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HÁ 125 MILHÕES DE ANOS

Fóssil de peixe pré-histórico é descoberto em São Miguel dos Campos

Animal com espinhos encontrado em Alagoas pode ser o mais antigo já registrado na história do planeta

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Reconstituição do Gondwanacanthus decollatus, nova espécie do grupo Acanthomorpha, que reúne peixes com raios espinhosos nas nadadeiras
Reconstituição do Gondwanacanthus decollatus, nova espécie do grupo Acanthomorpha, que reúne peixes com raios espinhosos nas nadadeiras | Foto: ALEXANDRE CUNHA RIBEIRO

Pesquisadores das universidades de São Paulo, do Estado do Rio de Janeiro e de Ribeirão Preto identificaram um novo tipo de peixe pré-histórico extinto, batizado de Gondwanacanthus decollatus, a partir de restos preservados em blocos de pedra calcária. O material foi coletado na Pedreira InterCement, antiga Pedreira Atol, em São Miguel dos Campos, no Leste de Alagoas.

A descrição do animal foi publicada no periódico científico Papers in Palaeontology em 10 de fevereiro de 2026. Os fragmentos de rocha vieram da Formação Morro do Chaves e indicam que o animal viveu no período Cretáceo Inferior, há cerca de 125 milhões de anos.

O trabalho consistiu na análise de amostras de museus e revelou que este é o registro mais antigo de um peixe com espinhos nas nadadeiras no antigo supercontinente Gondwana.

Os cientistas explicam que ele pertence ao grupo dos acantomorfos. Esse grupo reúne quase um terço de todos os peixes do planeta atualmente, somando mais de 15 mil espécies vivas. Peixes muito comuns na culinária e na pesca em Alagoas, como a carapeba, o xaréu, o robalo e a pescada, são parentes modernos que evoluíram dessa mesma linhagem.

A descoberta do Gondwanacanthus decollatus em solo alagoano ajuda a entender o momento exato em que as primeiras estruturas de defesa física desses animais começaram a aparecer na história da Terra. O formato do corpo do peixe era alto e achatado lateralmente, lembrando a silhueta de espécies que hoje habitam recifes de corais ou águas costeiras calmas. Os blocos de pedra que preservaram o fóssil medem entre 20 e 36 centímetros de comprimento, o que mostra que o animal era de pequeno porte.

O corpo era totalmente coberto por escamas do tipo espinoide, que possuem pequenas pontas contínuas na superfície, deixando a pele do peixe com textura áspera ao toque.

A principal pista trazida pelo fóssil está na anatomia das nadadeiras. Conforme explicam os zoólogos Alexandre Cunha Ribeiro e Flávio Alicino Bockmann, os peixes desse grupo têm como marca registrada espinhos verdadeiros e a nadadeira pélvica posicionada bem à frente do corpo, na região do peito.

No exemplar de São Miguel dos Campos, essa nadadeira fica exatamente abaixo da nadadeira dorsal. Os espinhos encontrados não eram raios moles ou finos, mas agulhas ósseas rígidas e maciças, usadas pelo animal para se proteger do ataque de predadores.

Até a publicação dessa pesquisa, os cientistas acreditavam que os peixes com espinhos tivessem surgido mais tarde, há cerca de 95 milhões de anos, em mares do hemisfério norte, na região da Europa e do Oriente Médio. O registro do peixe alagoano de 125 milhões de anos joga essa data muito mais para trás.

Naquele período, a América do Sul e a África ainda estavam se separando, rompendo o antigo supercontinente Gondwana. A região que hoje corresponde à Bacia Sergipe-Alagoas era uma grande fenda preenchida por um sistema de lagos ou por um braço de mar calmo conectado ao Oceano Atlântico, que estava apenas começando a se formar.

Esse ambiente sofria variações de salinidade e acúmulo de sedimentos no fundo, condições que funcionaram como uma armadilha natural perfeita para cobrir e preservar os esqueletos no calcário por milhões de anos. A identificação da nova espécie exigiu técnicas delicadas em laboratório. O espécime foi retirado de Alagoas na década de 1990 e enviado para o Museu de Ciências e Tecnologia da PUCRS.

Para o estudo atual, os cientistas limparam a pedra ao redor dos ossos usando agulhas finas sob microscópios e realizaram raios X computadorizados das placas de calcário. O exame permitiu enxergar a estrutura interna do peixe sem quebrar o material e confirmou que a anatomia correspondia à dos peixes espinhosos modernos. As conclusões do artigo mostram que o fóssil de Alagoas reúne características de peixes primitivos com detalhes encontrados nos animais atuais.

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