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Derrota de Trump é vitória da democracia

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Dez dias depois da virada histórica de Lula no Brasil, a vitória avassaladora dos democratas nos EUA fecha um ciclo político virtuoso que se iniciou, na verdade, com a derrota de Viktor Orbán na Hungria, numa mensagem inequívoca de rejeição à guerra — e seu impacto no custo de vida —, à violência, à arrogância, à grosseria e ao desrespeito. O Brasil tornou-se, nessa eleição, uma referência para o mundo, com sua mobilização pacífica de jovens nas redes e nas ruas, idosos indo votar com sacrifício físico e a defesa da democracia perante uma ameaça autoritária.

O Brasil mostra que é possível superar várias adversidades, como o poder das grandes empresas de tecnologia, a parcialidade de um presidente do Tribunal Superior Eleitoral, o poder econômico do setor financeiro e do agronegócio e de parte da grande mídia.

O que vimos nos EUA, nessas eleições de midterms, foi uma vitória acachapante dos democratas em todo o país contra a extrema-direita republicana, com a eleição de governadores e senadores azuis em estados tradicionalmente republicanos, dando à oposição a Trump ampla maioria na Câmara e no Senado, sinalização de que os dois últimos anos do Agente Laranja serão de revitalização da democracia.

Nesse tsunami veio o democrata Felipe Sousa Lazaballet, de 40 anos, que se tornou o primeiro brasileiro eleito deputado estadual na Flórida nas eleições de midterms, no dia 3, nos EUA. Ele conseguiu cerca de 63% dos votos contra seu opositor republicano na região metropolitana de Orlando.

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Lazaballet também se tornou o primeiro imigrante abertamente gay a conseguir o cargo no estado da Costa Leste dos Estados Unidos. Ele imigrou para o país na adolescência e permaneceu em situação irregular por anos. Esteve na linha de frente da mobilização para que esses jovens tivessem sua situação regularizada no país.

Nascido em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, Felipe Sousa Lazaballet é filho de mãe solo, empregada doméstica natural do Ceará. Foi levado aos EUA em 2001, aos 14 anos, pela irmã mais velha, de quem era próximo e que havia migrado seis anos antes para a Flórida. Viajou com um visto de turista, já sem planos de retornar ao Brasil.

A irmã havia prometido que o levaria assim que se estabilizasse, para que Felipe pudesse ter um futuro com mais oportunidades. Ele foi matriculado no colégio, tornou-se um dos melhores alunos e criou uma rede de amizades. Foi em torno dos 16 anos, no entanto, que ele enfim tomou consciência de como sua vida poderia ser afetada por ser um imigrante em situação irregular, pois seu visto de turista havia vencido há muito tempo. O orientador profissional de sua escola disse que, nessa condição, ele não poderia ir para uma universidade.

Após passar meses desolado com essa informação, dado que o ensino superior era um sonho que acalentava, Felipe soube, por meio de outro brasileiro, seu conhecido da igreja que frequentava, que o Miami Dade College, uma das principais faculdades da Flórida, aceitava imigrantes que, como ele, estavam em situação irregular.

Isso não ocorre atualmente, mas, naquela época, Felipe abraçou a oportunidade com unhas e dentes e estudou relações internacionais na instituição. Naquele período, ganhou ainda mais consciência de sua situação imigratória. Crescia nos EUA, afinal, um debate que o incluía diretamente: a mobilização para que imigrantes que foram levados para o país na infância fossem regularizados pelo governo.

Essas pessoas eram, e ainda são, conhecidas como dreamers (sonhadores). Elas ainda existem pelo mundo.

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