Ciência Política
Infidelidade partidária
Definir o que realmente é um partido político talvez seja extremamente desafiador, quando se trata do Brasil. Segundo o dicionário Robert (publicado em 1962), entende-se que partido é uma “organização política cujos membros realizam uma ação comum para dar ou conservar o poder a uma pessoa ou a um grupo, de modo a fazer triunfar uma ideologia”.
No famoso Dicionário Filosófico, escrito por Voltaire, lê-se o seguinte: “O termo partido, em si mesmo, nada tem de odioso; o de facção, sempre o é”. De início, já observamos definições de autores importantes, mas com posições diferentes em relação ao tema.
Ao pensarmos no que realmente seja um partido político, talvez seja necessário reportarmo-nos aos critérios apresentados por Joseph Lapalombara na obra Political Parties and Political Development. O primeiro deles refere-se a uma organização durável. Assim sendo, deve ser vista como uma organização cuja esperança de vida política seja superior à de seus dirigentes. O segundo apresenta-se como uma organização completa, incluída a escala local.
Com efeito, esse critério garante o diferencial entre um partido político e um simples grupo parlamentar. O terceiro foi denominado vontade deliberada de exercer diretamente o poder. Aqui, percebe-se claramente a diferença entre os partidos políticos e os grupos de pressão. O quarto critério foi definido como a vontade de buscar apoio popular. Nesse aspecto, os partidos são postos em oposição aos clubes.
Tratando dos partidos políticos no cenário nacional, percebe-se que a maioria dos filiados que se arvora a disputar algum cargo eletivo desconhece o que o partido ao qual está filiado defende. Na verdade, filia-se, majoritariamente, não por questões ideológicas, mas pela sobrevivência eleitoral, provocando, naturalmente, uma dissonância entre o que defende e o que o partido representa.
Adotando essa prática, entende-se facilmente o motivo pelo qual a fidelidade partidária é quase inexistente em Pindorama. Por aqui, predomina o pragmatismo, em que se prefere adotar o caminho da “neutralidade”, acreditando ser esse o meio mais fácil de alcançar projetos pessoais. Ora, se os candidatos não conseguem ser fiéis aos partidos aos quais estão filiados, que garantia o eleitor tem de que seu candidato será fiel ao que prometeu durante a campanha?