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QUALIDADE DE VIDA

A escassez do tempo na vida moderna

Na pressa cotidiana, falta de tempo livre leva pessoas a repensarem hábitos, prioridades e sentido da vida

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Para para respirar e contemplar o momento livre é fundamental para a sáude
Para para respirar e contemplar o momento livre é fundamental para a sáude | Foto: Freepik

Na rotina acelerada e com as agendas profissionais cada vez mais cheias, um bem tem se tornado tão desejado quanto escasso: o tempo. Mais do que dinheiro, status ou itens materiais, ter horas livres para respirar fundo, escolher o que fazer ou simplesmente desacelerar virou um verdadeiro artigo de luxo.

Em meio a compromissos, prazos e notificações constantes no celular, atividades antes consideradas simples, como tomar café da manhã sem pressa, ir à academia, receber uma massagem ou dedicar alguns minutos ao autocuidado, passaram a representar privilégios que nem todos conseguem incluir no dia a dia.

Em um cenário em que a maioria das pessoas vive correndo contra o relógio, o tempo livre ganhou novo valor. O que antes parecia trivial agora é visto como raro, disputado e cada vez mais desejado. Ter controle sobre a própria rotina e conseguir reservar momentos para si tornou-se, para muitos, um símbolo de qualidade de vida e, em certa medida, um sinal de riqueza.

Você lembra da última vez que teve uma manhã livre no meio da semana? Tempo livre é luxo e tornou-se algo que poucos conseguem ter.

A psicóloga Aparecida Oliveira fala que, de uns anos para cá, muitas pessoas começaram a enxergar a vida de uma maneira diferente, como se tivessem reaprendendo a viver, valorizando o que realmente deve ser valorizado. Mesmo assim, ainda é enorme o número de pessoas que vivem como se estivessem no “piloto automático”, deixando passar despercebido muitos momentos significativos ao lado de quem realmente importa.

“A gente às vezes está vivendo uma situação e nem percebe o que está acontecendo em volta, não sente a vida como realmente deveria ser sentida, né? Então, muitas vezes, passamos por uns momentos prazerosos, com família, com amigos, de estar num lugar bom, bonito e acaba não sentindo aquilo, porque a mente não está descansando, não está descansada. Sobrecarregamos a nossa mente com tanta informação, com tanta coisa para resolver, tanta coisa para fazer, que esquecemos do que importa”, afirma.

Aparecida Oliveira conta que é preciso repensar prioridades
Aparecida Oliveira conta que é preciso repensar prioridades | Foto: Arquivo pessoal

Na avaliação da psicóloga Aparecida Oliveira, essa mudança de percepção tem feito com que muitas pessoas passem a repensar prioridades. Segundo ela, a ideia de que felicidade está diretamente ligada ao acúmulo de bens materiais começa, aos poucos, a perder força.

“A gente tem percebido que, com o tempo, muitas pessoas estão mudando os seus valores. Chegou um momento em que o acúmulo de tantos bens materiais já não faz tanto sentido, porque nada disso vai acompanhar a gente lá na frente. Um dia a finitude chega para todos nós, então o mais importante é viver a vida da melhor forma possível”, diz.

PRIORIDADES

Apesar dessa nova reflexão, a psicóloga observa que ainda é comum ouvir pessoas dizendo que não têm tempo para cuidar de si mesmas. Para ela, muitas vezes o problema não é a falta de horas no dia, mas a forma como o tempo é organizado.

“Às vezes escutamos muito ‘não tenho tempo para cuidar da minha saúde, da minha alimentação ou para fazer atividade física’. Mas é preciso parar e pensar: o que realmente é prioridade na minha vida? Será que eu estou me priorizando ou estou me deixando sempre em segundo plano?”, questiona.

De acordo com Aparecida, reorganizar a rotina e estabelecer prioridades pode fazer diferença no equilíbrio entre obrigações e bem-estar. “O dia tem 24 horas. Quando a gente se planeja, consegue dividir melhor esse tempo. É preciso organizar a rotina, definir horários para o trabalho, para o descanso e também para o autocuidado. Muitas vezes o que falta não é tempo, é planejamento”, explica.

Ela também alerta que o ritmo acelerado da vida moderna pode fazer com que as pessoas deixem sonhos e experiências importantes para depois, o que não é nada bom que aconteça.

“Tem muita gente que vai deixando planos para trás: uma faculdade que queria fazer, uma viagem que sonhava, um hobby que sempre teve vontade. O tempo passa e a pessoa começa a se perguntar se está realmente vivendo ou apenas existindo”, destaca.

