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GANHANDO O MUNDO

Moda alagoana cruzando fronteiras

Filé, rendas, bordados, biojoias ganham espaço nas criações de marcas do estado no Minas Trend

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Imagem ilustrativa da imagem Moda alagoana cruzando fronteiras
| Foto: Chico Brandão/Cortesia

A moda alagoana levou ao Minas Trend 2026 uma combinação de tradição, criatividade e inovação, mostrando como técnicas artesanais e referências culturais do estado podem ganhar novas formas e dialogar com o mercado nacional. Realizado entre os dias 20 e 22 de outubro, em Belo Horizonte, o evento reuniu 16 marcas e grupos produtivos de Alagoas, dos segmentos de vestuário, moda praia, fitness, joias, bijuterias e acessórios.

Para o produtor de moda e especialista em análise de tendências Anísio Lima, um dos principais diferenciais da produção local está na maneira como o trabalho manual passou a integrar propostas contemporâneas de design. Mais do que aplicar bordados e rendas em peças convencionais, os empreendedores alagoanos têm explorado técnicas, materiais e texturas como elementos estruturais de suas criações.

Imagem ilustrativa da imagem Moda alagoana cruzando fronteiras
| Foto: Chico Brandão/Cortesia

Entre os exemplos estão o trabalho da marca Adriana Gomes, que utiliza a própria rede do filé como estrutura para suas criações, e o do ShiÁ Studio, que transforma cascas de sururu, ostras e conchas em acessórios. As iniciativas demonstram como materiais associados ao território alagoano podem ser incorporados à moda de maneira autoral, ampliando as possibilidades de uso de recursos naturais e de técnicas tradicionais.

A produção apresentada no evento também evidenciou a diversidade do artesanato local, que vai além do filé, uma das referências mais conhecidas de Alagoas. A renda do bilro, a singeleza, os diferentes tipos de bordado, o crochê e os trabalhos com fibras naturais também integram o repertório de técnicas exploradas pelos empreendedores.

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Imagem ilustrativa da imagem Moda alagoana cruzando fronteiras
| Foto: Chico Brandão/Cortesia

“Não é simplesmente aplicar um bordado numa roupa pronta. Existe uma pesquisa de como essas técnicas podem fazer parte do próprio design da peça. A gente fala muito do filé, que é uma referência importantíssima, mas Alagoas tem também a singeleza, a renda de bilro, diferentes tipos de bordado e tantos outros trabalhos manuais. E existe algo que considero muito especial: boa parte desse conhecimento passa de uma geração para outra. São mulheres que aprenderam com suas mães, avós e hoje conseguem transformar esse saber em trabalho e renda”, afirma.

Identidade que vai além do óbvio

A cultura, as paisagens e os modos de vida de Alagoas aparecem nas coleções por meio de cores, materiais, texturas e referências ao cotidiano. Essa identidade, porém, não se resume à reprodução de símbolos regionais ou a elementos diretamente associados ao mar.

Um exemplo citado por Anísio é a Fulô. A, grupo de mulheres de Penedo que transforma cenas do cotidiano, da pesca e da vida no campo em bordados. As criações demonstram como experiências e saberes locais podem se converter em peças que carregam histórias sem abrir mão da contemporaneidade.

Imagem ilustrativa da imagem Moda alagoana cruzando fronteiras
| Foto: Chico Brandão/Cortesia

“O Brasil precisa conhecer essas técnicas, mas também precisa conhecer quem faz. E entender que esse trabalho tem valor, exige tempo, conhecimento e merece ser bem remunerado”, fala Anísio.

Essa relação com o território também esteve presente no desfile coletivo alagoano realizado no dia 21 de outubro, no Minas Trend, com o tema “O Sagrado de Coruripe”. A apresentação levou à passarela referências à fé, às tradições e à relação das comunidades com o lugar onde vivem.

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| Foto: Chico Brandão/Cortesia

Para o especialista, embora exista uma assinatura que aproxima parte da produção alagoana, não é possível resumir a moda do estado a uma única estética. Enquanto algumas marcas apostam no minimalismo, outras exploram cores, volumes e propostas experimentais.

“O que aproxima boa parte delas é a relação com o nosso território e com o trabalho manual”, afirma. Ele ressalta, no entanto, que essa identidade não deve se transformar em uma obrigação. Uma marca alagoana também pode desenvolver uma linguagem urbana e contemporânea, sem necessariamente recorrer ao filé ou a referências litorâneas.

