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As bets batem um bolão

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A Copa do Mundo continua sendo o maior espetáculo esportivo do planeta. Mas, para quem acompanha as transmissões pela TV aberta ou pelo streaming (tecnologia que transmite conteúdo em tempo real pela internet), uma mudança salta aos olhos: o futebol divide espaço, o tempo todo, com a publicidade das apostas esportivas. Placas de campo, intervalos comerciais, inserções na tela, comentaristas e ações promocionais transformaram o torneio em uma vitrine permanente das bets. Em muitos momentos, a impressão é a de que o jogo passou a servir também de plataforma para vender outro jogo: o da aposta.

Não se trata de um mercado de nicho. Dados técnicos do Banco Central indicam que os brasileiros chegam a movimentar até R$ 30 bilhões por mês em plataformas de apostas on-line, com uso predominante do Pix. É um volume financeiro monumental, impulsionado por campanhas agressivas que associam o ato de apostar à emoção do futebol, ao entretenimento e até à promessa de ganhos rápidos. Quanto maior a audiência da Copa, maior também a exposição de milhões de pessoas a esse estímulo permanente.

O problema é que esse dinheiro não surge do nada. Ele sai do orçamento das famílias, muitas vezes já pressionado pelo custo de vida, pelos juros elevados e pelo endividamento. A Confederação Nacional do Comércio estima que os gastos com bets cresceram cerca de 500% em apenas três anos. Segundo a entidade, esse fenômeno pode ter levado aproximadamente 270 mil famílias à inadimplência severa e retirado dezenas de bilhões de reais do comércio varejista entre 2023 e 2026. O setor de apostas contesta essa interpretação, mas os números evidenciam a dimensão econômica do fenômeno.

Os indicadores sociais reforçam o alerta. A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor mostra que mais de 80% das famílias brasileiras possuem algum tipo de dívida. Especialistas apontam que os juros elevados, o crédito caro e a expansão das apostas on-line comprimem a renda disponível, sobretudo entre as famílias de menor poder aquisitivo. Cada aposta representa menos recursos para alimentação, educação, saúde, moradia ou para o pagamento das próprias dívidas.

Mas será que as instituições brasileiras estão tratando esse fenômeno com a urgência que ele exige? O governo, por exemplo, já desativou milhares de sites e domínios ilegais após o primeiro passo da regulamentação. Contudo, o crescimento acelerado do setor e a forte presença das bets na publicidade esportiva revelam que o desafio exige ações ainda mais intensas. No Congresso Nacional, acumulam-se projetos, audiências e discussões, enquanto a sociedade precisa de outras medidas capazes de equilibrar a liberdade econômica com a proteção efetiva da economia popular.

Afinal, quem recebeu a missão de legislar, fiscalizar e formular políticas públicas não pode afrouxar a marcação justamente quando está em jogo o orçamento das famílias brasileiras. Além de disciplinar um mercado bilionário, é preciso colocar no centro desse debate a conscientização da sociedade sobre os riscos da jogatina, sobretudo entre jovens e pessoas em situação de maior vulnerabilidade financeira.

É aí que entra a publicidade oficial, em todas as instâncias de poder, para conscientizar a população sobre os perigos que habitam essa roleta digital. O verdadeiro êxito da regulação será medido pela capacidade de proteger os mais necessitados.

O futebol sempre foi uma paixão nacional. Transformá-lo, porém, em um poderoso canal de indução à jogatina é uma escolha que merece debate público. O setor de jogos tem o direito de promover uma atividade legal, mas também carrega responsabilidade pelos efeitos sociais que produz. Quando o maior espetáculo esportivo do mundo se converte em vitrine permanente de um mercado bilionário, que avança sobre a renda das famílias, é legítimo perguntar quem, de fato, está vencendo esse jogo. Dentro de campo, há apenas um campeão ao fim da Copa. Fora dele, as bets parecem erguer a taça a cada momento.

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