Érika conta que hoje valoriza cada momento que tem em família
Érika conta que hoje valoriza cada momento que tem em família | Foto: Arquivo pessoal

Para evitar esse sentimento, a psicóloga recomenda pequenas mudanças no cotidiano que podem ajudar a desacelerar e trazer mais qualidade de vida. “Desacelerar é fundamental. A vida oferece coisas simples que fazem muito bem e que muitas vezes são gratuitas. Caminhar na rua do bairro, tomar um banho de mar, ouvir música, ler um livro, conversar com amigos, respirar com calma. Tudo isso ajuda a cuidar da saúde mental e emocional”, orienta.

Segundo ela, além de buscar conforto material, é essencial olhar também para o chamado “conforto interno”. “As pessoas buscam muito conforto externo: uma casa bonita, um bom carro, viajar. Mas é importante se perguntar: como está a minha mente? Como está o meu interior? Quando estamos bem por dentro, isso reflete no corpo e na forma como vivemos”, ressalta.

Por isso, a psicóloga reforça a importância de reservar momentos para si e para quem se ama. “Organize sua vida para estar ao lado das pessoas que realmente importam, das que fazem você se sentir bem. Cuidar da saúde física e mental precisa ser prioridade. Vamos viver a vida com menos pressa, com mais calma e tranquilidade. A ideia é realmente viver, e não apenas existir”, afirma.

A servidora pública e assistente social Érika Oliveira, de 36 anos, tenta equilibrar “os pratos” do dia a dia para dar conta do trabalho, do filho e da família, sem esquecer de também olhar para si e ter seus momentos de autocuidado. A missão não é fácil, mas ela sempre consegue encontrar um horário no dia para treinar o corpo e desligar a mente, nem que esse momento seja nas primeira horas da manhã, quando todos ainda estão dormindo.

Ter espaço para praticar atividade física em meio a correria do dia a dia é essencial
Ter espaço para praticar atividade física em meio a correria do dia a dia é essencial | Foto: Freepik

“Entre os papéis de mãe, esposa, profissional e dona de casa, minha estratégia é acordar cedo para ganhar tempo e aproveitar melhor o meu dia. Encontro momentos de tempo livre nos intervalos para descansar, cuidar de mim ou fazer algo que eu goste, buscando sempre um respiro diante das obrigações diárias. Realizar atividade física é um hábito e o meu momento de ‘desacelerar’ e silenciar o mundo exterior. Além disso, estar com meu filho faz qualquer correria virar segundo plano; é onde encontro minha verdadeira prioridade”, afirma Érika.

Ela ressalta que já enfrentou situações que a fizeram parar, respirar e se reorganizar, dando mais espaço para momentos que, de fato, devem ser prioridade.

“Já enfrentei momentos em que ficou claro que eu precisava desacelerar e reorganizar minha rotina. Compreendi que nem sempre é possível riscar todos os itens da lista de tarefas. Em certas ocasiões, a sobrecarga e o acúmulo de funções me fazem perder a paciência com meu filho ou meu esposo, que estão comigo diariamente. Quando isso ocorre, busco refletir que não preciso dar conta de tudo o tempo todo, e que não há problema nisso. Entendi que é essencial parar, respirar e me permitir desfrutar dos pequenos prazeres. Aceitar que nem sempre conseguirei equilibrar todos os 'pratinhos' me permitiu exigir menos de mim mesma e focar no que é possível realizar a cada dia”, diz.

Érika conta que alguns pequenos prazeres do cotidiano têm feito a diferença na vida dela, diante da correria. Ser grata por acordar com saúde; receber um abraço ou um beijo do filho; levá-lo à escola e irem conversando pelo caminho; colocá-lo para dormir; ter contato com a natureza e receber mensagens de pessoas queridas ao longo do dia.

“O que torna os momentos livres especiais é estar em família: uma tarde de diversão na pracinha, banho de piscina, contato com a natureza. Em casa, nosso momento especial envolve assistir um filme ou uma série, realizar alguma brincadeira juntos, pedir pizza ou alguma comida especial”, relata.

Ela diz que um fator foi a virada de chave na vida dela: entender que precisava estar bem para poder cuidar do outro. “Entendi que precisava cuidar primeiro de mim para estar bem e cuidar do outro. Percebi ainda que o tempo não volta e que cada fase do meu filho é única e passageira. Hoje, minha rotina precisa incluir o que me faz bem e o que me conecta com as pessoas que amo. Escolhi aproveitar cada pequeno detalhe e cada descoberta dele, pois sei que na correria esses momentos podem passar despercebidos. Minha meta é aproveitar o agora, agradecer pelo hoje e viver o presente com quem realmente importa”, conclui.

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