BED BUGS
Os hóspedes indesejados
Cada vez mais associados às viagens, os bed bugs podem transformar retorno das férias em semanas de coceira intensa, consultas médicas e uma difícil batalha para eliminar a infestação
Por mais de um mês, Camila Oliveira buscou respostas para as manchas vermelhas, algumas delas bolhosas, que surgiram nas mãos e nos braços e coçavam sem parar. Procurou diversos profissionais, recebeu diagnósticos de reação alérgica, investigou escabiose, suspeitou até de intolerância ao glúten, fez exames, usou pomadas e medicamentos, mas nada parecia aliviar os sintomas.
A resposta apareceu por acaso. Em um sábado, ao acordar mais tarde que o habitual, Camila percebeu pequenos insetos caminhando pela parede do quarto. Capturou um deles com um pedaço de papel e, ao esmagá-lo, viu sangue. A suspeita de que se tratava de um parasita levou a uma nova busca, desta vez por meio de um aplicativo de inteligência artificial. O resultado apontou para um velho conhecido em outros países: o percevejo-de-cama, ou bed bug.
Após fazer inúmeras pesquisas sobre o parasita, Camila teve a certeza de que havia descoberto a causa de tanto desconforto. Ela já não se concentrava mais no trabalho, passou a usar blusas de mangas compridas mesmo no calor intenso de Maceió por vergonha das feridas que tomavam conta dos braços e não via a hora de encontrar a “cura”.
“Foram momentos muito difíceis. Primeiro pela incerteza do que se tratava, depois pela coceira insuportável. Fui à emergência duas vezes e, nas duas, os médicos falavam que parecia uma crise alérgica. Mas alergia a quê? Além disso, me incomodei muito com as feridas que se formavam no meu braço a cada dia e que me deixaram bastante abalada psicologicamente”, afirma Camila, que preferiu manter a identidade preservada.
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Embora ainda sejam pouco discutidos no Brasil, surtos de bed bugs são recorrentes em diversos países. Em 2023, Paris enfrentou uma onda de infestações que atingiu escolas, cinemas, hospitais, hotéis, aeroportos e até meios de transporte, levando o tema ao noticiário internacional.
O aumento do número de viagens, da circulação de pessoas e da hospedagem em hotéis, pousadas e outros meios de acomodação, tem feito crescer também a disseminação desses insetos.
É justamente esse cenário que explica por que especialistas têm voltado a atenção para os percevejos-de-cama. Segundo a dermatologista Catarina Santos, os bed bugs pertencem à família dos cimicídeos, parasitas que se alimentam do sangue de aves e mamíferos. Entre eles, o gênero Cimex, especialmente as espécies Cimex lectularius e Cimex hemipterus, é o responsável por parasitar seres humanos. A picada desses insetos pode provocar a cimidíase, doença caracterizada principalmente por coceira intensa e lesões na pele.
Embora durante muito tempo a infestação tenha sido associada à falta de higiene, hoje os especialistas sabem que essa relação não é verdadeira. "Antigamente, era muito relacionada às baixas condições sanitárias de vida, mas hoje percebeu-se que está mais associada ao fluxo de pessoas do que ao nível de pobreza", explica a médica. Por isso, hotéis, casas, pousadas, albergues, alojamentos e até meios de transporte, como ônibus, trens e aviões, podem servir de abrigo para esses insetos.
De hábitos noturnos, os percevejos costumam permanecer escondidos durante o dia em frestas de móveis, colchões e estofados. É durante a madrugada que eles deixam seus esconderijos para se alimentar. No momento da picada, injetam uma saliva que contém substâncias anticoagulantes e anestésicas, o que faz com que muitas pessoas nem percebam o ataque naquele instante.
Um dos indícios da presença dos bed bugs é o aparecimento de pequenas manchas escuras em colchões, lençóis e estofados, deixadas pelas fezes dos insetos. Esses sinais costumam ser importantes para identificar uma infestação antes mesmo da visualização dos percevejos.
As picadas aparecem, principalmente, em áreas expostas do corpo, como rosto, pescoço, braços e mãos. As lesões geralmente são avermelhadas, elevadas e acompanhadas de prurido, muitas vezes surgindo em sequência ou em linha, característica considerada bastante sugestiva. Em algumas pessoas, também podem aparecer bolhas e lesões em outras partes do corpo, provocadas por uma reação alérgica.
Por que o diagnóstico é difícil
Apesar dessas características, o diagnóstico nem sempre é simples. Como as lesões podem variar bastante de uma pessoa para outra, elas frequentemente são confundidas com picadas de mosquitos, pulgas, alergias ou outras doenças dermatológicas. Por isso, além da avaliação clínica, a investigação do ambiente onde a pessoa vive ou esteve hospedada é fundamental para confirmar a suspeita.
A diferença de reação pode ser observada na própria família de Camila. Enquanto o marido não apresentou qualquer sintoma, o filho teve apenas algumas picadas isoladas, acompanhadas de uma coceira leve, facilmente confundida com a provocada por uma picada de pernilongo
“Por ser difícil identificar inicialmente o agente causador e as lesões se apresentarem de forma diversa, pode existir inicialmente esta confusão diagnóstica. A história clínica e uma extensa pesquisa em casa, deve ser primordial no diagnóstico”, pontua a dermatologista Catarina Santos.
A intensidade da reação também varia conforme o organismo de cada indivíduo, o tempo de exposição aos insetos e a quantidade de picadas. Além da coceira, os bed bugs podem provocar insônia, reações alérgicas, infecções bacterianas secundárias, causadas pelo ato de coçar intensamente a pele, e, em casos de exposição prolongada e repetitiva, até anemia.
Embora despertem preocupação, os percevejos não são conhecidos por transmitir doenças infecciosas aos seres humanos. O principal problema está na reação provocada pelas picadas, especialmente a cimidíase, além das complicações decorrentes das lesões na pele.
Diante da suspeita de contato com os insetos, a recomendação é procurar atendimento médico, preferencialmente com um dermatologista, para avaliação das lesões e indicação do tratamento mais adequado. O manejo é voltado principalmente para o alívio dos sintomas, com medicamentos tópicos e, nos casos mais intensos ou disseminados, também medicamentos por via oral. Paralelamente, é indispensável eliminar os percevejos do ambiente por meio de medidas específicas de controle, incluindo o uso de inseticidas apropriados.
Como forma de prevenção, principalmente durante viagens, alguns cuidados simples podem reduzir o risco de levar os insetos para casa. Entre eles estão observar colchões e lençóis em busca de manchas suspeitas de sangue ou fezes, evitar colocar malas sobre a cama, manter a bagagem fechada sempre que possível e realizar uma inspeção cuidadosa nas malas antes de retornar para casa.
A suspeita de Camila é de que o inseto tenha vindo escondido na bagagem após uma viagem. Para eliminar a infestação, ela contratou uma dedetização específica para bed bugs, comprou uma capa impermeável com zíper para o colchão - importada, já que não encontrou o produto com facilidade no Brasil - e realizou uma limpeza minuciosa do quarto. Além disso, aspirou o colchão e higienizou todas as roupas de cama.
Hoje, livre das lesões e dos percevejos, Camila diz que nunca mais entra em um quarto de hotel sem antes inspecionar colchão, cabeceira e lençóis. O hábito pode parecer exagerado, mas é justamente esse cuidado que especialistas recomendam. Afinal, um inseto de poucos milímetros pode transformar uma simples viagem em semanas de consultas médicas, desconforto intenso e um problema difícil de eliminar.