Comportamento
Recomeçar depois dos 60 exige coragem para abrir novas portas
Tive a oportunidade de observar, ao longo da vida, que existe uma crença silenciosa que nos envolve desde muito cedo e nos diz que há uma idade para começar e outra para encerrar sonhos. Imobilizante, ela nos faz acreditar que, ao cruzarmos determinadas fases da vida, é esperado que nosso ritmo diminua, que nossos sonhos se reduzam e que as expectativas sejam deixadas de lado em nome da comodidade. Para mim, porém, o tempo ensinou algo diferente.
Agora, após os 60 anos, todo ato de recomeçar se torna uma escolha de maturidade, e não apenas um privilégio da juventude. Ao longo dos anos, construí uma carreira como empresária, profissional, mãe e mulher. Também vivi os desafios que cada uma dessas funções exigiu de mim, desde a educação dos filhos até a administração das responsabilidades, das perdas, das mudanças e das transformações.
Muito antes de aprender a escutar a mim mesma e compreender com profundidade o que meu espírito pedia, eu já atendia a todas essas demandas do mundo externo, como nós, mulheres, somos ensinadas a fazer. Talvez seja justamente por isso que a liberdade me venha com tanta naturalidade nesta fase da vida, porque a sensação de ter me dedicado plenamente a todas essas frentes fortalece minha coragem para recomeçar, mesmo em uma idade na qual muitas pessoas preferem poupar esforços por medo de tentar novamente.
Esses recomeços não apagam a história da minha vida, tampouco deixam de lado os momentos importantes que me formaram. Pelo contrário, são justamente essas experiências que servem de base para traçar novos caminhos. Se eu não tivesse adquirido a maturidade construída ao longo da vida, dedicando-me intensamente a cada etapa, talvez não tivesse a coragem necessária para dar mais um passo, mesmo sentindo medo.
Hoje vivemos mais do que as gerações anteriores, temos mais saúde, maior acesso às tecnologias que facilitam o dia a dia, mais autonomia mesmo após determinada idade e, principalmente, mais ferramentas para descobrirmos quem realmente somos. Temos todas as condições para aprender coisas novas e reencontrar versões de nós mesmos que ficaram para trás. Ainda assim, muitas pessoas permanecem aprisionadas à ideia de que já passou o tempo de mudar de profissão, aprender algo novo, iniciar um relacionamento, empreender ou desenvolver um talento adormecido.
É por isso que faz sentido, para mim, acreditar que ainda posso aprender mais. Posso voltar a estudar, descobrir um novo propósito, abrir um negócio, viajar sozinha ou com amigas, ler um livro, plantar um jardim ou simplesmente me permitir experimentar algo que jamais considerei antes. A idade não limita meus recomeços; ao contrário, permite-me compreender que continuo em construção, mesmo depois dos sessenta anos.
Ao longo da minha caminhada, descobri que existe uma diferença importante entre envelhecer e amadurecer. Envelhecer é inevitável. Trata-se de um processo humano que, muitas vezes, é rigoroso conosco, mas que também pode ser belo quando aceitamos as marcas do tempo e tudo o que elas representam. Já amadurecer é uma escolha consciente de continuar aprendendo, crescendo e se transformando. Talvez seja por isso que eu me defina como uma eterna aprendiz da vida.
Recomeçar não exige juventude; exige coragem. E, muitas vezes, é justamente na maturidade, depois de uma vida inteira de experiências, que encontramos o impulso necessário para tentar novamente.