TRATAMENTO
SETEMBRO DOURADO: a luta de crianças e adolescentes alagoanos contra o câncer
Em Maceió, Apala oferece acolhimento, alimentação e suporte pedagógico para diagnosticados
A luta do pequeno Carlos Emanuel Soares Canuto, hoje com oito anos, começou em 2023, quando ele tinha apenas cinco, no município de Arapiraca. Após uma queda seguida de vômitos e dores abdominais intensas, a mãe, Jalielma Soares Rodrigues da Silva, 29, buscou atendimento médico e solicitou uma ultrassonografia por conta própria. O exame revelou uma massa e nódulos no abdômen. Transferido para a capital com alteração sanguínea e quadro agravado que exigiu intubação, o menino recebeu o diagnóstico de rabdomiossarcoma alveolar, um câncer raro no músculo dos ossos.
“Foi um choque muito grande”, lembra Jalielma sobre a confirmação da doença. A primeira etapa do tratamento reuniu 47 sessões de quimioterapia e 25 de radioterapia, concluídas em fevereiro de 2025. Meses depois, diante do retorno das dores e da identificação de um novo tumor de quase 10 centímetros, Carlos passou por cirurgia, mais 50 ciclos de quimioterapia e nova radioterapia. Recentemente, exames de ressonância apontaram metástases na medula espinhal, exigindo um procedimento de derivação ventricular para aliviar a pressão cerebral e o início imediato de um novo protocolo terapêutico.
Nesse percurso desafiador, a Associação dos Pais e Amigos dos Leucêmicos de Alagoas (Apala), que fica no bairro da Gruta de Lourdes, em Maceió, tornou-se um ponto de apoio fundamental para a família. A instituição oferece acolhimento, alimentação e suporte pedagógico para suprir a rotina distante da escola. “Sempre foi nossa segunda casa”, relata a mãe, que busca forças para manter a jornada entre exames e internações na capital. “Eu começo esse novo tratamento com muita fé e com a certeza de que Deus vai restaurar meu filho”, afirma.
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Aos 18 anos, a estudante Acsah Machado também precisou interromper de forma abrupta a rotina ao receber o diagnóstico de leucemia linfoide aguda tipo T (LLA-T), em outubro de 2025. Moradora do bairro Cidade Universitária, em Maceió, ela conciliava a faculdade de Direito pela manhã, o trabalho à noite e a participação na igreja quando começou a apresentar dores abdominais intensas, perda de oito quilos, cansaço extremo, falta de ar e manchas roxas espalhadas pelo corpo.
Após procurar atendimento na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Tabuleiro e passar por exames específicos no Hemoal e no Hospital Universitário, veio a confirmação do quadro de saúde. A jovem enfrentou 49 dias de internação contínua — sendo nove deles em leito de UTI —, período em que combateu uma infecção generalizada (sepse) e severas complicações pulmonares e cardíacas. “Eu sempre senti Deus cuidando de mim”, declara a estudante, ao relembrar o impacto de precisar trancar os estudos, parar de trabalhar e isolar-se em casa devido à baixa imunidade.
Para alcançar a remissão da leucemia, Acsah precisou viajar até Recife em julho deste ano para realizar um transplante de medula óssea, já que Alagoas não dispõe de estrutura hospitalar para o procedimento. O doador foi o próprio irmão, Asafh Machado, de 15 anos, que apresentou 100% de compatibilidade. “Meu herói”, define ela. Em fase de recuperação pós-cirúrgica, a jovem planeja retomar a graduação e o emprego no próximo ano, além de realizar o sonho de viajar e formar uma família. “Depois da leucemia, eu aprendi a valorizar mais a vida, a saúde e a minha família. Hoje eu tento viver um dia de cada vez”, avalia.
SINAIS DE ALERTA E A BUSCA PELO DIAGNÓSTICO PRECOCE
O câncer infantojuvenil abrange a faixa etária de 0 a 19 anos e apresenta sintomas que frequentemente se confundem com enfermidades corriqueiras da infância e da adolescência. Segundo a oncologista pediátrica Suzana Marinho, coordenadora do setor na Santa Casa Farol e presidente da Apala, as leucemias e os tumores cerebrais lideram as ocorrências no estado.
“Manchas roxas ou púrpuras sem trauma, febre sem causa aparente, ínguas e caroços em qualquer parte do corpo que estejam crescendo são sinais que precisam ser investigados”, orienta a médica. Dores de cabeça matinais progressivas acompanhadas de vômitos, aumento do volume abdominal e o surgimento de uma mancha esbranquiçada no olho também exigem avaliação imediata.
Como a prevenção primária não se aplica a este público, a observação atenta da família para a persistência ou piora dos sintomas é o fator determinante para elevar os índices de cura e reduzir sequelas graves. “No câncer infantojuvenil, a gente não consegue falar em prevenção como nos cânceres dos adultos. A nossa prevenção é o diagnóstico precoce”, explica a especialista.
A oncologista reforça ainda que o suporte multidisciplinar oferecido por redes de apoio é vital para conter o impacto social e econômico enfrentado pelas famílias, que muitas vezes precisam se deslocar do interior para a capital. “Muitas vezes a mãe precisa acompanhar o filho e acaba deixando outros filhos em casa. Há a questão do transporte, da alimentação e da escola. O nosso objetivo é que esse paciente consiga chegar à cura com o menor número possível de sequelas e possa depois ser reinserido na sociedade, voltar para a escola e para a vida dele”, conclui a médica.
SETEMBRO DOURADO
Neste mês é celebrado o Setembro Dourado, que é a principal campanha brasileira de conscientização sobre o diagnóstico precoce do câncer infantojuvenil. Em 2026, a mobilização ganha um tema norteador nacional, lançado pelo Ministério da Saúde, para fortalecer a comunicação, ampliar a informação qualificada sobre a doença e orientar ações de sensibilização em todo o país.