Saúde
O embuste da Lua
Em 25 de agosto de 1835, os residentes de Nova Iorque acordaram com a surpreendente notícia de que o astrônomo britânico Sir John Herschel havia descoberto vida na Lua. Não apenas qualquer vida, mas toda uma sociedade de seres sofisticados que tinham construído monumentos gigantescos, a par de sistemas ecológicos que lhes permitiam se beneficiar dos abundantes rios e florestas da Lua.
Essa descoberta marcante era relatada pelo New York Sun, com base em um enxerto que havia adquirido de um exemplar daquele mês do Edinburgh Journal of Science. Não querendo deixar os seus leitores às escuras depois de tomar conhecimento de uma descoberta científica tão importante, o Sun prometia mais informações na edição do dia seguinte. E havia de fazer mais do que isso: em breve daria a saber que a Lua estava infestada por homens-morcego que voavam muito acima da sua superfície, bem como por manadas de unicórnios e castores que pareciam parcialmente humanos.
Irrompeu então um verdadeiro frenesi. Os exemplares do New York Sun esgotaram-se tão depressa que os seus escritórios se viram cercados por leitores ansiosos, desesperados para deitar as mãos à última edição. A eles se juntou um grupo de cientistas da Universidade de Yale, que estavam em ânsias para falar com os homens do Edinburgh Journal of Science. Sir John Herschel, que se encontrava em uma expedição na África do Sul, apenas descobriu o fervor em torno dessa sua suposta descoberta alguns dias depois e, quando o fez, ficou perplexo, uma vez que nunca havia feito tal investigação.
Os editores e redatores do Edinburgh Journal of Science ficaram igualmente perplexos, principalmente porque a revista em questão havia fechado as portas três anos antes. Não demorou muito para que o público percebesse que tinha sido enganado — honestamente, as dúvidas haviam começado assim que os homens-morcego entraram em cena.
A imprensa britânica não perdeu tempo até começar a encarnecer da América por acreditar em tal disparate, embora vários jornais internacionais, incluindo alguns britânicos, tivessem publicado os artigos do Sun como fatos, muito depois de a farsa ter sido desmascarada.
Antes desse embuste da Lua chegar às páginas do jornal, o público do Sun chegava a oito mil leitores; depois da notícia da “descoberta” de Herschel, esse número passou para cerca de 19.360, tornando assim o Sun, por um breve período, um dos jornais mais lidos dos Estados Unidos em sua época. Tudo aquilo fora uma elaborada estratégia para conquistar leitores e assinantes — e tinha resultado. Mesmo depois de a farsa ser descoberta, o jornal não sofreu grandes consequências: para os leitores, a viagem tinha sido divertida enquanto durara. O New York Sun criou um novo gênero no jornalismo: as fake news, que desde então só têm crescido.
O consagrado uso das vacinas tem sido uma das maiores e mais dramáticas vítimas das fake news. Nos EUA, o governo federal fez mudanças significativas no calendário vacinal de imunização infantil, retirando a recomendação universal para várias delas, como rotavírus, hepatites e COVID-19, descentralizando o sistema e focando-o em clínicas privadas, farmácias e consultórios médicos. Ali, a questão não é econômica nem sanitária. É ideológica. Como resultado, em 2025 ocorreram 2.200 casos de sarampo e três mortes.
No Brasil, que após as campanhas de vacinação há décadas não via casos de doenças como o sarampo, os registros começam a reaparecer. Nosso louvado sistema de imunizações foi abalado.