OPINIÃO
A ilusão da escolha
O debate entre fatalismo e livre-arbítrio é bastante antigo. Rendeu e ainda rende vasto material de estudo para a filosofia. Do ponto de vista religioso, há diversas interpretações, a partir do que se acredita ter sido revelado. A psicologia, em suas diferentes abordagens, também se ocupa do tema. Por fim, a neurociência moderna investiga aspectos dessa dicotomia.
Passemos ao largo desses inesgotáveis mananciais de conhecimento. Tudo pode ser objeto de estudo aprofundado por especialistas, e cada uma dessas áreas apresenta visões contraditórias. A pergunta que nos propomos a fazer é: como pensa o ser humano médio, que apenas olha ao redor de si e recebe informações soltas e fragmentadas?
Cada pessoa parte de uma realidade diferente, mas todas estão diante da incerteza do futuro e da provisoriedade do presente. De um lado, o fatalismo sugere que os eventos são inevitáveis; de outro, o livre-arbítrio propõe que o indivíduo é o arquiteto da própria história. A forma como se decide viver define desde a resiliência diante de tragédias até a disposição para planejar a vida.
Quem abraça o fatalismo tende a adotar uma postura de aceitação, na linha do “o que tiver de ser, será”. Por outro lado, a crença no livre-arbítrio alimenta a ideia de proatividade, muito em voga atualmente, pois as decisões moldariam o futuro. Em um primeiro momento, o fatalismo pode parecer uma visão arcaica e supersticiosa. Não obstante, há evidências científicas de que as ações humanas são determinadas por processos cerebrais inconscientes, influenciados por fatores como genética, ambiente e experiências.
Há relatos de profecias autorrealizáveis, como no caso de alunos levados a acreditar que são mais inteligentes do que a média e que, por isso, passam a apresentar resultados superiores aos do grupo de controle. Por outro lado, existe um sem-número de casos em que uma receita pronta de sucesso, testada de forma exaustiva, simplesmente fracassa diante de um detalhe.
Em suma, para uma pessoa comum, a resposta para esse dilema é “sim e não”. Pode-se intuir que a vida transcorre em uma zona cinzenta, fronteiriça, na qual estão presentes leis naturais de causa e efeito, mas em que pequenos fatores, como o bater das asas de uma borboleta, podem desencadear mudanças significativas em um futuro distante.