MEIO AMBIENTE
Alagoas tem 136 espécies de animais ameaçadas de extinção
Com 27 espécies criticamente em perigo, estado abriga animais endêmicos que sofrem perda de hábitat
Marco Freitas
Alagoas tem 136 espécies de animais ameaçadas de extinção, de acordo com a atualização da Lista Nacional Oficial de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção publicada pelo Ministério do Meio Ambiente no último dia 16 de junho. As avaliações do estado de conservação foram conduzidas pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
Dessas, 27 espécies se enquadram como criticamente em perigo, caso da Jararaca de Murici. A serpente é conhecida somente na Estação Ecológica (Esec) de Murici, na Zona da Mata alagoana, em um fragmento pequeno de floresta. Estudos sugerem que seja uma espécie bastante rara e de distribuição muito restrita, mesmo no interior da unidade de conservação, onde sua extensão de ocorrência foi calculada em cerca de 1 km². O ICMBio pontua que a espécie é afetada pela perda de vegetação nativa e pelo declínio da qualidade do habitat, principalmente decorrentes da invasão de gado.
Outro animal conhecido apenas na Esec de Murici e que está listado como criticamente em perigo é a Rãzinha-de-riacho. O ICMBio destaca que, embora a espécie esteja em uma unidade de conservação de proteção integral, os ambientes onde ocorre sofrem desmatamentos causados pela expansão agrícola, extração de madeira e assentamentos humanos. Registros obtidos entre 2012 e 2014 indicam a presença de duas subpopulações na Estação Ecológica de Murici.
As aves também aparecem na lista de criticamente em perigo. Novamente, espécies restritas a Alagoas estão nessa categoria. A choquinha-de-alagoas é uma delas. Antes ocorria em Pernambuco, porém desde 2007 não há registros documentados naquele estado. É considerada severamente fragmentada, uma vez que sua ocorrência está restrita a fragmentos de mata sem conectividade, menores do que o necessário para sustentar uma população viável.
A população é estimada em no máximo 50 indivíduos maduros, com declínio populacional continuado, sendo que de 90 a 100% desses indivíduos se encontram em uma única subpopulação remanescente. As principais ameaças são a extração de madeira e a substituição de florestas por pastagens e plantações.
O analista ambiental Marco Freitas, que já atuou na Esec de Murici, explica que o processo de criação das listas de espécies ameaçadas de extinção segue parâmetros rigorosos estabelecidos globalmente pela IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza).
Na última lista nacional, por exemplo, mais de 1.900 pesquisadores se debruçaram sobre os dados para avaliar a fauna e a flora brasileiras. “Quando você publica uma lista dessa, você passa para o governo e para os estados que aquelas espécies estão ameaçadas e que precisam de maior cuidado, para que se criem mais reservas e políticas públicas”, explica.
Para que um animal ou planta seja incluído em uma categoria de ameaça — como vulnerável, em perigo ou criticamente ameaçado —, os pesquisadores analisam critérios específicos. Marco esclarece que são avaliados fatores como o tamanho conhecido da população, a extensão geográfica do território que ocupam e os impactos humanos diretos na região, a exemplo do desmatamento, queimadas, caça e tráfico de animais.
Segundo Marco, novos estudos de campo podem revelar que uma população encolheu ou que seu habitat sofreu degradação severa, justificando sua inclusão. Por outro lado, o avanço do conhecimento científico ou o sucesso de ações de manejo podem retirar animais da situação de risco. Foi o que ocorreu com grandes felinos como a onça-parda (suçuarana) e a jaguatirica, que deixaram a lista por apresentarem populações mais estáveis. Ele aponta ainda os casos do jacaré-de-papo-amarelo e da capivara no Nordeste; esta última se proliferou a ponto de se tornar quase uma praga em certas localidades, devido à escassez de predadores naturais e ao temor que os caçadores têm da fiscalização ambiental.
“Para sair da lista, você tem que ter a espécie ameaçada inserida em uma Unidade de Conservação e, mesmo estando inserida, que as áreas sejam efetivamente protegidas. Não adianta decretar uma área e ela não ser efetivamente protegida, não ter programas de vigilância e de cuidado para garantir que aquela população consiga se reproduzir e prosperar na natureza”, adverte o analista. “É preciso que o desmatamento seja freado onde ela ocorre, que você consiga combater a caça e o tráfico, e melhore a informação. Também precisamos de um número maior de pesquisadores em campo juntando informações para dar suporte às decisões”.
CENÁRIO NACIONAL
Em nível nacional, foram incluídas na lista 180 espécies ou subespécies, como a arara-azul-grande, reclassificada como Vulnerável (VU), o bugio-preto e o tamanduaí. Outras 150 espécies foram retiradas da lista. O número de animais ameaçados subiu de 774 para 790.
De acordo com o ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, a lista é um dos instrumentos mais importantes para a proteção da biodiversidade brasileira. “A lista reconhece, perante a nossa sociedade e o mundo, a situação das espécies brasileiras e também abre caminho para a construção de planos de recuperação e de conservação”, afirma Capobianco. O documento substitui a última versão publicada em 2022.