RISCO
ESTRADAS DA EXAUSTÃO: Estimulantes entram na rotina de caminhoneiros e motoristas por aplicativo
Exaustão, pressões financeiras e o perigo invisível da automedicação ameaçam quem trabalha ao volante
Nas estradas do País, onde o relógio vale mais que o descanso, o consumo de estimulantes faz parte da rotina silenciosa de muitos caminhoneiros. Conhecido como “rebite”, o comprimido usado para afastar o sono circula ilegalmente entre motoristas de carga pesada, apesar dos riscos à segurança nas rodovias. A anfetamina é proibida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e comercializada ilegalmente no país.
Caminhoneiro há 33 anos, Júlio [nome fictício] diz que usou, durante décadas, diversos estimulantes. Na lista estavam rebite, Venvanse, cafeína e energéticos. Com o passar dos anos, os impactos na saúde começaram a aparecer. Segundo ele, a pressão por prazos de entrega e as longas distâncias fazem com que muitos permaneçam mais de 24 horas seguidas ao volante. “No início, o efeito é maravilhoso. Você se sente mais disposto, mais atento. Mas o efeito acaba de uma hora para outra e você quer usar mais. Eu cheguei a dirigir 24 horas seguidas para dar conta de tudo. Por isso, muitos compram vários comprimidos para fazer uma viagem. Compram nas estradas, sem receita”, relatou.
O rebite é uma anfetamina — substância estimulante do sistema nervoso central presente em medicamentos controlados. O efeito provoca sensação de alerta e reduz temporariamente o sono e o cansaço. No entanto, especialistas alertam que o uso prolongado pode causar dependência, alterações emocionais e sérios danos físicos e mentais.
Júlio afirma que as consequências permaneceram mesmo após a aposentadoria. “O meu corpo não desliga para que eu possa dormir. Faço pequenos cochilos, mas não descanso de verdade. Depois de anos usando, fiquei com muita insônia. Até hoje tenho dificuldade para dormir e sei que isso foi consequência desses medicamentos”, contou.
O ex-caminhoneiro relata que o cenário nas estradas se tornou ainda mais preocupante. “Hoje em dia, muitos dirigem sob efeito de drogas ilícitas, como a cocaína. Há pontos de parada de caminhoneiros onde todo mundo sabe que vende. Eu nunca tive coragem de usar isso, mas já vi colegas completamente alucinados dirigindo”, afirmou.
DROGA PERIGOSA
Em Alagoas, a Polícia Rodoviária Federal diz ter registrado crescimento nas apreensões de rebite, acompanhando uma tendência nacional. A PRF acredita que o aumento ocorre devido à crescente fiscalização e também ao maior uso da substância como estimulante para longas jornadas.
“Durante a abordagem, observamos sinais visíveis: pupilas dilatadas, agitação, fala acelerada, sudorese, insônia relatada e comportamento de risco na condução”, detalha o agente Lisboa Júnior.
Segundo a corporação, muitos acidentes nas rodovias federais envolvem motoristas que consomem esses medicamentos. A PRF diz já ter atendido ocorrências em que o motorista acabou envolvido em colisão traseira ou saída de pista por tentar “segurar o sono”. Quem dirige sob efeito de substância psicoativa comete infração gravíssima, com multa, suspensão do direito de dirigir e recolhimento da habilitação. Se houver acidente com vítima, a conduta passa a configurar crime de trânsito.
“Na esfera penal, portar ou usar drogas sem autorização é conduta prevista na Lei nº 11.343/2006. Se for flagrado transportando quantidade para distribuição, responde por tráfico. Se for para consumo próprio, será lavrado um Termo Circunstanciado de Ocorrência”, reforça o agente.
EFEITOS NO CORPO
Durante a pandemia, um alagoano de 42 anos, motorista por aplicativo, que prefere não se identificar, ficou desempregado. A rotina exaustiva de trabalho o levou a buscar formas de permanecer acordado. Morador da periferia de Maceió, ele trabalha entre 12 e 14 horas por dia para pagar as contas da casa, o financiamento do carro e sustentar dois filhos.
Para suportar as longas jornadas, ele passou a consumir grandes quantidades de energético diariamente. Com o tempo, também começou a fazer uso irregular de sertralina — medicamento antidepressivo —, acreditando que o remédio ajudava a manter o foco durante o trabalho. “No começo parecia que dava certo. Eu me sentia mais disposto, menos cansado e conseguia virar a madrugada trabalhando. Tinha dia em que eu tomava duas latas de energético seguidas. Em um único dia, já consumi seis latas. Hoje eu vejo que isso é assustador”, conta.
A rotina começou a cobrar um preço alto. Ele passou a sentir palpitações, falta de ar e episódios de ansiedade intensa enquanto dirigia. Mesmo assim, continuou trabalhando por medo de perder renda. “Teve uma corrida em que achei que fosse morrer dentro do carro. Meu coração disparou, minhas mãos começaram a formigar e eu precisei parar no acostamento. Achei que ia morrer e deixar meus filhos e minha esposa”, relata.
Dias depois, ele procurou atendimento médico e descobriu que havia desenvolvido uma arritmia cardíaca. Segundo os médicos, o excesso de estimulantes associado à privação de sono aumenta significativamente os riscos cardiovasculares. Após o diagnóstico, ele reduziu a carga de trabalho.
O ALERTA DOS ESPECIALISTAS
O médico psiquiatra Gustavo Omena alerta que essas medicações não podem ser consumidas sem orientação médica. “Ritalina, Concerta e Venvanse atuam aumentando a disponibilidade de dopamina e noradrenalina no cérebro, que são neurotransmissores ligados ao foco e à motivação. O efeito é uma melhora na atenção e na resistência ao cansaço mental. É exatamente por isso que quem as usa sem necessidade clínica relata aquela sensação de estar mais produtivo, o que pode agravar quadros de ansiedade e causar efeitos adversos cardiovasculares”, alerta.
Esses medicamentos são indicados no tratamento do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). “O que vemos com preocupação é o uso por pessoas sem diagnóstico, buscando aumento de desempenho cognitivo, o que chamamos de uso off-label sem supervisão médica. Isso é automedicação e tem riscos sérios”, disse.
Medicamentos à base de anfetamina podem causar dependência, principalmente quando usados sem indicação ou em doses acima das terapêuticas. Em um cenário marcado por pressão financeira e privação de sono, o preço de permanecer acordado pode ser irreversível.
“São controlados exatamente por esse motivo. O mecanismo de ação ativa o sistema de recompensa do cérebro via dopamina. Com o tempo, o organismo passa a depender do estímulo artificial para funcionar, e, sem a substância, surgem sintomas como fadiga intensa, irritabilidade e dificuldade de concentração”, conclui.