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COERÊNCIA OU CONVENIÊNCIA ?

O confronto entre a ética e a sobrevivência

A ética pública exige coerência mínima entre discurso e comportamento

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A política brasileira é fértil em exemplos de ascensão, glória, decadência e sobrevivência. Poucos personagens atravessam décadas de vida pública sem carregar contradições, rupturas e cicatrizes. Em Alagoas, a trajetória do vice-governador Ronaldo Lessa parece se encaminhar para um desfecho melancólico, marcado menos pelo brilho do passado e mais pelas escolhas do presente.

É impossível negar que Ronaldo Lessa construiu uma carreira politicamente relevante. Saiu da Câmara de Vereadores para a Assembleia Legislativa, tornou-se prefeito de Maceió, deputado federal e governador por dois mandatos. Em momentos importantes de sua trajetória, demonstrou capacidade administrativa, forte apelo popular e identificação com setores mais humildes da população. Durante anos, foi visto como símbolo de uma política próxima do povo, com discurso simples e estilo popular.

Mas a política costuma ser implacável com aqueles que confundem liderança com permanência eterna no poder.

A derrota para o Senado diante de Fernando Collor marcou o início de uma longa descida. Muitos atribuíram aquele fracasso não apenas à força do adversário, mas também ao desgaste acumulado por um estilo político que, segundo antigos aliados, teria se tornado mais centralizador e distante. Lideranças do interior passaram a relatar dificuldades de diálogo, reclamações sobre a concentração das decisões e desconforto com o tratamento dispensado a parceiros históricos. A política, especialmente no Nordeste, é construída também sobre relações pessoais, reciprocidade e confiança contínua. Quando esses vínculos se rompem, o desgaste se torna inevitável.

Vieram, então, os anos de ostracismo.

Sem densidade eleitoral suficiente para retornar sozinho ao centro do tabuleiro, Ronaldo Lessa ressurgiu ao ser escolhido para compor a chapa do então prefeito JHC. O retorno parecia representar uma sobrevida política. Contudo, ao longo da gestão municipal, sua participação mostrou-se discreta e limitada. Sem protagonismo administrativo expressivo, o cargo passou a ser percebido mais como espaço de acomodação política para antigos aliados do que como instrumento efetivo de formulação pública.

A política brasileira conhece bem esse fenômeno: líderes que deixam de disputar votos passam a disputar espaços de acomodação.

Quando percebeu que já não possuía força eleitoral autônoma para protagonizar uma eleição majoritária, Ronaldo Lessa aproximou-se do governador Paulo Dantas. Recebeu espaço político, prestígio institucional, influência administrativa e estrutura pública para acomodar seu grupo. Foi acolhido por um governo que lhe devolveu visibilidade e relevância política. Voltou a ser ouvido, lembrado e tratado como peça importante no xadrez estadual.

Mas a política também revela o caráter dos homens nos momentos de conveniência.

Ao perceber o crescimento eleitoral de JHC, Ronaldo Lessa novamente alterou sua rota. Aproximou-se daquele de quem havia se distanciado politicamente. Passou a admitir a possibilidade de compor uma nova chapa, mais uma vez na condição de vice — posição naturalmente mais confortável para quem já não dispõe de capital eleitoral suficiente para enfrentar sozinho uma disputa competitiva.

É exatamente aqui que surge o confronto entre ética e sobrevivência.

Na política, mudar de posição pode ser legítimo. Divergências acontecem. Projetos se rompem. Alianças terminam. O problema não está, necessariamente, na mudança de lado, mas na forma como ela ocorre – e nos benefícios que continuam sendo usufruídos enquanto o discurso político já transita no campo adversário.

A ética pública exige, ao menos, coerência mínima entre discurso e comportamento.

Se alguém rompe politicamente com um governo, especialmente ocupando o segundo cargo mais importante da estrutura estadual, o gesto eticamente mais coerente seria a renúncia. Permanecer formalmente no posto enquanto atua politicamente em direção oposta transmite à sociedade a sensação de conveniência absoluta. O cargo deixa de parecer missão institucional e passa a ser percebido como instrumento de manutenção de privilégios.

E é aí que reside o grande desgaste.

O vice-governador deixa de ser visto como figura pública orientada por convicções e passa a ser associado à lógica da sobrevivência política a qualquer custo. Salário, estrutura oficial, gabinete, assessorias, veículos, prestígio institucional e acomodações públicas tornam-se elementos difíceis de abandonar para quem já não dispõe de força eleitoral independente.

A história política oferece exemplos opostos.

Charles de Gaulle deixou o poder quando percebeu que já não possuía respaldo político suficiente para governar com legitimidade plena. Tancredo Neves construiu sua trajetória sobre a palavra empenhada e a coerência política. Ulysses Guimarães tornou-se símbolo justamente por compreender que mandato jamais poderia ser confundido com patrimônio pessoal. Nelson Mandela ofereceu ao mundo uma das lições mais raras da política contemporânea ao abrir mão do poder no auge de seu prestígio, demonstrando que a grandeza também está em saber partir.

O caso de Ronaldo Lessa parece refletir o movimento inverso.

O homem que já governou Alagoas, mobilizou multidões e exerceu protagonismo político hoje transmite a imagem de alguém aprisionado ao medo do desaparecimento político. E talvez esse seja o aspecto mais triste de toda a trajetória: não a derrota eleitoral em si, mas a dificuldade de reconhecer o próprio tempo histórico.

Grandes líderes sabem a hora de lutar.

Estadistas sabem a hora de sair.

A insistência em permanecer ocupando espaços sem legitimidade política proporcional ao cargo produz desgaste pessoal, institucional e histórico. O poder, quando deixa de servir ao interesse público e passa a servir exclusivamente à sobrevivência individual, perde sua nobreza.

No fim, a política cobra de todos uma conta inevitável: a da coerência.

E é exatamente aí que muitos fracassam.

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