DESENVOLVIMENTO
Do mangue à inovação: a própolis vermelha que impulsiona negócios
Produto exclusivo de Alagoas agrega valor e ganha espaço na produção de alimentos e cosméticos
Nos manguezais alagoanos, um produto raro vem mudando histórias que vão muito além da paisagem natural. Foi a partir dele que um pequeno empreendedor transformou um sonho em negócio e uma ex-dona de churrascaria encontrou uma nova fonte de renda. Produzida por abelhas a partir de resinas de plantas típicas desse ecossistema, a própolis vermelha de Alagoas deixou de ser um item tradicional das apícolas para se tornar matéria-prima de uma nova geração de negócios, impulsionando empreendedores e redesenhando a economia local.
Encontrada apenas nos manguezais entre os municípios de Piaçabuçu e Maragogi, a própolis vermelha de Alagoas, também conhecida como Ouro Vermelho, é uma matéria-prima exclusiva, que apresenta quatro isoflavonoides e propriedades medicinais diferenciadas. Alvo de inúmeras pesquisas, já teve sua eficácia comprovada no tratamento de doenças e na melhora da imunidade. Essas características permitiram ao produto a conquista do selo de Indicação Geográfica com Denominação de Origem, registrado pelo Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (INPI), algo fundamental para garantir a autenticidade e a valorização comercial do produto no mercado.
Por ser uma substância única no mundo, produzida apenas no trecho que abrange 22 municípios do estado de Alagoas, tem despertado o interesse de empreendedores dos mais diversos ramos, com iniciativas locais que começam a transformar a própolis vermelha em produtos de maior valor agregado. Em União dos Palmares, um pequeno empreendedor apostou na criação de biscoitos enriquecidos com a substância, combinando alimentação e funcionalidade em um único produto.
A ideia nasceu do sonho de Adeilto Lima, que tinha como um dos seus projetos de vida o desenvolvimento de algo inovador. Hoje, ele é sócio fundador da empresa Sabores do Quilombo (@saboresdoquilombooficial), que já produz cinco diferentes tipos de biscoitos, todos fortificados com a própolis vermelha de Alagoas. A escolha dessa substância para trazer o diferencial ao produto, inclusive, veio após uma experiência pessoal que expôs a potência dela para a melhoria da qualidade de vida.
“Há dez anos minha mãe estava com uma ferida séria na perna e nenhum medicamento resolvia. E aí coloquei a própolis por seis dias na ferida e dava 20 gotas de manhã e à noite para ela tomar, e isso a curou”, afirma Adeilto, que já realizou inúmeras pesquisas por meio da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e a Empresa Fernão Velho, tendo esse ativo como principal matéria-prima estudada.
O desenvolvimento de um biscoito com sabor, textura e crocância ideais não aconteceu de um dia para o outro. O processo envolveu profissionais de diversas áreas, que dedicaram horas de trabalho em busca do “ponto ideal”, em meio a estudos, testes e degustações.
Foram várias visitas ao Laboratório de Farmácia da Ufal, além de testes de produção, degustações e análises laboratoriais, sensoriais e degustativas. A ideia era não quebrar as propriedades antioxidantes da própolis vermelha. E eles conseguiram. Criaram o primeiro biscoito do Brasil fortificado com a substância exclusiva de Alagoas.
“Em 2024, juntei profissionais da Gastronomia, da Nutrição e da Farmácia para discutir a ideia e a viabilidade de fazer e comercializar os biscoitos fortificados. Contamos com o apoio de pesquisadores da Ufal e de especialistas do Sebrae, além da parceria da empresa Fernão Velho, que é uma referência em estudos voltados para própolis vermelha com indicação geográfica. Fomos testando vários processos de produção e realizamos muitas degustações. Até que um dia, depois de muitas tentativas, chegamos ao ponto certo de fortificação dos biscoitos, deixando-os com sabor, textura e crocância. Lembro que no meio de várias idas e vindas à Ufal, pensamos em desistir, pois os biscoitos estavam ficando duros e amargos, mas o sonho era maior”, relata o microempreendedor.
Adeilto conta que os clientes ficam surpresos ao ver os biscoitos fortificados e destaca que a maioria tem curiosidade de provar. “Os clientes que conhecem a própolis vermelha aceitam de imediato os biscoitos. Para os que não conhecem, é necessário dar uma explicação sobre as propriedades desse produto”, diz.
