Meio ambiente
Caatinga enfrenta pressão de pasto, energia e desmatamento em Alagoas
Nos últimos 40 anos, estado perdeu 88% da vegetação do bioma, que se estende por 44 municípios
Às margens do Rio São Francisco, no Sertão alagoano, a caatinga ainda sustenta formas de vida que atravessam gerações. Em áreas como o assentamento Lameirão, em Delmiro Gouveia, o bioma aparece não apenas como paisagem, mas como fonte direta de alimento, renda e circulação de pessoas.
A presença de frutas nativas, a observação frequente de animais e o uso coletivo da terra convivem com iniciativas de preservação e turismo local. Nesse cenário, a relação com a caatinga é cotidiana e prática.
“É muito importante preservar a caatinga. No nosso caso, a gente trabalha com o extrativismo do umbu, faz picolé, geleia e outros produtos com frutas nativas. Isso mostra a importância do bioma, além da questão ambiental mais ampla, especialmente nas margens do Rio São Francisco, que precisam ser preservadas”, diz Ronislanio Francisco da Silva, do assentamento.
Esse tipo de uso direto do bioma ainda sustenta parte das populações do semiárido. A coleta de frutos, a agricultura familiar e pequenas cadeias produtivas seguem como estratégia de permanência no território, mesmo diante do avanço da degradação.
Dados recentes indicam a dimensão dessa perda. Levantamento do Instituto SOS Caatinga, com base em dados do MapBiomas, aponta que Alagoas perdeu 88% da vegetação de caatinga nos últimos 40 anos.
Hoje, o bioma ocupa cerca de 43% do território estadual e se distribui entre o alto Sertão, médio Sertão, bacia leiteira e áreas do Agreste, alcançando dezenas de municípios. Segundo o IBGE, são 44 cidades com presença de caatinga em Alagoas.
PRESSÃO CONTÍNUA
A redução da cobertura vegetal ocorre de forma persistente e associada a diferentes frentes de uso do solo. A abertura de áreas para pastagem, a agricultura irrigada, a instalação de projetos de energia e a supressão irregular de vegetação compõem o quadro atual de pressão sobre o bioma.
“O diagnóstico do Ministério Público aponta para uma pressão contínua sobre o bioma, impulsionada principalmente pela expansão irregular para atividades agropecuárias e pelo desmatamento focado na supressão de vegetação nativa”, afirma o promotor de Justiça Kleber Coelho, do Ministério Público de Alagoas.
Além da retirada da vegetação, o uso de queimadas e insumos químicos amplia os impactos ambientais.
“Identificamos como principais focos de pressão a supressão em larga escala, além da prática reiterada de queimadas não autorizadas e do uso indevido de agrotóxicos, que contaminam o solo e os recursos hídricos da região”, acrescenta.
A degradação altera a dinâmica ecológica e compromete funções básicas do ambiente, como a fertilidade do solo e a manutenção da biodiversidade.
“Isso significa que a terra perde sua vida, sua produtividade e complexidade biológica, o que impacta direta e indiretamente a biodiversidade, mas também as populações locais, seja economicamente ou até culturalmente”, diz a bióloga Ludmilla Costa-Pinto, do Museu de História Natural da Ufal.
Entre os efeitos observados estão a redução de espécies e o avanço de áreas suscetíveis à desertificação.
“A estrutura do canal representa uma armadilha para mamíferos terrestres, que podem cair nas águas e não conseguir sair, resultando em mortes por afogamento”, explica Ludmilla.
CANAL
O Canal do Sertão, construído para ampliar o acesso à água no semiárido, passou a integrar essa equação com efeitos ainda desiguais. Apesar do potencial de abastecimento, a estrutura não tem garantido distribuição ampla nem regular para as comunidades ao longo de seu percurso.
“Comunidades vizinhas ao canal continuam abastecendo suas casas com carros-pipa. Não houve muitos projetos complementares que possam garantir água para consumo humano, que é o objetivo principal do canal”, diz a professora Flávia Moura, da Ufal.
O acesso à água, segundo ela, ainda é desigual e limitado, mesmo nas áreas próximas ao canal.
Ao mesmo tempo, o canal – cuja construção foi iniciada no governo do então Presidente Fernando Collor – abre possibilidade de expansão produtiva, o que pode intensificar a pressão sobre o bioma caso não haja planejamento. “O canal pode ser um vetor de produção e conservação”, avisa.
A ausência de organização no uso da água e do território também pode alterar a estrutura fundiária local.
“É urgente que se pense o canal do sertão de uma forma que atenda a mais famílias e não a poucos latifúndios”, completa Moura.
COMO CONSCIENTIZAR E CONSERVAR
Em paralelo às pressões, iniciativas de conservação e educação ambiental buscam ampliar o conhecimento e a valorização do bioma.
Projetos desenvolvidos em Alagoas combinam ciência, cultura e linguagem acessível para aproximar a população da caatinga.
“Os Encantos da Caatinga é um projeto que foi pensado para trazer visibilidade para esse bioma tão importante, principalmente para nós da região Nordeste, mas que é tão pouco discutido”, diz Luana Almeida, coordenadora da iniciativa na Ufal.
As ações incluem produção audiovisual, materiais educativos e abordagens culturais ligadas à identidade regional.
“Além da sensibilização ambiental, nós também fazemos resgate cultural por meio das músicas, das espécies de fauna e flora, dos cenários, dos sotaques e das expressões dos personagens”, acrescenta.
No campo, experiências de recuperação avançam com produção de mudas e recomposição de áreas degradadas, muitas vezes conduzidas por comunidades locais.
“A gente produz mudas de espécies da caatinga em mutirão. Toda semana há plantio de novas sementes e mudas, que depois são distribuídas para áreas da comunidade e regiões próximas”, relata Ronislanio.