PONTO DE VISTA
Copa do mundo, laboratório de nação
A cada dia cresce a tendência de movimentos políticos se apropriarem dos símbolos nacionais.
Nos Estados Unidos, Donald Trump tenta sequestrar a bandeira para si, erguendo-a em palanques e acusando os adversários como se a desprezassem. O mesmo ocorre na Alemanha, com a AfD, e em Portugal, com o Chega. A estratégia é óbvia: dividir a população entre patriotas e inimigos da pátria.
No Brasil, o melhor exemplo são as camisas verde-amarelas dos eleitores de Jair e, agora, de Flávio Bolsonaro. Em resposta, petistas chegaram a defender que a CBF criasse uma camisa vermelha.
Infelizmente, basta vestir a camisa do Brasil para ser exaltado por uns e xingado por outros — retrato de uma sociedade dividida por temas que vão da convocação de Neymar a marcas de detergente e sandálias. Segundo o Our World in Data, o Brasil é o quarto país mais polarizado do mundo entre 171 nações, atrás apenas de Mianmar, Turquia e Polônia.
Mas os símbolos nacionais servem justamente para o contrário. São como a camisa 10 de uma seleção: criam conexões entre os extremos.
A Copa do Mundo, afinal, é o momento ideal para isso. Por algumas semanas, até o mais lulista dos eleitores vestirá a camisa amarela. Torcer pelo Brasil, nesse contexto, abre espaço para uma rara vivência coletiva.
Na ciência política, momentos assim são denominados rally round the flag. O exemplo clássico é a guerra, quando as cisões internas dão lugar à união diante de um inimigo comum.
Essa analogia entre futebol e guerra, aliás, é pertinente. Como disse Chicão, volante da Seleção Brasileira na Copa de 1978: “Numa Copa, quando a gente ouve o hino, dá a impressão de que está indo para uma guerra, e é preciso vencê-la”.
Fato é que o conflito — seja a Copa, seja a guerra propriamente dita — desloca o foco da mesquinharia política para o desafio coletivo. Não que isso baste para o triunfo do bom senso. Como observou o cientista político André Régis nesta Folha (ed. de 19/07/25), a coesão tende a durar apenas enquanto a ameaça externa permanece no centro das atenções.
Ainda assim, a Copa do Mundo é repleta de exemplos mais duradouros.
A vitória da Alemanha na Copa de 1990, meses após a queda do Muro de Berlim, ajudou a consolidar a unidade política que então surgia. Já na França, a seleção campeã de 1998 ampliou o sentido de nação e reduziu os índices de xenofobia: o país encantou-se com uma equipe multiétnica, composta por diversos jogadores de origem africana, como Desailly, Karembeu, Vieira e Zidane.
Em Portugal, nem foi preciso ir tão longe: bastou a campanha até a semifinal de 2006 para reacender um sentimento nacional que a ditadura salazarista havia enfraquecido. O mesmo ocorreu na Bulgária, onde o surpreendente quarto lugar em 1994 foi seguido por uma queda nos índices de criminalidade nos meses posteriores.
Que a Copa do Mundo nos torne um pouco mais generosos, além de hexacampeões do mundo.