CUIDADO E BELEZA
Arte que brota da superação
Casal de Maceió conquista o público com os kokedamas: conheça a técnica japonesa de cultivo de plantas
Em meio à rotina acelerada, onde o concreto muitas vezes sufoca o verde, pequenas esferas de musgo têm conquistado espaço e despertado olhares curiosos. Delicadas, vivas e carregadas de significado, as kokedamas - técnica japonesa de cultivo de plantas sem vasos - representam muito mais do que uma tendência estética. Para o casal Sônia e Marcelo Correia, elas simbolizam um recomeço. A empresa Renovo Kokedamas nasce justamente desse encontro entre arte, natureza e superação.
A palavra “kokedama” significa literalmente “bola de musgo”. A técnica surgiu no Japão por volta do século XVII como uma alternativa mais acessível ao bonsai, permitindo que plantas fossem cultivadas em esferas de substrato envoltas por musgo, dispensando o uso de vasos. Mas, para além da definição técnica, a prática carrega um convite: desacelerar, tocar, observar. É nesse aspecto sensorial que Sônia Correia encontrou sua primeira conexão com essa arte.
Formada em Serviço Social, com pós-graduação em Gestão de Políticas Públicas e Projetos Sociais, Sônia conheceu os kokedamas pela internet. “Foi amor à primeira vista”, relembra. Na época, no entanto, a técnica ainda era pouco difundida em Alagoas. Sem cursos presenciais ou oficinas disponíveis que pudesse fazer, ela decidiu buscar conhecimento por conta própria. Foi assim que encontrou uma professora do Rio Grande do Sul, Vick Fernandes, que oferecia cursos à distância.
Ela começou com os minicursos e depois passou para o avançado, a fim de adquirir todo conhecimento possível sobre a técnica. Hoje, além de comercializar os kokedamas, ela também compartilha o conhecimento adquirido promovendo oficinas para grupos e empresas. Mais do que ensinar a produzir kokedamas, ela propõe uma experiência. “Eles exigem presença. Você sente a planta nas mãos, observa a necessidade de rega ao tocar. É uma rotina mais consciente, quase meditativa”, explica.
Nesse mesmo período, em 2022, o marido dela, Marcelo Correia, enfrentava um momento de incerteza profissional. Após perder o emprego na área de segurança, ele decidiu investir em uma nova habilidade: a marcenaria. Fez um curso mas, ao concluir a formação, se deparou com uma dificuldade comum a muitos empreendedores iniciantes, que é a falta de recursos para investir em equipamentos e materiais.
Foi então que a criatividade encontrou espaço. Observando o descarte de móveis em terrenos baldios próximos aos condomínios da região, Marcelo enxergou uma oportunidade. Passou a recolher esses materiais e transformá-los em peças voltadas para jardins e plantas. O reaproveitamento, além de econômico, trouxe um diferencial sustentável ao trabalho.
A conexão com os kokedamas aconteceu de forma natural. As peças produzidas por Marcelo passaram a servir de suporte para os kokedamas, agregando valor estético e funcional. Juntos, eles criaram a “Renovo Kokedama” e começaram a participar de feiras agroecológicas e eventos, apresentando ao público não apenas produtos, mas um conceito que une natureza, sustentabilidade e afeto.
Na prática, o processo de produção dos kokedamas envolve o replantio. As plantas são adquiridas ainda em vasos plásticos e depois transferidas para a esfera de substrato envolta em musgo. Embora o casal sonhe em cultivar suas próprias plantas, ainda não possui um espaço adequado para a construção de um viveiro.
Segundo Sônia, quase todas as plantas podem ser adaptadas à técnica, com algumas exceções, como a orquídea Vanda, que possui raízes aéreas, e a flor de lótus, que é aquática. Entre as espécies mais indicadas para iniciantes estão as de baixa manutenção, como sanseviérias, que são popularmente conhecidas como espada-de-São-Jorge, jibóias, zamioculcas e a palmeira chameadórea.
“Para manter um kokedama em casa precisa observar a rega de acordo com as necessidades de cada espécie de planta e em relação ao ambiente, se é planta de sol pleno, de meia sombra ou de sombra. Diferente do vaso comum, no kokedama a planta exige menos rega e a estrutura permite que as raízes respirem melhor. Além disso, não deixa água parada nas raízes, evitando que as mesmas apodreçam e a planta morra”, destaca Sônia, ressaltando que o erro mais comum, apesar de ser pouco cometido, é mergulhar o kokedama na água e deixar por muito tempo, ou fazer regas mais do que o necessário.
Outro ponto fundamental é a escolha do substrato adequado para cada espécie, além da utilização de materiais de qualidade, adquiridos de fornecedores confiáveis.
Mas se a técnica exige cuidado, o retorno vai além da estética. Os kokedamas têm conquistado admiradores justamente por despertarem sensações. São peças únicas, feitas à mão, que carregam um valor artístico e emocional. “Eles vão além da beleza. Criam conexão, trazem calma e bem-estar”, resume Sônia.
Essa conexão com o recomeço se tornou ainda mais profunda após um episódio que marcou a trajetória do casal. Quando estavam prestes a fechar o primeiro grande negócio, que simbolizava a consolidação do trabalho deles, foram surpreendidos por um acidente grave. O condutor com um carro roubado avançou o sinal vermelho e colidiu com o veículo em que estavam.
O impacto foi forte. O carro teve perda total e não possuía seguro. O que poderia representar o fim de um sonho em construção se transformou em um ponto de virada. “Foi um momento de dor, susto e incerteza. Mas, acima de tudo, foi um milagre. Nós estamos vivos”, relatam.
Diante da adversidade, veio a escolha. Em vez de interromper a caminhada, decidiram continuar. A experiência reforçou o significado do nome que haviam escolhido para o negócio: Renovo. Mais do que uma marca, passou a ser um propósito.
“A Renovo Kokedama carrega essa essência: tudo pode florescer novamente, mesmo depois de um impacto, mesmo depois de perdas”, afirmam.
Cada peça produzida hoje carrega essa história silenciosa de resiliência. Não se trata apenas de uma planta envolta em musgo, mas de um símbolo de transformação.
O casal segue expandindo o trabalho, participando de eventos, realizando oficinas e levando a técnica a novos públicos. Com o olhar voltado para o futuro, eles constroem, dia após dia, uma trajetória que mistura arte, sustentabilidade e superação. E, como as plantas que cultivam, o casal segue crescendo, mesmo diante das adversidades.
“Foi no meio do caos, que a essência da Renovo se fortaleceu. Mesmo diante das dificuldades, escolhemos continuar. Escolhemos recomeçar. Escolhemos não desistir. Cada kokedama que criamos hoje leva consigo essa história, de resiliência, fé e transformação. Porque mais do que cultivar plantas, cultivamos esperança. E seguimos, com gratidão pela vida, acreditando que tudo é renovo”, conclui Sônia.