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TERREMOTO POLÍTICO

Não foi Messias, foi Lula

Uma derrota histórica que expõe fissuras de poder e inaugura um novo momento na relação entre Executivo e Senado

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A rejeição do nome do advogado-geral da União, Jorge Messias, para uma vaga no Supremo Tribunal Federal não foi apenas um revés pessoal – foi um terremoto político com epicentro no Palácio do Planalto. Por 41 votos a 34, o Senado Federal não disse apenas “não” a uma indicação presidencial; disse “não” ao próprio governo. Um episódio raro, praticamente sem precedentes na história republicana recente, que desnuda a fragilidade de uma articulação que, até então, parecia sólida.

Jorge Messias construiu sua trajetória longe dos holofotes, mas no coração do poder. Técnico respeitado, operador jurídico habilidoso, figura de confiança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sempre atuou nos bastidores – onde as engrenagens do Estado giram com mais intensidade e menos exposição. Sua indicação ao Supremo não foi apenas uma escolha institucional: foi um gesto político carregado de simbolismo, uma tentativa de consolidar presença e influência em uma das mais importantes cortes do País.

Tudo indicava uma aprovação. O governo contava votos, fazia cálculos, operava nos bastidores. A tradição brasileira sempre foi de deferência – ou, ao menos, de condescendência – do Senado às indicações do Executivo para o Supremo. Mas a política, como se sabe, é o território das surpresas. E, desta vez, a surpresa veio em forma de derrota.

O que houve, afinal? Houve, antes de tudo, uma leitura equivocada do momento político. O governo subestimou o grau de insatisfação latente no Senado. Ignorou sinais de desgaste, ruídos na comunicação, desconfortos acumulados. Apostou que a força institucional bastaria. Não bastou.

Nos bastidores, o papel do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, foi decisivo – ainda que silencioso. Ao não atuar de forma clara em favor da indicação, ao permitir que a votação transcorresse sob um ambiente de maior autonomia, Alcolumbre enviou um recado poderoso: o Senado não é apêndice do Executivo. É Poder. E, como tal, quer ser tratado.

A votação revelou mais do que números. Revelou um Senado fragmentado, mas consciente de sua força. Parlamentares que, em outras circunstâncias, votariam com o governo, optaram pela independência – ou, em alguns casos, pela retaliação. A política é feita também de gestos, de sinais, de demonstrações de força. E esse foi um gesto eloquente.

A oposição, por sua vez, soube aproveitar o momento. Organizou-se, articulou-se, construiu uma maioria improvável. Mais do que barrar um nome, conseguiu impor uma derrota simbólica ao governo. Mostrou que há espaço para enfrentamento, que o Planalto não detém hegemonia e que o jogo político permanece aberto.

Mas é impossível não reconhecer: a derrota de Messias é, essencialmente, a derrota de Lula. Um presidente que construiu sua trajetória política na base do diálogo, da negociação e da formação de maiorias vê-se agora diante de um cenário distinto. O Congresso mudou. Está mais autônomo, mais desconfiado, mais disposto a impor limites.

Há, também, um componente de desgaste. O governo acumula ruídos, enfrenta críticas e convive com tensões internas e externas. A derrota no Senado não surge no vazio; é consequência de um ambiente político que se deteriora, ainda que de forma silenciosa.

Jorge Messias, nesse contexto, torna-se vítima de uma disputa que não é sua. Um quadro técnico, sem histórico de confronto público ou protagonismo ideológico, acaba sendo tragado por uma lógica de polarização que transforma qualquer indicação em campo de batalha. Não era o alvo – mas foi o atingido.

O impacto institucional é relevante. A rejeição de um nome para o Supremo abre um precedente que pode ser lido sob duas perspectivas. De um lado, o risco de maior politização das indicações, transformando o processo em disputa aberta entre forças partidárias. De outro, a reafirmação do papel do Senado como instância efetiva de controle, rompendo com a lógica de aprovação automática.

E o que vem agora? Vem – ou deveria vir – um período de recalibração. O governo precisará reconstruir pontes, revisar métodos e ajustar sua estratégia. Não há mais espaço para decisões baseadas exclusivamente em proximidade política ou confiança pessoal. Será necessário dialogar mais, ouvir mais, negociar mais.

No fundo, o episódio revela algo maior: o Brasil atravessa um momento de transição política. As relações entre os Poderes estão sendo redesenhadas. O equilíbrio institucional está sendo testado. E, nesse processo, derrotas como essa ganham dimensão histórica.

A política, afinal, não perdoa erros de leitura. E, dessa vez, o erro não foi de Jorge Messias. Foi de quem acreditou que o passado ainda era parâmetro para o presente. Não foi Messias. Foi Lula. E as consequências dessa derrota ainda estão longe de se esgotar.

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