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A PRIMAVERA CLÁSSICA

O cansaço do clássico

A quase todo período de objetividade, sucede um de rupturas com os padrões de antes

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Imagem ilustrativa da imagem O cansaço do clássico
| Foto: Departamento de Criação da Central Gazeta de Notícias

Para quem estuda arte, surge sempre um jogo complexo entre clássico e anticlássico. Este não será um texto sobre arte, mas usarei o pontapé inicial das grandes vanguardas artísticas do passado.

Há um sistema de normas mais rígidas, matemático, mais despojado e outro, em reação, mais ousado, rebelde, “excessivo”. A quase todo período de objetividade, sucede um de rupturas com os padrões de equilíbrio que vicejavam antes. Exemplos? A arte grega clássica foi sucedida pela helenística, muito mais dramática e teatral. O Renascimento viu surgir Maneirismo e Barroco como estéticas novas. Neoclássicos foram sucedidos por românticos. Em várias obras de história da arte, essa tensão se repete. Aprendi muito com a reflexão antiga de Jakob Burckhardt e de Heinrich Wölfflin, bem como os mais recentes de Giulio C. Argan (Clássico e Anticlássico). Alguns indicam um Renascimento e um Barroco cíclicos (e não apenas os da Idade Moderna).

Após lerem os textos citados, muitos alunos ainda tinham dúvidas sobre o processo: como passo de uma estética para outra? Usava um recurso que pode ajudar. O Clássico é uma invenção, não é um dado da natureza, ainda que invoque uma matemática natural ou um equilíbrio inserido na ordem lógica da criação.

Inventa-se um padrão em diálogo com Grécia e Roma no Ocidente (existem clássicos também na China e na Índia). Se eu imaginasse um símbolo, o clássico inventado pode ser o vestido preto da grande Coco Chanel.

Uma mulher com um vestido preto e um fio de pérolas com sapatos pretos nunca será atacada. É uma senhora clássica. A roupa serve como moldura da personalidade dela. A suprema elegância, segundo a grande Madame, é ser você mesmo. Nada melhor para uma mulher do que ser ela mesma em um tubinho preto.

A fantasia prossegue: a mesma mulher vai a uma festa com seu vestido preto Chanel e o colar de pérolas. Ouvirá palavras como: “elegância atemporal, perfeita harmonia, sofisticada no despojamento; menos é mais”. Inatacável! E haverá outra festa. Se ela optar pelo preto com pérolas (mesmo sendo outro vestido e outro fio com esferas brancas), ela também será elogiada. Na décima celebração, convidados e ela mesma começarão a perceber que o padrão se repete. Talvez a mulher elegante se canse. O marido deixará de notá-la? Ela decide, na festa de número 11, colocar um colar de ouro no lugar das pérolas. Preto e ouro? Perfeito também. A joia chamará atenção. Os elogios que ela não mais ouvia com as pérolas discretas voltam a acontecer. Ela se anima. O colar, na festa de número doze, pode dialogar com um belo e fulgurante par de brincos. Dourado duplo e o preto? Ainda bom. Ortodoxos e invejosos começam a achar excessivo, “over”.

Imagine-se a vigésima festa no ano. Somam-se pulseiras, talvez um cinto dourado. De repente, a mesma figura inatacável do primeiro evento decide por um vestido vermelho intenso. Uma hemorragia cromática! Claro: grandes estilistas fizeram roupas vermelhas e é possível incorporar o rubro tecido sem deslizar. Há elogios, porém, despertam críticas: ela está “lacrando”, o verbo medonho que brota das redes. Outro neologismo: “biscoitando likes”! A partir daquela festa, ela percebeu que o preto é inatacável, mas o vermelhão impacta o Instagram. O caminho está definido.

Aqui meu exemplo para os alunos fica impreciso. O Barroco, sabemos desde Wölfflin, não é “excessivo”. Trata-se de outra estética apenas, que busca sua expressão de forma distinta. O que está em jogo aqui é se queremos certa invisibilidade do 100% elegante ou o dourado que impactará mais gente. A resposta do mundo atual viciado na dopamina das redes é, sempre, o impactante acima de tudo. Discrição é anonimato e ser opaco é a morte financeira e social.

O filho da rainha Vitória, futuro rei Eduardo VII, passou uma longa vida como Príncipe de Gales. Divertiu-se com amantes e festas pela Europa. Arrumava-se com o esmero de um herdeiro do trono inglês. Um dia, teria ouvido: “O senhor é o homem mais elegante da Europa”. Ele teria respondido: “Se notaram, não sou mais”. O padrão dessa anedota ilustra o que eu queria dizer. Existe uma beleza clássica extremamente discreta e atemporal. Infelizmente, ela é inimiga de uma era de redes sociais exuberantes. Ao entrar no tapete vermelho, o ideal é o vestido feito de carne crua de Lady Gaga (2010). Ele será debatido por anos e lembrado nesta crônica. Alguém se lembra se ela já vestiu um tubinho preto da Chanel fora Audrey Hepburn? A escolha da roupa e do padrão de vida nasce de uma vontade de ser inatacável ou, sendo atacado como excessivo, exótico ou extravagante, ser lembrado sempre. No mundo das redes, o debate deixa você atrativo para o algoritmo. A pergunta está muito além de certo ou errado, elegante ou kitsch? A indagação adequada é: aumentou as visualizações? Virou “trend topic”?

Após anos de gente causando, agrada-me a ideia de uma primavera clássica. E você, querida leitora e estimado leitor. Esperanças estéticas no futuro? Talvez uma reação vegana ao vestido de Lady Gaga?

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