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No caminho da normalidade

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Feita a escolha dos brasileiros, o presidente reeleito terá pela frente pouco mais de dois meses até a nova posse para dizer realmente a que pretende vir em seu inédito quarto mandato, sem a máscara cor-de-rosa das contingências de campanha.

No discurso da vitória, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sinalizou ter absorvido o aprendizado dessa eleição ao dizer que mudará “o jeito de governar”. Não tendo sido mero reflexo do feito memorável da virada e fruto do alívio diante do susto da sombra da derrota, a frase carrega uma boa mensagem. Auspiciosa, a nota de autocrítica ainda está para se materializar como diretriz do anunciado novo enredo.

Todavia, para quem se lembra do pesadelo vivido pelo Brasil há quatro anos, a decisão de Flávio Bolsonaro de desistir de batalhar pela anulação do pleito foi um alívio. Sinal de que a ultradireita, derrotada por uma margem de 4 milhões de votos, decidiu aquietar-se nos Estados Unidos.

Há quatro anos, vivandeiras acampavam diante dos quartéis, pedindo um golpe de Estado. Rodovias eram obstruídas por incendiários que não poupavam nem as ambulâncias. O afastamento dos militares da política foi uma das maiores realizações do Lula 3.0.

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Ele conseguiu isso porque, ao contrário de seu antecessor e de alguns aventureiros, inclusive do mercado, não opera jogando na tensão. A vitória de Lula foi um poderoso sinal de que, em quatro anos, ele recolocou o Brasil no caminho da normalidade. Até Donald Trump e presidentes latino-americanos deram-se conta disso.

Noutra ponta da equação, o remédio aplicado aos envolvidos na trama golpista e no vandalismo do 8 de janeiro mostrou-se eficaz por ser dissuasório.

Lula vai abraçar uma agenda de lei e ordem e fará algum ajuste nas despesas públicas. Afinal, ele gastou para ganhar a eleição e ganhou-a. A partir de domingo, sai de campo o palanqueiro e volta a metamorfose ambulante. Quem não vai aparecer é um Lula que acredita numa lenda que agrada à Faria Lima: quem recebe Bolsa Família não quer trabalhar. A pobreza ensinou-lhe que pobre quer trabalhar e, se possível, empreender.

A oposição fez grandes bancadas na Câmara e no Senado. Em alguns casos, os parlamentares representam eleitores conservadores, como os da bancada do agro. Supor que esses senadores e deputados cheguem a Brasília pintados para a guerra é uma ilusão. A metamorfose ambulante cuidará disso, como cuidou do atual Congresso, sem maiores contratempos. A única lombada deu-se na indicação de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal, mas isso se deveu mais ao salto alto do Planalto do que a uma divergência doutrinária.

Em 2002, quando foi eleito pela primeira vez, temia-se uma onda radical. Ele colocou Antônio Palocci no Ministério da Fazenda e fez as pazes com a banca. Fernando Henrique, seu antecessor no Planalto, avisava: “Lula não é de esquerda”. (Há poucos meses, Lula repetiu isso para a diretora do Fundo Monetário Internacional, Kristalina Georgieva.)

A trégua que se dá aos vencidos está deixando para depois o balanço do peso dos Bolsonaro no conjunto da oposição. Perderam duas eleições presidenciais. Lula perdeu três (1989, 1994 e 1998), mas sua liderança no PT era diferente da que Bolsonaro exerce no PL. Para começar a conversa, Lula não comanda uma dinastia.

Além disso, em 2030, a oposição terá na agulha a bala de Tarcísio de Freitas, com um currículo inédito: quatro anos como ministro da Infraestrutura e oito como governador de São Paulo. O resultado de domingo passado poderá libertar Tarcísio de Freitas do voto de silêncio presidencial e recolocar uma direita democrática no caminho da normalidade.

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