COLUNA DO MARLON
A Copa revela o futebol que fingimos querer
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A Copa do Mundo sempre produz um fenômeno curioso.
Durante um mês, o brasileiro passa a admirar exatamente o futebol que combate durante quatro anos.
Depois da eliminação para a Noruega, li dezenas de comentários dizendo que o Brasil não tem meio-campistas como Rodri, Vitinha ou Ødegaard. Que nos falta controle, construção, organização e jogadores capazes de pensar o jogo.
Concordo.
Mas aí eu pergunto: o que acontece quando um treinador brasileiro tenta construir o jogo desde trás? Quando pede ao goleiro para participar? Quando aproxima os volantes? Quando valoriza a posse? Quando troca o lançamento pela circulação da bola?
Não demora muito para surgir o rótulo.
"Pardal."
"Toca de lado."
"Futebol bonito não ganha jogo."
"Tem que dar chutão."
"Volante bom é volante que desarma."
E assim seguimos.
Durante quatro anos, premiamos a simplificação.
Na Copa, cobramos sofisticação.
Queremos formar um Rodri, mas crescemos elogiando quem apenas destrói.
Queremos um Vitinha, mas chamamos de "firula" o jogador que pensa antes de acelerar.
Queremos controlar os jogos, mas confundimos posse de bola com covardia.
Pior. Nós, da imprensa, também temos nossa parcela de responsabilidade.
Quantas vezes reduzimos uma análise ao placar?
Quantas vezes chamamos de retranqueiro quem apenas defendia melhor os espaços?
Quantas vezes classificamos um treinador como ultrapassado ou moderno apenas pelo resultado de domingo?
A Copa apenas escancara uma incoerência que o calendário nacional consegue esconder.
Queremos jogar como os melhores do mundo. Mas ainda resistimos às ideias que fizeram esses países chegarem até lá.
Nenhuma seleção muda em trinta dias. Ela é construída durante anos. Nas categorias de base. Nos clubes. Na formação dos treinadores. Na maneira como a imprensa debate futebol.
E, principalmente, naquilo que o torcedor aprende a valorizar.
Talvez o maior legado desta eliminação não esteja em descobrir um culpado.
Talvez esteja em entender que continuaremos procurando um novo campeão enquanto insistirmos em combater as ideias que formam campeões.
Porque títulos não começam na final de uma Copa. Começam muito antes.
Começam quando um país decide qual futebol quer construir.