió contra Alfredo Gaspar, então estreante nas urnas, e venceu uma eleição difícil no segundo turno. À frente da capital, consolidou uma gestão aprovada pela população, cercou-se de uma equipe qualificada e transformou as redes sociais em uma poderosa ferramenta política. A reeleição com ampla vantagem parecia apenas confirmar aquilo que muitos já diziam: JHC estava destinado a disputar cargos mais altos.
Mas a política costuma ser generosa com quem trabalha e cruel com quem acredita demais na própria sorte.
A disputa municipal é completamente diferente de uma eleição estadual. Em Maceió, JHC construiu uma liderança sólida e reconhecida. No interior, entretanto, o cenário é outro. Em boa parte dos municípios, sua presença política ainda é limitada, faltando lideranças locais capazes de sustentar um projeto majoritário competitivo.
Foi exatamente nesse momento que começaram os problemas.
Enquanto adversários percorriam o Estado, consolidavam alianças e organizavam suas bases, JHC mergulhou em um longo processo de indefinição. O tempo passava, os aliados aguardavam uma posição, e a política seguia seu curso. Como sempre acontece, o vazio começou a ser ocupado por outros atores.
A demora em tomar decisões gerou insegurança dentro do próprio grupo político. Lideranças passaram a cobrar definições. Partidos aguardavam respostas. Pré-candidatos buscavam saber qual seria o desenho da futura chapa majoritária. Mas a sensação predominante era a de que o ex-prefeito acreditava que o calendário eleitoral poderia esperar por sua vontade. Não podia.
A política não para. Não espera. Não concede tempo extra para quem demora a compreender a gravidade do momento.
No Senado, a situação também se tornou complexa. Arthur Lira permanece como uma das lideranças mais influentes do País e possui forte presença junto aos prefeitos. Renan Calheiros, mesmo desgastado por décadas de embates políticos, continua sendo um competidor experiente. Davi Davino mantém sua base eleitoral consolidada. E Alfredo Gaspar alcançou uma visibilidade nacional rara para um parlamentar alagoano, especialmente após sua atuação na CPMI do INSS.
Nos bastidores, começaram a surgir reclamações cada vez mais frequentes. Segundo relatos de integrantes do próprio grupo político, aumentaram as críticas relacionadas ao descumprimento de acordos, à dificuldade de diálogo e ao excesso de centralização das decisões.
Uma importante liderança resumiu o sentimento de forma direta:
“Ele quer forçar a barra e empregar a família toda. Não tem esse direito, nem esse tamanho político.”
A frase pode parecer dura, mas revela uma inquietação crescente. A política aceita herdeiros e respeita tradições familiares. O que não aceita facilmente é a imposição de interesses pessoais sobre os interesses coletivos de um projeto político.
A insistência em reservar espaços relevantes para familiares acabou provocando desconforto entre aliados que possuem trajetória própria, densidade eleitoral e legitimidade para disputar posições de destaque. Dra. Eudócia chegou ao Senado por uma circunstância eleitoral específica e não possui base eleitoral própria. Marina Cândia tem simpatia popular e boa presença nas redes sociais. Mas eleição estadual exige algo além da popularidade digital: exige estrutura, alianças e votos organizados.
A história política brasileira oferece inúmeros exemplos de candidatos considerados favoritos que acabaram derrotados pela realidade das urnas. Talvez seja exatamente essa a principal lição que o ex-prefeito precise compreender.
O sucesso acumulado ao longo dos últimos anos parece ter produzido uma perigosa sensação de invulnerabilidade. E a soberba, quase sempre, é o primeiro passo para os grandes fracassos políticos. A história está repleta de líderes que deixaram de ouvir aliados, passaram a acreditar apenas nos próprios instintos e acabaram surpreendidos pela realidade.
JHC continua sendo um dos políticos mais talentosos de sua geração. Tem carisma, capacidade de comunicação, inteligência política e um futuro promissor. Mas liderança verdadeira não se mede apenas pela capacidade de vencer eleições. Mede-se pela habilidade de unir pessoas, construir consensos e compreender limites.
Ainda há tempo para corrigir rumos.
Ainda há tempo para reconstruir pontes, recompor alianças e substituir a arrogância pelo diálogo. Ainda há tempo para compreender que nenhum projeto político vitorioso é construído sozinho.
A eleição de 2026 continua aberta. JHC pode vencer. Pode surpreender. Pode transformar as dificuldades atuais em uma grande recuperação política.
Mas, para isso, precisará abandonar a ideia de que o destino resolverá sozinho os problemas que a política exige enfrentar com trabalho, humildade e inteligência.
Porque seu maior adversário talvez não esteja em Arthur Lira, Renan Filho, Renan Calheiros ou Alfredo Gaspar.
Talvez esteja no espelho.