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COLUNA DO MARLON

A teoria do leproso

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Técnico do CRB, Barroca vinha de onze jogos sem vencer
Técnico do CRB, Barroca vinha de onze jogos sem vencer | Foto: — Foto: Lucca Morais/CRB

O futebol sempre foi um laboratório brutal do comportamento humano. Talvez por isso algumas frases consigam sobreviver ao resultado. Eduardo Barroca produziu uma delas ao definir, recentemente, o ambiente da derrota como “a teoria do leproso”.

A imagem é pesada. E exatamente por isso, tão precisa.

Na tradição bíblica, o leproso carregava mais do que a doença. Carregava o isolamento. Era alguém evitado pelo medo, pela conveniência e pela necessidade coletiva de manter distância daquilo que simbolizava fragilidade.

O futebol moderno, em muitos momentos, repete esse ritual.

Barroca vinha de onze jogos sem vencer. Nesse ambiente, a pressão deixa de ser apenas externa. Ela invade corredores, altera relações, produz silêncios e muda até a geografia humana dos clubes. O dirigente evita exposição excessiva, antigos entusiastas desaparecem, e muitos começam a praticar uma espécie de distanciamento preventivo.

A lógica é conhecida no futebol e na vida: “Se a queda parece inevitável, melhor não estar muito perto quando ela acontecer.”

Duas vitórias consecutivas foram suficientes para alterar o cenário. O que parecia condenado voltou a respirar. O futebol tem essa capacidade impressionante de reconstruir convicções em noventa minutos. Mas talvez o mais interessante esteja justamente no intervalo entre a crise e a retomada.

É nesse espaço que as relações revelam sua verdadeira natureza.

Nelson Rodrigues dizia que “o pior cego é o que só vê a bola”. E o futebol mostra muito mais do que jogo. Mostra vaidade, medo, oportunismo, lealdade e sobrevivência. Mostra como o sucesso produz aproximações quase automáticas, enquanto a dificuldade funciona como filtro humano.

Nesse contexto, a postura de Mário Marroquim chama atenção. Em um ambiente historicamente dominado pela ansiedade e pelo impulso das rupturas, ele sustentou o trabalho, mesmo cercado por pressão crescente. Não por acaso, dirigentes experientes costumam entender algo que o futebol emocional frequentemente ignora: momentos ruins também fazem parte de processos sólidos.

Existe uma cena muito comum fora do futebol. O homem cercado de poder, cargo ou prestígio raramente almoça sozinho. As mesas ficam cheias, os telefonemas aumentam e surgem amizades repentinas. Mas basta chegar a perda, a crise ou o fracasso para o ambiente sofrer um esvaziamento quase imediato.

O futebol apenas acelera esse comportamento humano. A vitória multiplica presenças. A dificuldade seleciona permanências.

E poucas coisas revelam tanto sobre as pessoas quanto o lugar onde elas escolhem sentar quando o salão deixa de aplaudir.

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