Atualmente, os biscoitos produzidos pela ‘Sabores do Quilombo’ estão disponíveis nos municípios de Maceió, União dos Palmares e Murici. “Já temos clientes fiéis também fora de Alagoas, em estados como Santa Catarina e Ceará”, conta Adeilto.
SABONETES
Se na alimentação a própolis já ganha espaço, na área de cosméticos também começa a transformar negócios. A microempreendedora Patrícia Correia, por exemplo, trabalha com a produção de sabonetes à base de própolis e outros produtos derivados das abelhas de Alagoas. A ideia surgiu ainda em 2020, diante dos problemas financeiros trazidos pela pandemia da Covid-19, que obrigaram muitas pessoas a se reinventarem.
Proprietária de uma churrascaria que precisou fechar as portas no período mais crítico da doença, ela se viu diante da necessidade de buscar outra maneira de garantir o sustento da família. Foi quando passou a se interessar pelo mundo dos sabonetes. Nascia aí a Saboaria Poder da Colmeia (@saboariapoderdacolmeia_oficial), que hoje representa sua maior fonte de renda.
“Primeiro eu fiz um curso de saboaria artesanal voltada para o básico, com sabonetes à base de corantes bem simples. Mas eu queria algo mais, um produto que fosse diferente e chamasse a atenção das pessoas tanto pela qualidade quanto pela eficácia, e que fosse mais vendável. Foi quando tive a ideia de pesquisar sobre os cosméticos naturais e comecei a fazer mais cursos voltados para essa área. Conheci um apicultor e ele começou a falar pra mim sobre a importância desses produtos e das abelhas. Achei muito interessante e mergulhei nesse universo. Fui me aprofundar em estudos e pesquisas para ter mais conhecimento sobre as propriedades e os benefícios”, destaca a empreendedora.
Ela começou desenvolvendo receitas e fazendo uso dos sabonetes, até que teve a ideia de presentear algumas pessoas para saber a reação delas. Vieram os elogios e os relatos de que tinham sentido uma melhora real dos problemas de pele que apresentavam. “Isso serviu como incentivo para investir no negócio à base de produtos derivados das abelhas, o que inclui a própolis. Foi algo muito positivo que gerou um crescimento muito bom, atendendo ao que eu almejava para o negócio”, afirma Patrícia, que deixou de ser dona de churrascaria para se dedicar à saboaria de forma integral.
Hoje, o processo de produção é feito exclusivamente pela empreendedora, de maneira totalmente artesanal, o que acaba sendo um diferencial do produto. “Os sabonetes são 100% naturais, sem conservantes e com durabilidade de seis meses. Por ser artesanal, não trabalhamos com grandes estoques”, conta Patrícia, que comercializa os produtos exclusivamente pelos canais digitais (Instagram e Whatsapp).
Entre os benefícios que os sabonetes à base de própolis vermelha de Alagoas possuem, estão a ação antifúngica, antimicrobiana, cicatrizante, anti-inflamatória, antibacteriana e anti-acne, além de atuar no clareamento de manchas, na prevenção do envelhecimento precoce, na proteção contra os danos provocados pela exposição ao sol e no fortalecimento do sistema imunológico.
UMA PRÓPOLIS DIFERENTE
O engenheiro agrônomo e empreendedor Mário Calheiros conta que, há cerca de 25 anos, observou, com o auxílio de engenheiros e técnicos da Ufal e de outras universidades, como a USP, que na região dos manguezais entre Piaçabuçu e Maragogi as abelhas produziam uma substância “grudenta”, que mais parecia um chiclete, e que era diferente de tudo o que já tinha sido encontrado Brasil afora. E foi nessa época que se iniciaram os estudos que comprovaram as propriedades exclusivas do produto produzido pelas abelhas nos manguezais alagoanos.
“Essa característica diferente da própolis chamou muita atenção e passamos a nos dedicar ao estudo dessa composição química. Vários pesquisadores entraram em jogo para apoiar esses estudos e foi descoberto que ela era diferente das 12 própolis que o Brasil já tinha analisado e caracterizado anteriormente. Temos esse produto do Maranhão até Santa Catarina, mas com essas características únicas, com quatro isoflavonoides, que é uma substância poderosa para a saúde das pessoas, só se produz nos manguezais de Alagoas. É um ativo raro e de alto valor agregado”, afirma Mário Calheiros.
