ABALOS SÍSMICOS
AL registra 185 tremores de terra e moradores denunciam efeitos da mineração no Agreste
Arapiraca e Craíbas concentram maioria dos eventos sísmicos
Alagoas registrou, entre maio de 2020 e maio de 2026, 185 eventos sísmicos detectados pelo Laboratório Sismológico da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (LabSis/UFRN). Craíbas e Arapiraca, no Agreste, concentram as maiores ocorrências, com 31 e 30 registros, respectivamente.
Especialistas apontam duas hipóteses principais para os tremores na região: falhas geológicas naturais do Agreste e a atividade de mineração da Vale Verde, que iniciou operações em Craíbas em 2021. Em março deste ano, foi instalada uma estação sismológica em Arapiraca para ampliar o monitoramento e subsidiar as análises sobre a frequência e características dos eventos, além de permitir maior detalhamento na identificação de horários, profundidade, magnitude e localização aproximada dos tremores, contribuindo para a construção de séries históricas mais consistentes e para a comparação com outros registros já existentes no estado.
Para o professor de Geografia da Uneal, Inaldo Valões, os tremores passaram a seguir um padrão recorrente, acompanhado de queixas e preocupação da população local. “O padrão veio acompanhado por medo, dúvidas e queixas dos moradores.”
O ponto mais marcante foi um tremor sentido em Arapiraca em 25 de agosto de 2023, registrado por câmera de videomonitoramento, quando um escritório foi atingido pela vibração e uma pessoa percebeu o movimento do ambiente, olhando ao redor para entender o que acontecia.
Segundo Valões, a instalação de estações permite monitoramento contínuo e maior precisão na análise dos eventos. Ele afirma que, antes disso, as análises dependiam de registros regionais amplos, insuficientes para compreender o fenômeno com precisão e para estabelecer correlações mais seguras entre ocorrências isoladas ao longo do tempo. “Em vez de termos apenas boatos, medo ou versões interessadas, passamos a ter dados técnicos”, afirma.
Ele explica que as duas hipóteses não são excludentes. O Agreste está situado em uma região com falhas geológicas, onde podem ocorrer pequenos tremores por acomodação de estruturas antigas ao longo do tempo, sem que isso signifique ausência de atividade sísmica relevante para o monitoramento local. Outra linha de investigação considera a influência da mineração, que envolve vibrações, explosões, escavações e retirada de material, alterando o equilíbrio geomecânico do subsolo e podendo, em determinadas condições, induzir microtremores que só podem ser identificados com monitoramento contínuo.
Em Craíbas, moradores da comunidade Sítio Lagoa da Telha, a 3,7 km da Mina Serrote, relatam impactos diários da atividade. Segundo Wilker Fonseca, os pais convivem com ruídos de explosões, vibrações e rachaduras constantes na casa, além da sensação de insegurança crescente a cada nova ocorrência, o que tem alterado a rotina da família.
“Dá para sentir as coisas balançando. A nossa casa no sítio está toda rachada. Já fizemos vários remendos com bastante ferro. Mesmo assim, os rachões permanecem. Todo dia é um rachão diferente e a gente segue consertando”, relata.
Ele afirma que as explosões ocorrem por volta do meio-dia há mais de um ano. Nesse período, segundo ele, já foram feitas mais de dez restaurações das paredes rachadas. A família descreve que a percepção não é de um tremor isolado, mas de vibração contínua no imóvel, atingindo forros, portas, janelas, armários e outros objetos dentro da casa, com intensidade percebida principalmente nos momentos de detonação.
“Cada dia vejo meus pais com medo. Estamos vendo que, aos poucos, o sítio está caindo. A empresa fica calada. A gente nunca vê nada. Ninguém chega para dar um auxílio, para ver como ajudar ou melhorar”, relata o jovem, afirmando que os pais pensam em vender o local.
Valões afirma que a literatura científica admite a correlação entre mineração e tremores induzidos, especialmente por detonações. Ele explica que há registros em diferentes países que associam esse tipo de atividade a sismicidade de baixa magnitude, embora o caso de Craíbas ainda demande ampliação do monitoramento e séries históricas mais longas para conclusões mais robustas e comparações mais consistentes com outras regiões mineradoras e seus impactos acumulados.
Dados do LabSis mostram registros recorrentes no horário do meio-dia, com magnitudes entre 1,6 e 1,8 mR em março e maio de 2026, além de outros eventos semelhantes ao longo do período analisado, o que reforça a necessidade de acompanhamento contínuo da área e da consolidação de um banco de dados mais amplo para avaliação de padrões e possíveis correlações temporais.
“O período coincide com o cronograma de desmontes de rocha, fornecendo base sugestiva para a hipótese de sismicidade induzida”, afirma.
Segundo ele, comunidades próximas relatam explosões semanais, poeira constante que afeta idosos e crianças, morte de animais de criação e rachaduras em residências, além de insegurança crescente. O quadro pode levar ao abandono de terras por famílias tradicionais, com impactos sociais de longo prazo ainda difíceis de mensurar.
O coordenador do LabSis, Anderson Nascimento, afirma que o aumento de registros pode estar ligado também à melhoria do monitoramento e à instalação de novas estações sismológicas na região. Ele pondera que a associação com a mineração ainda exige mais dados e séries mais longas, embora a literatura reconheça essa possibilidade em diferentes contextos geológicos e operacionais.
Sobre os impactos, afirma que vibrações contínuas podem causar desgaste em estruturas e efeitos psicológicos, como sensação constante de insegurança nas comunidades afetadas. “O real impacto deve ser avaliado, tanto nas residências quanto nas pessoas”, diz.
Valões reforça que tremores de baixa magnitude não indicam grandes terremotos, mas não devem ser ignorados. Ele destaca que eventos associados à mineração ocorrem em profundidades rasas, o que amplia o efeito das ondas sísmicas na superfície e aumenta o potencial de dano em edificações rurais, especialmente quando há repetição ao longo do tempo.
“Frequentemente, a retórica empresarial minimiza os eventos argumentando que tremores de magnitude 1,6 ou 1,8 são baixos e, portanto, incapazes de produzir rachaduras ou danos estruturais. No entanto, o fator crítico na sismicidade induzida por mineração é a profundidade do foco gerador”, afirma.
O professor explica que as sismicidades naturais ocorrem a dezenas de quilômetros abaixo da crosta, enquanto os sismos associados à mineração acontecem em profundidades rasas.
“Como a energia mecânica do tremor precisa percorrer um caminho muito curto até a superfície, ela sofre pouca atenuação geológica, atingindo as fundações das casas rurais locais com ondas sísmicas de alta frequência. Por ser um estresse dinâmico repetitivo e raso, os danos acumulam-se de forma progressiva ao longo do tempo”, afirma.
A reportagem procurou a Vale Verde, mas não obteve resposta até o fechamento desta edição.