POLARIZAÇÃO
Reféns da polarização
Finalmente, após idas e vindas, dúvidas e disputas, as campanhas eleitorais estão rolando desde o último domingo. Por tudo quanto assistimos no período de pré-campanha, emoções muito maiores irão rolar, e a luta ferrenha pelo poder mostrará suas garras, seus perrengues e as gravidades que o processo pode revelar ao longo da jornada.
Serão 50 dias até o primeiro turno, nos quais milhões de brasileiros conviverão com um ambiente de agressões e questionamentos, pavimentando seus caminhos às urnas para escolher seus representantes na cúpula alta do poder. Como qualquer brasileiro responsável, considero que será um momento importante para que a democracia nacional se confirme, bem como uma preciosa oportunidade para que a nação reflita sobre um fenômeno que, há alguns anos, vem contaminando a vida pública nacional: a polarização política. Não sou ingênuo e sei que, naturalmente, a divergência de ideias é saudável.
A história revela que, em toda sociedade democrática, existem diferentes visões sobre as dimensões sociopolíticas, sobremaneira as da economia, saúde, educação, segurança pública e política externa. E no Brasil não podia ser diferente. Contudo, no nosso caso, o problema se tornou extremamente complexo, porquanto as divergências deixaram de ser fatores que visem ao aperfeiçoamento das decisões coletivas e benéficas à nação e passaram a ser uma luta ferrenha pelo poder. O país está dividido em dois campos que se enxergam com crescente desconfiança e estão eivados de princípios ideológicos, nem sempre bem interpretados.
O debate de ideias, a rigor, desapareceu, sendo substituído por ataques, inclusive pessoais, produzindo um ambiente perverso, jogando o interesse nacional para um plano inferior e, muitas vezes, esquecido. Em suma, estamos reféns de uma polarização danosa e irresponsável. É lamentável notar que projetos importantes deixam de avançar simplesmente porque foram propostos pelo “outro lado”. O mérito da proposta torna-se menos importante do que a identidade de quem a apresentou.
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Ora, minha gente, nenhuma democracia madura prospera dessa maneira. As grandes nações conseguem avançar justamente porque, apesar das diferenças ideológicas, preservam alguns consensos fundamentais: o respeito às instituições, à Constituição, à alternância de poder e, sobretudo, ao diálogo. Há um bom tempo, nada disso vem ocorrendo por aqui. É evidente que eleições despertam paixões. Sempre foi assim e continuará sendo. O voto envolve convicções profundas, expectativas e sonhos.
Contudo, a paixão política não pode eliminar a capacidade de ouvir quem pensa diferente. O político brasileiro precisa entender isto. A polarização que hoje se verifica no Brasil tem levado ao desperdício de oportunidades preciosas. O país não avança. A sociedade tende a empobrecer cada vez mais, a indústria definha, o dinâmico agronegócio vem perdendo competitividade, a insegurança campeia de norte a sul, a infraestrutura se deprecia e assim por diante. Os índices de desempenho são divulgados a toda hora pelos meios de comunicação e revelam situações nada apreciáveis.
É lamentável lembrar que o Brasil possui desafios suficientemente grandes enquanto são alimentados antagonismos crônicos. Este país precisa de governos competentes, mas também de uma oposição responsável. Que surjam líderes capazes de convencer, e não apenas de vencer. Precisamos, sobretudo, de cidadãos dispostos a colocar o futuro do país acima das preferências partidárias. Neste início de campanha eleitoral, talvez valha a pena recordar que adversários políticos não são inimigos da Pátria.
O eleitor tem o direito — e o dever — de escolher o candidato que considere mais preparado. Mas também tem a responsabilidade de rejeitar o discurso do ódio, da intolerância e da desumanização daqueles que fazem escolhas diferentes. As eleições passam. Os governantes mudam.
Os partidos se renovam. A nação, porém, permanece. E ela somente será mais forte se conseguir recuperar uma virtude que parece cada vez mais rara na vida pública brasileira: a capacidade de discordar sem destruir, debater sem ofender e construir sem dividir. Que esta campanha seja uma oportunidade para elevar o nível da discussão política.