JUSTIÇA
Alagoano inocente é preso em São Paulo após erro em investigação
Confundido por ter nome igual ao do verdadeiro criminoso, jovem passou 50 dias recluso e chegou a apanhar na cadeia
Um erro na fase de apuração da Polícia Civil de Alagoas resultou na prisão injusta de um trabalhador alagoano de 28 anos por 50 dias em São Paulo. Alisson Silva, morador do bairro Village Campestre, em Maceió, havia se mudado para o Sudeste do país no início de 2025 em busca de oportunidades profissionais para sustentar a esposa e o filho pequeno. O jovem acabou detido após ser confundido com o autor de um homicídio ocorrido no bairro Benedito Bentes, na capital alagoana, no início de 2026. A Justiça reconheceu a ausência completa de provas e determinou a soltura do acusado.
As investigações revelaram que o equívoco começou porque o alagoano e o real investigado têm o mesmo nome. O verdadeiro suspeito, inclusive, chegou a ser detido no início das apurações por um crime de menor potencial ofensivo e já cumpria pena no sistema prisional. Para instruir o inquérito, os agentes solicitaram o reconhecimento do autor à viúva da vítima. Contudo, em desacordo com as regras estabelecidas pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que determina o alinhamento presencial de pessoas e, na impossibilidade, a apresentação de fotos padronizadas de diferentes indivíduos que atendam às características descritas, a equipe policial apresentou à mulher apenas uma imagem: a fotografia de Alisson, retirada de bancos de dados governamentais.
Induzida pelo procedimento irregular, a testemunha apontou o trabalhador como o autor do crime e declarou que ele teria convivido com a vítima dentro do sistema penitenciário. A investigação, no entanto, deixou de checar dados fundamentais do sistema prisional e do monitoramento eletrônico do Estado. Tanto a vítima quanto o verdadeiro homicida utilizavam tornozeleiras eletrônicas e haviam dividido cela no passado. Alisson, por sua vez, jamais havia utilizado o equipamento de monitoramento. Mesmo assim, a Polícia Civil de Alagoas pediu a soltura do verdadeiro suspeito e a prisão preventiva do inocente.
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Surpreendido em casa por policiais militares paulistas enquanto estava com o filho, Alisson recebeu a ordem de prisão sem compreender a acusação. Ele foi conduzido a uma delegacia e, posteriormente, transferido para duas unidades prisionais paulistas. “Eu pedia a Deus todos os dias para me tirar de lá, porque sabia que não tinha cometido esse crime, nunca fiz mal a ninguém”, relata o jovem sobre os momentos de aflição.
Ele passou pelos procedimentos de praxe dos presídios: teve o cabelo raspado e foi submetido ao registro fotográfico com uma placa no pescoço que continha o número “121”, artigo do Código Penal referente ao crime de homicídio. “Eu dizia: ‘Moço, eu nunca matei ninguém, por que vai tirar foto assim de mim?’. E ele me respondeu: ‘Todo mundo que está aqui é inocente’. Mas eu era inocente de verdade. Fiquei desesperado pensando que ali a minha vida tinha acabado, tinha se destruído”, desabafa.
Durante os primeiros dez dias, Alisson permaneceu na cela destinada aos detentos recém-chegados, sem contato com o mundo externo e com direito a apenas alguns minutos diários de banho de sol. “Eu não conseguia acreditar no que estava acontecendo comigo. Fiquei com medo porque estava em um lugar que não era para mim. Os dias eram vividos no choro lembrando da minha família. Quem está naquele lugar tem que se apegar a Deus, senão nada dá certo”, pontua.
Ele afirma que as comidas eram de má qualidade e muitas vezes chegavam estragadas. “O feijão chegava azedo. Já pegamos baratas dentro da comida. E só tinha aquilo para me sustentar. Ao deitar no colchão, parece que você está no chão. Por causa disso, surgiram feridas no meu corpo”, afirma. Quanto ao banho, ele relata que era disponibilizada meia hora para 35 pessoas. “Passei muita humilhação. Nunca tinha passado isso na minha vida. Lá tem o mal e tem o bem, e se você não se apegar com Deus você fica louco”, desabafa o alagoano, relatando ainda ter sofrido agressões físicas. “Eu levei um murro nas costas que fiquei sem ar no chão”, conta ele.
LUTA JURÍDICA
A revogação do mandado de prisão preventiva ocorreu após a defesa demonstrar que Alisson jamais esteve no local do crime ou manteve relação com os envolvidos. A decisão judicial foi proferida no último dia 10 de setembro, e o jovem deixou o presídio no dia seguinte, 11 de setembro. “Tinham muitas pessoas gritando e olhando para mim. Parecia que eu estava rodando, não dava para escutar nada. Um cara bateu no meu braço e só fui saber que era a liberdade depois de uns cinco segundos. Parece que fiquei desligado. Saí correndo para lá e para cá, parecia um louco sem saber o que estava fazendo. Foi o momento mais feliz da minha vida”, conclui.