Transformação
O eixo que se move
Há uma mudança na política brasileira que vai além da disputa entre Lula e Bolsonaro. Nas últimas décadas, o eixo que organiza o espectro político brasileiro vem se deslocando para a direita. É uma tendência que já transformou a composição do Congresso e os termos do debate público.
Os números ajudam a dimensionar essa mudança. Entre 1986 e 2014, os partidos de direita ocupavam, em média, 36% das cadeiras da Câmara. Em 2018, passaram a ocupar 56%. Em 2022, chegaram a 61%. No Senado, a direita tornou-se majoritária em 2022, ocupando 64% das cadeiras.
A eleição de 2026 reforçou esse cenário. Na Câmara, o PL elegeu 121 deputados e terá a maior bancada a partir de 2027. No Senado, 49 dos 81 parlamentares são de direita ou de extrema direita. O número corresponde a três quintos da Casa, exatamente o quórum necessário para aprovar mudanças na Constituição.
Esse deslocamento acontece nas urnas e no discurso. Quando determinadas forças políticas ampliam sua presença institucional, também ampliam sua força na disputa pelos sentidos que organizam o debate. Ideias antes marginais podem chegar ao centro da conversa; posições que pareciam absurdas podem passar a ser apresentadas como legítimas; temas antes secundários podem se tornar prioridades nacionais.
CRB perde para o Botafogo-SP por 1 a 0 - 19/10/2026
Crime no Tabuleiro dos Martins, homem é morto com disparos de arma de fogo
Botafogo-SP abre placar contra o CRB e deixa Rei Pelé em silêncio
Cabo Bebeto cobra posicionamento de JHC, Marina e Rodrigo Cunha para presidência
Coordenador da campanha de Lula em AL, Paulo Dantas crê em virada no 2º turno
A transformação do ambiente de comunicação política faz parte desse processo. As redes sociais e os aplicativos de mensagens alteraram a maneira como informações e narrativas circulam. Uma pesquisa baseada em dados do Estudo Eleitoral Brasileiro mostrou que o uso de Facebook, WhatsApp e YouTube como fontes de informação política esteve associado a quase o dobro das chances de voto em Bolsonaro em 2018. O ecossistema também mudou: mais atores passaram a produzir informação, mobilizar emoções, propor interpretações e construir narrativas.
A disputa é por votos, mas, antes disso, é pela capacidade de definir as palavras e os enquadramentos a partir dos quais a sociedade enxerga a própria realidade. O deslocamento desse eixo não é irreversível. Ele também pode acontecer pela construção de novas formas de interpretar o mundo, defender ideias, pensar e imaginar futuros possíveis.