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Paradoxo

A maior distância entre Brasil e China talvez não seja tecnológica

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Viajei para a China esperando voltar impressionada com a tecnologia. E voltei. É difícil não se surpreender com os carros elétricos, a robótica, a integração entre varejo físico e digital e, principalmente, com a velocidade com que a inteligência artificial começa a ocupar espaços concretos na vida das pessoas e na operação das empresas.

Mas, ao longo dos dias, outra coisa passou a chamar mais minha atenção. Quanto mais tecnologia eu via, menos ela parecia ser o assunto. O que realmente me impressionava era a capacidade de transformar possibilidades em execução, com velocidade, escala e, principalmente, disciplina.

Há uma dimensão cultural, histórica, econômica e política nessa diferença que não pode ser ignorada. A China trabalha com horizontes longos de planejamento e uma capacidade de coordenação muito diferente da realidade brasileira. Não se trata de reproduzir o modelo chinês, mas há algo naquela cultura de execução que merece nossa atenção: planejar, fazer, medir, corrigir e continuar fazendo.

No varejo, encontrei essa mesma lógica. Falamos sobre — e visitamos — a Miniso, conhecemos um modelo que parte de milhares de ideias para chegar rapidamente a uma seleção de novos produtos. Dados, CRM, Business Intelligence e inteligência artificial apoiam também a gestão das lojas. A tecnologia importa, mas o que mais me interessou foi a capacidade de encurtar a distância entre informação, decisão e execução.

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Essa talvez seja uma das reflexões mais relevantes que trouxe da viagem. Falamos muito sobre o potencial da inteligência artificial e sobre o que ela será capaz de fazer. Na China, a discussão parece mais pragmática: menos onde colocar IA e mais o que podemos fazer melhor, agora que temos IA.

Quando começamos pela tecnologia, corremos o risco de procurar problemas que justifiquem seu uso. Quando começamos pelo problema, ela ocupa o lugar que deveria: ampliar capacidades, eliminar etapas, melhorar decisões, reduzir desperdícios e tornar a operação mais eficiente.

O acesso à tecnologia tende a se democratizar. Modelos de IA, capacidade computacional, automação e ferramentas de análise estarão cada vez mais disponíveis. Disciplina de execução, no entanto, não se compra como software.

Podemos aprender com a capacidade de estabelecer uma direção, executar com consistência, medir resultados e corrigir a rota. E essa reflexão me provoca especialmente como alguém que trabalha há muitos anos com tecnologia. Talvez nós, desse setor, tenhamos contribuído para colocá-la excessivamente no centro da conversa.

Falamos de sistemas, plataformas, funcionalidades e, agora, inteligência artificial. Mas nossos clientes não acordam querendo tecnologia. Eles têm operações para fazer funcionar, clientes para atender, margens para preservar, pessoas para gerir e problemas para resolver.

A tecnologia relevante é aquela que consegue entrar nessa realidade e torná-la melhor.

Há algum tempo, adotamos na NL uma frase que sintetiza aquilo em que acreditamos: “Tecnologia. Como deve ser.” Voltei da China percebendo uma nova dimensão desse significado.

Tecnologia como deve ser não é necessariamente a mais nova ou sofisticada. É a que encontra um problema relevante, integra-se à operação, amplia a capacidade das pessoas e é medida pelo resultado que produz. Quando isso acontece, ela deixa de ser novidade e passa a fazer parte da maneira como as coisas funcionam.

Talvez esse tenha sido o maior paradoxo da viagem. Fui a um dos lugares mais tecnológicos que já conheci e voltei pensando menos em tecnologia do que imaginava.

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