PERSPECTIVA
Violência política
Jean Paul Sartre escreveu: “A não violência e a covardia não combinam. Posso imaginar um homem armado até os dentes que, no fundo, é um covarde. A posse de armas insinua um elemento de medo, se não mesmo de covardia. Mas a verdadeira não violência é uma impossibilidade sem a posse de um destemor inflexível”. A violência torna-se ainda mais ameaçadora quando se apresenta no âmbito do exercício da política, região onde a argumentação e a contra-argumentação devem ser o seu esteio.
Em menos de dois anos, Donald Trump já sobreviveu a três tentativas de assassinato. Nas duas mais recentes, a da Flórida, em setembro de 2024, e a do fim de semana passado, em Washington, os serviços de segurança conseguiram impedir o perpetrador de disparar contra o republicano, mas, na da Pensilvânia, em julho de 2024, foram as forças do acaso que salvaram Trump. A bala do fuzil passou raspando por sua cabeça.
Os EUA são um país em que a violência política corre solta. Quatro presidentes foram assassinados no exercício de suas funções: Lincoln, em 1865; Garfield, em 1881; McKinley, em 1901; e Kennedy, em 1963. Se considerarmos os casos de presidentes, ex-presidentes e candidatos a presidente que sobreviveram a ataques, a lista de ocorrências passa dos 15. O exemplo mais notório é o de Ronald Reagan, gravemente ferido num atentado em 1981.
Apesar de a violência política ser um elemento constitutivo da história americana, tudo aponta para um recrudescimento do fenômeno nos últimos anos. Relatório do BDI, um centro de pesquisa ligado à Universidade Princeton, mostrou um aumento de 30% nos incidentes de violência política entre 2024 e 2025. No mesmo período, a polícia legislativa contou um aumento de 58% nas ameaças contra os congressistas.
O suspeito de sempre é a polarização afetiva, à qual podemos acrescentar um outro mal da modernidade, que é a extrema facilidade que as pessoas têm para radicalizar a si mesmas na internet. Até alguns anos atrás, para tornar-se um radical, em geral, era preciso integrar-se fisicamente a um grupo radical. Atualmente, a internet é, ao mesmo tempo, o maior instrumento de informação da fração majoritária da população e também um berçário permanente, uma espécie de moto perpétuo, de culto ao ressentimento, de instigação ao ódio, de fomento ao radicalismo e à violência.
É uma deterioração preocupante, se considerarmos que o fim precípuo da democracia é justamente evitar a violência política. A democracia muda o cálculo dos riscos. Enquanto ela vigora, sai mais em conta, para quem perde uma eleição, passar um tempo na oposição do que tentar resistir pela força e talvez deflagrar uma guerra civil. Daí a gravidade de atitudes como as de Trump, em 6/1/21, e de Bolsonaro, em 8/1/23, de estorvar a transferência pacífica do poder.
Martin Luther King, uma das maiores lideranças da moderação e da pacificação entre entes antagônicos e uma das vítimas fatais da violência política norte-americana, certa feita exclamou: “Uma das coisas importantes da não violência é que não busca destruir a pessoa, mas transformá-la”. Sua epopeia é um estímulo concreto para os que acreditam na coexistência pacífica entre desiguais.