Imagem ilustrativa da imagem Moda alagoana cruzando fronteiras
| Foto: Chico Brandão/Cortesia

Artesanato como diferencial competitivo

A valorização do feito à mão e da produção autoral representa uma oportunidade para ampliar a presença das marcas alagoanas no mercado brasileiro. Segundo Anísio, o consumidor tem demonstrado interesse crescente em conhecer a origem dos produtos, os materiais utilizados, os processos de fabricação e os motivos que justificam o preço de cada peça.

Nesse cenário, técnicas artesanais e matérias-primas regionais podem conferir personalidade aos produtos e diferenciá-los em meio à oferta de itens semelhantes. Para o especialista, Alagoas reúne condições especialmente favoráveis para se destacar nos segmentos de moda artesanal, acessórios autorais, biojoias, rendas e bordados.

Imagem ilustrativa da imagem Moda alagoana cruzando fronteiras
| Foto: Chico Brandão/Cortesia

O filé, por exemplo, já é uma referência cultural do estado e tem potencial para conquistar novos espaços na moda contemporânea. O desafio está em aproximar esse conhecimento tradicional do design, desenvolvendo produtos que valorizem tanto a técnica quanto a inovação.

Anísio destaca, contudo, que o reconhecimento do artesanato não deve se apoiar apenas no apelo emocional ou na história por trás das peças. O trabalho manual envolve conhecimento, pesquisa, tempo e domínio técnico, aspectos que precisam ser considerados na valorização comercial dos produtos.

“Uma peça feita à mão não precisa ser vista como algo simples ou informal. Dependendo de como é desenvolvida, pode ocupar um mercado de alto valor agregado”, observa.

Anísio Lima fala sobre o cenário da moda em Alagoas
Anísio Lima fala sobre o cenário da moda em Alagoas | Foto: Chico Brandão/Cortesia

Criatividade precisa caminhar com profissionalização

Apesar do potencial criativo, a consolidação da moda alagoana em outros mercados depende também do amadurecimento dos negócios. Anísio avalia que os empreendedores apresentam diferentes níveis de estruturação: enquanto algumas marcas já possuem experiência comercial e relacionamento com compradores, outras ainda estão desenvolvendo seus processos de gestão e vendas.

Além da qualidade das peças, aspectos como identidade visual, fotografia, comunicação, embalagem e atendimento influenciam a percepção dos compradores. Nas negociações com lojistas, também são fundamentais a organização da produção, o cumprimento dos prazos de entrega e a capacidade de reposição dos produtos.

“Não adianta ter um produto excelente se você não sabe como apresentá-lo, quanto cobrar ou em quais lojas ele faz sentido”, pontua.

Ele destaca que, nesse processo, o acompanhamento oferecido pelo Sebrae Alagoas e pelo Sindicato das Indústrias do Vestuário do Estado de Alagoas (Sindivest) contribui para preparar os empreendedores para as exigências do mercado. As capacitações, consultorias e oportunidades de participação em eventos ajudam as marcas a aprimorar seus negócios e ampliar suas possibilidades de comercialização.

Imagem ilustrativa da imagem Moda alagoana cruzando fronteiras
| Foto: Chico Brandão/Cortesia

“Temos muita gente talentosa, com produtos excelentes, mas sabemos que criatividade sozinha não sustenta um negócio. É preciso entender de gestão, posicionamento, produção e comercialização”, fala.

Para Anísio, participar de uma feira como o Minas Trend vai além de expor coleções. O evento permite conhecer compradores, observar tendências, acompanhar o trabalho de outras marcas e compreender as demandas de diferentes mercados. A experiência também ajuda os empreendedores a avaliar como seus produtos são recebidos fora do estado.

A presença alagoana na edição de 2026, com marcas de diferentes segmentos e um desfile coletivo dedicado às referências culturais do estado, reforçou a diversidade da produção local. Mais do que apresentar técnicas tradicionais, os empreendedores mostraram como esse patrimônio pode inspirar produtos contemporâneos e gerar oportunidades de trabalho e renda.

O caminho para ampliar a participação no mercado nacional, segundo o especialista, passa justamente pelo equilíbrio entre identidade, qualidade e gestão. A criatividade e os saberes tradicionais constituem parte importante dessa equação, mas precisam estar associados a estratégias comerciais capazes de transformar o reconhecimento da moda alagoana em negócios sustentáveis.

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