SEM LIMITES
Compras por app acendem alerta sobre consumo compulsivo
Psiquiatra diz que gatilhos transformam o ato de comprar em fuga emocional; facilidades digitais eliminam barreiras
A compra começa antes mesmo do pagamento. Primeiro vem a vontade, depois a pesquisa, os vídeos e, finalmente, o clique. Por alguns minutos, a sensação é de satisfação, mas o prazer rapidamente dá lugar a um novo desejo. Uma compra de R$ 5 mil em cosméticos importados fez a jornalista Viviane Leão perceber que sua relação com o consumo havia passado do limite. O gasto, feito de uma só vez e sem necessidade, indicou que o prazer de comprar estava se transformando em um comportamento difícil de controlar.
“Comprei tudo sem a menor necessidade. Comentei com amigos sobre as compras e foram eles que me alertaram sobre o excesso”, conta Viviane. Apaixonada por perfumes, ela já chegou a pagar mais de R$ 1 mil por 30 mililitros de um Chanel. Também passou por fases de compras excessivas de sapatos e garrafas térmicas. “Olho hoje e não faz o menor sentido. Tirando os perfumes, consigo ponderar melhor e observar as ondas de impulso.”
Para a jornalista, o pico da satisfação ocorre na própria ideia de comprar, comparando o hábito ao filme Os Delírios de Consumo de Becky Bloom. Ela observa que o e-commerce intensifica o desejo: “Cheguei a deletar aplicativos na tentativa de parar”. Viviane acredita que o consumo por vezes tenta preencher necessidades emocionais ou alimentar a autoestima.
QUANDO COMPRAR VIRA UM PROBLEMA?
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Para o psiquiatra Gustavo Omena, não é o valor gasto nem a frequência das compras que definem a compulsão. O principal sinal é a perda de controle associada a prejuízos. Entre os alertas estão comprar mais do que o pretendido, tentar parar sem sucesso, sentir tensão antes da compra e alívio imediato depois, seguido de culpa.
Dívidas, contas atrasadas, acúmulo de produtos e conflitos familiares também indicam gravidade. Outro indício importante é esconder os itens adquiridos. “Onde há ocultação, há sofrimento”, afirma Omena. Para o especialista, a diferença está na função do ato: “Quando comprar deixa de servir ao objeto e passa a servir ao alívio emocional, saímos do consumo e entramos no sintoma. A compra vira um analgésico”.
A experiência de Viviane ilustra como as redes sociais impulsionam esse comportamento. Após assistir a resenhas de influenciadores, ela adquiriu linhas inteiras de marcas japonesas e coreanas de cabelo em menos de dois meses. “Eram produtos caríssimos, comprados sem nenhuma necessidade”, reconhece.
Omena ressalta que as plataformas digitais eliminam barreiras entre o desejo e a aquisição. Promoções, notificações de “últimas unidades”, contagens regressivas e facilidade de parcelamento criam urgência artificial. Para reverter a perda de controle, o psiquiatra recomenda impor obstáculos ao acesso imediato: remover cartões salvos nos aplicativos, desativar notificações e adotar um período de espera antes de finalizar o pedido. O objetivo é dar tempo para que a decisão seja ponderada.
Viviane mantém o gosto por perfumes e por descobrir novidades, mas busca prestar atenção ao que sente antes de abrir a carteira. O impulso persiste, mas deixou de passar despercebido. Ela compreendeu que nem todo desejo precisa virar compra e que o desafio não é querer um produto, mas conseguir dizer não a ele. Entre a vontade e o clique existe uma escolha — justamente o espaço que a compulsão tenta anular.