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CRISE NO LITORAL

Plano Diretor reacende debate sobre megatorres na Lagoa da Anta

Projeto previsto para a área do antigo Hotel Jatiúca volta ao centro da discussão; Ministério Público afirma que vai se opor a intervenções que alterem a paisagem no litoral alagoano

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O projeto das cinco megatorres previsto para a área do antigo Hotel Jatiúca voltou ao centro do debate urbanístico em Maceió justamente no momento em que a Câmara Municipal analisa o novo Plano Diretor da capital. A discussão ganhou força após um vídeo que compara a paisagem da Rota do Mar antes e depois da construção de um edifício em Cruz das Almas voltar a circular nas redes sociais, reacendendo questionamentos sobre os impactos da verticalização na orla da cidade.

Embora o empreendimento da Lagoa da Anta ainda não tenha sido licenciado, urbanistas passaram a traçar um paralelo entre o edifício que alterou a paisagem da Rota do Mar e as cinco torres projetadas para a área do antigo Hotel Jatiúca. Na avaliação de especialistas, os dois casos envolvem preocupações semelhantes relacionadas à preservação dos corredores visuais, da ventilação natural, do sombreamento e da configuração paisagística de uma das regiões mais emblemáticas da capital.

O debate ocorre em um momento decisivo para o futuro urbanístico de Maceió. O novo Plano Diretor, atualmente em tramitação na Câmara de Vereadores, substitui o Plano Diretor de 2005 e o Código de Urbanismo de 2007 e propõe novas regras para a ocupação do solo. Entre elas está a classificação da Lagoa da Anta como Zona Especial de Proteção Paisagística (ZEPP), dispositivo que poderá impor restrições a empreendimentos capazes de alterar a paisagem da região.

Vista na Rota do Mar era famosa entre turistas e viralizava de forma recorrente
Vista na Rota do Mar era famosa entre turistas e viralizava de forma recorrente | Foto: Reprodução

Ao mesmo tempo, a Construtora Record, responsável pelo projeto previsto para a área do antigo Hotel Jatiúca, trabalha nos bastidores para que o novo Plano Diretor seja aprovado com regras menos restritivas à verticalização. A avaliação da empresa é a de que conseguirá sensibilizar os vereadores em torno de um texto que permita a transformação da cidade para atender às novas demandas do setor da construção civil e preserve a viabilidade de empreendimentos como o previsto para a Lagoa da Anta. Nos bastidores da discussão, a expectativa é de que a votação definitiva do Plano Diretor ocorra apenas após o período eleitoral, evitando que o debate urbanístico seja contaminado pelas disputas políticas da campanha.

A tramitação do projeto vem sendo acompanhada de perto pela Gazeta de Alagoas desde o envio da proposta ao Legislativo. Audiências públicas, manifestações de entidades ligadas ao urbanismo, do Ministério Público e do setor da construção civil marcaram as últimas semanas. Enquanto arquitetos e urbanistas defendem regras mais rígidas para preservar a paisagem da cidade, representantes do mercado imobiliário argumentam que a revisão da legislação não pode inviabilizar investimentos privados.

Agora, vista famosa se tornou privativa, sem nenhum tipo de consulta pública
Agora, vista famosa se tornou privativa, sem nenhum tipo de consulta pública | Foto: Reprodução

Para o arquiteto e urbanista Dilson Ferreira, o vídeo da Rota do Mar tornou visível um problema que normalmente só passa a ser percebido quando os empreendimentos já estão concluídos. “Essa obstrução na Rota do Mar é extremamente agressiva. Ela bloqueia a paisagem natural, prejudica a ventilação e rompe a memória afetiva da cidade, especialmente a relação de Maceió com a água e com o mar. Afinal, Maceió é conhecida como o Paraíso das Águas”, avalia.

Segundo ele, o episódio ajuda a compreender o que poderá ocorrer em outras áreas da cidade caso o planejamento urbano continue considerando apenas os limites dos terrenos, sem avaliar os impactos produzidos sobre a paisagem coletiva.

“O paralelo com os empreendimentos previstos para a Lagoa da Anta é bastante pertinente. Quando se constroem torres muito altas naquela área, retira-se também o direito à paisagem de quem está atrás, especialmente dos moradores dos edifícios das quadras posteriores. A implantação de grandes torres pode provocar sombreamento excessivo sobre a lagoa e formar um verdadeiro paredão de edifícios, bloqueando a visão do mar para toda a população que vive nas quadras posteriores. É uma situação semelhante ao que ocorreu na Rota do Mar: cria-se uma barreira física que transforma uma paisagem coletiva em privilégio de poucos.”

Na avaliação do urbanista, o Brasil ainda não possui uma legislação específica para proteger o chamado direito à paisagem, fazendo com que empreendimentos capazes de alterar corredores visuais sejam analisados, muitas vezes, apenas sob a ótica dos parâmetros construtivos.

“É isso que eu chamo de privatização da paisagem: quando um bem visual, ambiental e afetivo, compartilhado por toda a população, é bloqueado e transformado em privilégio privado”, diz.

O Ministério Público de Alagoas acompanha a discussão sobre a verticalização do litoral norte há mais de um ano e atribui parte do problema às normas urbanísticas atualmente em vigor.

Segundo o promotor de Justiça Jorge Dória, titular da Promotoria de Urbanismo, o Plano Diretor de 2005 e o Código de Urbanismo de 2007 já não atendem às necessidades atuais de planejamento da cidade. “Você sabe que nós tínhamos um Plano Diretor de 2005 e o Código de Urbanismo de 2007, duas normas superimportantes totalmente desatualizadas, em desacordo com a necessidade de um melhor planejamento. Essas normas permitem aquelas construções de 20 ou até 30 andares”, analisa.

Com base nesse entendimento, o Ministério Público recomendou ao Município a suspensão dos processos de licenciamento de grandes empreendimentos no litoral norte até que fossem realizados estudos mais aprofundados sobre os impactos urbanísticos, ambientais e paisagísticos. “O município acatou essa recomendação e suspendeu esses licenciamentos para aprimorar todo o processo. A ideia era aguardar a conclusão do novo Plano Diretor, que já traz uma nova definição para essas áreas”, afirma.

Em relação especificamente à Lagoa da Anta, Jorge Dória afirmou que o Ministério Público acompanha o caso desde o surgimento das primeiras informações sobre o empreendimento e reafirmou que o órgão atuará para preservar a configuração da área. “Nós temos exatamente esse entendimento de que aquela área é um cartão-postal. A questão paisagística é muito forte, é um local que já está no imaginário das pessoas. O que eu posso garantir, como Ministério Público, é que vamos nos opor a tudo o que, porventura, venha trazer qualquer tipo de mudança para aquele local”, relata.

O promotor acrescentou que a proposta do novo Plano Diretor enquadra a Lagoa da Anta como Zona Especial de Proteção Paisagística (ZEPP), classificação que tende a restringir intervenções capazes de alterar a configuração da área, caso o texto seja aprovado pela Câmara de Maceió.

A reportagem procurou a Construtora Record para saber se a empresa entende que o debate provocado pela mudança na paisagem da Rota do Mar também alcança o empreendimento previsto para a Lagoa da Anta; quais estudos embasam a avaliação de que as cinco torres não provocarão impactos relevantes sobre a paisagem, a ventilação e o entorno da lagoa; e se a construtora reconhece que o empreendimento alterará de forma permanente a configuração da região. Até a publicação desta reportagem, a empresa não havia se manifestado.

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