Velhices no plural
Combater o etarismo começa pelo olhar
Quais são os lugares dos velhos na nossa sociedade? Sim, lugares, pois não há uma única forma de se viver a velhice, mas diversas: são velhices. Os velhos, indivíduos que estão na fase da velhice, têm uma história construída por suas experiências e relações. Têm também um futuro, no qual podem elaborar projetos e viver a velhice com potência criativa. Podem ser quem são a partir do que constituíram ao longo da vida e recriar-se, mantendo sua autenticidade.
Vou perguntar de outro jeito, de forma mais pessoal: o que é a velhice para você? Qual é o seu olhar destinado aos velhos? Suas respostas foram positivas? Ou foram estereotipadas e generalizadas, baseadas em concepções negativas? Lá no fundinho, você encontra em si uma série de preconceitos que se manifestam em piadas, olhares de pena ou de intolerância, falta de paciência, grosseria e violência? A isso chamamos etarismo: estereótipos, preconceitos e discriminação em relação à idade, segundo o Relatório Mundial sobre o Idadismo (2022) e o Relatório da Comissão da Organização Mundial da Saúde sobre Conexão Social (2025).
O que parecem ser apenas ideias inofensivas, meras bobagens, produz efeitos reais e deletérios para os velhos: adoecimento, isolamento e sentimentos de exclusão e de solidão (OPAS, 2022; OMS, 2025). Essas ideias se propagam por meio de ações discriminatórias às quais os velhos acabam sendo submetidos. Então, por onde seguir? Como mudar essa situação? Temos algumas alternativas. Diante do desrespeito, é preciso promover mudanças por meio do reconhecimento, nas relações pessoais mais próximas, da família, dos amigos e dos amores; da inclusão e do pertencimento comunitário e social, pois a ideia de que os velhos querem apenas descansar é equivocada e não se confirma na vida real. Por fim, é necessário criar espaços de reconhecimento por meio do acolhimento, da escuta, do diálogo e da troca de experiências entre todas as gerações.
Enfrentar o etarismo exige, antes de tudo, torná-lo visível. É um fenômeno que se sustenta em práticas cotidianas e, por isso mesmo, precisa ser reconhecido, nomeado e compreendido para que possa ser efetivamente combatido.
O caminho passa pela educação, pelo desenvolvimento da empatia e pela construção de relações que favoreçam a convivência entre as gerações e a troca de experiências. Não se trata apenas de uma mudança individual, mas de um compromisso coletivo com uma sociedade que reconheça a velhice em sua diversidade, potência e dignidade.