Criador da Fernão Velho, empresa que trabalha com produtos derivados das abelhas, Mário Calheiros ressalta as propriedades farmacêuticas da própolis vermelha de Alagoas, comprovadas após muitas pesquisas. “É um produto de base farmacêutica, voltado para o combate a doenças agressivas, como alguns tipos de câncer, como o de boca. Os resultados são muito animadores. Estudos laboratoriais já revelaram, por exemplo, que nenhuma bactéria ou fungo resistiu à presença da própolis vermelha dos manguezais alagoanos. Isso abre caminhos, inclusive, para o desenvolvimento de um sanitizante voltado para unidades de terapia intensiva (UTIs), algo que está em fase de pesquisa”, destaca Calheiros.
A organização desse processo produtivo e científico passa diretamente pela atuação da Uniprópolis, associação criada em 2010 com o objetivo de congregar produtores e estruturar toda a cadeia. A entidade é responsável pela gestão da Indicação Geográfica dos Manguezais de Alagoas e estabelece que apenas empresas associadas e devidamente habilitadas podem utilizar o selo, concedido pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI), assegurando o controle de qualidade e a procedência do produto.
De acordo com Mário Calheiros, o reconhecimento da própolis vermelha como denominação de origem foi resultado de um processo longo e complexo. “Uma indicação geográfica leva anos. Quando se conquista a denominação de origem, estamos dizendo ao consumidor que, se ele quer uma própolis diferenciada, com características únicas no mundo, deve consumir a dos manguezais de Alagoas”, explica.
A própolis vermelha dos manguezais de Alagoas é, inclusive, o único produto com esse tipo de selo no estado e o segundo no Nordeste.
CÁPSULAS E CAFÉ ESPECIAL
Com todo esse potencial, não há dúvida de que, na última década, a própolis vermelha deixou de ser apenas uma substância bruta e passou a ocupar espaço em pesquisas científicas e no desenvolvimento de soluções inovadoras. Um desses estudos resultou na criação da própolis desidratada em pó, comercializada em cápsulas e livre de álcool e água, produto que é patenteado e exclusivo da Fernão Velho.
A própolis vermelha de Alagoas também é um diferencial na composição de um café comercializado pela empresa: uma proporção de 3 mg da substância exclusiva do estado por grama de café. Há também o extrato alcoólico padrão, com concentração de 11%; e uma versão mais concentrada dele, com 20% - produtos que são os mais populares entre os que buscam os benefícios proporcionados pela ingestão da substância.
Da produção à comercialização, a atividade vem garantindo o sustento de muitas pessoas. Para se ter uma ideia, somente a Fernão Velho interage com 300 famílias de 14 municípios alagoanos, que fornecem a matéria-prima necessária para a fabricação dos 21 produtos derivados das abelhas.
O exemplo dessa empresa reforça uma mudança no perfil dos negócios inovadores, que passam a investir em pesquisas, feitas em parceria com universidades, tecnologia e valor agregado, indo muito além da comercialização in natura.
Consciente da importância da Ciência para o crescimento dos negócios que querem fazer a diferença para os consumidores, Mário Calheiros conta que a própolis vermelha dos manguezais de Alagoas representa mais do que uma substância regional: trata-se de um ativo estratégico de relevância global.
“É algo voltado para a saúde das pessoas, de interesse da humanidade. E os estudos não param de avançar, com pesquisadores do Brasil e do exterior”, diz o empreendedor, que vem se preparando, aos poucos, para dar início ao processo de exportação.
Dos manguezais de Alagoas para a universidade e dos laboratórios de pesquisa para a comercialização. A própolis vermelha deixou de ser apenas um produto da natureza para se consolidar como vetor de inovação e desenvolvimento. Ao impulsionar pequenos negócios, gerar renda e transformar biodiversidade em valor, esse ativo projeta o estado para novos mercados e revela, na prática, como conhecimento, território e empreendedorismo podem caminhar juntos, transformando a vida de empreendedores. “Estamos apenas no começo do que essa riqueza natural pode oferecer”, conclui Mário Calheiros.