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Sentimento

A dor humana

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O consagrado escritor britânico Ian McEwan, em recente entrevista, declarou que a Inteligência Artificial (IA) não sente prazer, não transa nem sente dor; por isso, ela não fará um romance igual ao ser humano. Como médico oncologista, convivo com os sentimentos e as afeições humanas há décadas, reconhecendo a individualização dos sentimentos, sendo a dor física ou emocional um dos sofrimentos mais frequentes no nosso dia a dia, razão pela qual há de se valorizá-la com a devida importância.

A dor faz sofrer, a dor desmoraliza, a dor esgota a pessoa. Combater a dor é algo que a humanidade tem feito desde tempos imemoriais. E, para isso, recorria-se sobretudo às plantas. Uma delas, abundante no Oriente Médio (e até hoje criando problemas no Afeganistão), ficou famosa: é a papoula, da qual se extrai um líquido leitoso, o ópio (suco, em grego). Papaver somniferum, o nome científico da papoula, alude ao poder sonífero desse extrato. Também por isso Hypnos, deus grego do sono, era representado segurando papoulas.

O ópio, conhecido como “Leite do Paraíso”, era considerado uma droga milagrosa, capaz de aliviar a dor e curar uma variedade de doenças. Thomas Sydenham, o grande médico inglês do século XVII, escreveu que o ópio era um presente divino. O láudano, ópio dissolvido em vinho, era recomendado para a insônia, mas também para a melancolia: foi, assim, o primeiro antidepressivo. Mas não se tratava apenas de remédio; era um hábito social. Foi sob a ação do ópio que o poeta inglês Coleridge escreveu o famoso poema Kubla Khan. Seu contemporâneo, o escritor Thomas de Quincey, sustenta em Confissões de um comedor de ópio (1821) que o ópio é muito melhor que o vinho; enquanto este deixa a pessoa confusa, o ópio “acalma o agitado e faz com que se concentre o distraído”. Escusado dizer que o ópio e o láudano eram livremente vendidos e até usados como tranquilizantes em crianças.

O ópio dava muito dinheiro e logo o Império Britânico estava controlando o comércio mundial da substância. Na China, era tão grande o número de adictos que o imperador Tao Kuang proibiu, em 1839, seu uso. Os ingleses fizeram o que qualquer cartel de drogas faria: apelaram para a violência, invadindo Cantão na chamada “Guerra do Ópio”. Derrotados, os chineses tiveram de legalizar o uso e a importação de ópio.

A morfina foi isolada do ópio em 1805 pelo farmacêutico alemão Wilhelm Sertürner, que deu o nome à droga evocando o deus grego dos sonhos, Morfeu. Como analgésico, apresentava vantagens. Enquanto o ópio, dado por via oral, causava problemas gástricos, a morfina podia ser injetada (a seringa foi inventada em meados do século XIX) e fazia efeito mais rapidamente. A droga foi muito usada na Guerra Civil americana, ao fim da qual mais de 400 mil pessoas tinham a “doença do exército”, a dependência de morfina. Além disso, milhares de chineses haviam emigrado para os Estados Unidos para trabalhar em ferrovias, e o uso que faziam do ópio começou a adquirir conotações racistas. As várias Chinatowns dos Estados Unidos eram vistas como antros de vício. Logo, os opiáceos passaram a ser submetidos ao controle das autoridades de saúde.

No Brasil, não há problemas em receitar morfina — no hospital. Pacientes ambulatoriais só podem comprá-la mediante receituário especial, que o médico deve obter por meio de cadastramento. E é difícil encontrá-la; a morfina é uma droga relativamente barata, que dá às farmácias pouco lucro e muita chateação. São poucos os estabelecimentos que a vendem.

A verdade, porém, é que se trata de um grande analgésico, um dos poucos capazes de aliviar a dor do câncer. E, nesses casos, não causa dependência. Um estudo feito em Boston mostrou que, de 11.882 pacientes tratados com morfina, apenas quatro casos se tornaram dependentes. Dor faz parte da condição humana. Felizmente, a natureza proporcionou-nos essa forma de alívio da dor. Pode não ser o “Leite do Paraíso”, mas que funciona, funciona.

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