CRISE AMBIENTAL
Entre a lama e o abandono: a crise ambiental da Lagoa Mundaú
Pela formação geológica e por ser mais rasa em alguns pontos, a lagoa acumula sedimentos e matéria orgânica
Mais de vinte quilômetros quadrados de uma natureza exuberante e viva, mas que clama por atenção. Não é de hoje que a Lagoa Mundaú vem sendo degradada pelo homem. O Livro Canais e Lagoas, do ambientalista alagoano Octavio Brandão, publicado originalmente em 1922, já denunciava a ação predatória na lagoa, com o desmatamento da mata nativa, o assoreamento e a pesca predatória. Um verdadeiro grito de alerta que, até hoje, mais de um século depois, continua não sendo ouvido.
Os problemas são inúmeros e a solução passa por questões básicas, como investimento em saneamento e educação ambiental, mas pouco ou nada se faz para resolver a questão. Enquanto isso, famílias inteiras que sobrevivem do que pescam no local enfrentam dificuldades e encaram desafios diários para garantir o pão de cada dia.
Atualmente, a lama na região da lagoa, na altura do bairro de Fernão Velho, em Maceió, é tanta que nem as embarcações conseguem navegar no local sem que os pescadores precisem dar, literalmente, um “empurrãozinho”. O sururu está cada vez mais raro e os peixes da região estão desaparecendo.
O pescador Cristiano Bertolino, de 48 anos, tem sentido na pele a resposta da natureza à ação humana desenfreada. Acostumado a sair para pescar ainda na madrugada, antes do sol nascer, ele precisou mudar os hábitos por causa da grande quantidade de lama. No dia em que conversou com a reportagem, saiu de casa somente após as 10h pela impossibilidade de fazê-lo antes.
“É muita lama e precisei deixar a água encher um pouco para poder entrar com a canoa. Antigamente não existia isso e agora, está cada dia pior. A situação vem se agravando cada vez mais”, disse.
O coordenador do Laboratório de Aquicultura e Ecologia Aquática da Universidade Federal de Alagoas (Laqua/Ufal), professor Emerson Soares, explica que a lama existente hoje é, na verdade, o acúmulo de sedimentos. Ele conta que a Laguna Mundaú tem uma dinâmica própria, chamada de hidrodinâmica, que representa a movimentação e a circulação da água, e que varia de acordo com a sazonalidade, sendo influenciada pela época do ano, os ventos, as precipitações, o período de estiagem, além das marés, por exemplo.
“Isso depende muito também do fechamento ou abertura, dependendo da época, da boca da barra, que é a boca de saída da laguna próximo ao mar. Em relação a essas circulações, as nossas modelagens mostram que a laguna, nos seus 27 km quadrados, tem áreas de grande movimentação, como é o caso do Porto do Sururu. Já nas localidades mais ao centro da Laguna, do meio dela até Fernão Velho, tem um tipo de circulação diferenciada, que depende dos ventos e das marés. Há muita circulação, mas quando vamos para as laterais da Laguna, temos áreas de remanso”, afirma o especialista.
Pela formação geológica e por ser mais rasa em alguns pontos, a lagoa acumula sedimentos e matéria orgânica. O Rio Mundaú lança grande quantidade desse material por ser altamente degradado, com contaminação por agroquímicos, desmatamento das áreas marginais, especulação imobiliária e monocultura da cana-de-açúcar. Dessa forma, o solo solto é carregado para a região de Fernão Velho e Santa Luzia do Norte e depois espalhado para as laterais pela circulação da água.
Além disso, oito canais de contaminação despejam resíduos diretamente na laguna, entre eles Trapiche, Vergel, Silva e Brito, além de contribuições de municípios da região metropolitana como Coqueiro Seco, Santa Luzia do Norte e Satuba. A lagoa funciona, na verdade, como um bolsão de recepção, acumulando sedimento, esgoto e nutrientes em grandes proporções. Esse material é empurrado para áreas marginais como Bebedouro, Fernão Velho e Vergel, formando a lama que vem prejudicando os pescadores.
Segundo Emerson Soares, a contaminação ocorre de diversas formas. Há desde decomposição natural de matéria orgânica, até lançamento direto de produtos químicos. Agroquímicos, fertilizantes, solventes, combustíveis, resíduos de oficinas e postos de gasolina, eletrodomésticos, esgoto doméstico, fezes, urina, detergentes e óleos são despejados sem tratamento. Metais pesados provenientes de atividades industriais e comerciais também se acumulam na laguna.
De acordo com o professor, trata-se de um conjunto de contaminantes que provoca danos graves ao ambiente e à saúde. Em áreas de menor salinidade, como Bebedouro, há maior possibilidade de doenças e parasitoses. Já em regiões próximas ao Porto do Sururu e Vergel, a salinidade reduz parte dos patógenos, mas não elimina o problema.
Para ele, a situação ambiental da lagoa, um local com grande potencial não só para pesca, mas também para o turismo, já ultrapassou o nível de alerta. “O ambiente é altamente contaminado, sem qualidade ambiental, e traz problemas de saúde à população ribeirinha. Além disso, os poluentes se acumulam nos organismos aquáticos, que apresentam alterações fisiológicas, e podem causar doenças em quem os consome”, pontua.
Entre as medidas necessárias para reverter os sérios problemas, estão o tratamento dos efluentes dos canais, a reorganização do saneamento, a fiscalização do desmatamento, a recomposição da vegetação nativa e dos manguezais, além do controle de agroquímicos, o planejamento urbano no entorno da lagoa e um trabalho efetivo de educação ambiental. Para ele, a dragagem pode ajudar, mas é uma ação considerada paliativa se os problemas básicos não forem resolvidos.
O professor também comenta os impactos na fauna. A curimã, espécie de peixe que transita entre água doce e salgada, está desaparecendo devido ao assoreamento da barra, destruição do mangue e pesca irregular com malhas pequenas, que impedem a reprodução.
Natural, mas nem tanto
O coordenador de Gerenciamento Costeiro do Instituto do Meio Ambiente (IMA), Ricardo César, explica que o fenômeno observado no Complexo Estuarino-Lagunar Mundaú-Manguaba é o assoreamento — o acúmulo de sedimentos no fundo da lagoa. Segundo ele, trata-se de um processo natural em sistemas estuarino-lagunares, provocado pelo transporte de areia e barro principalmente pelos rios Mundaú e Paraíba, mas que foi intensificado nas últimas décadas por ações humanas, como desmatamento de matas ciliares, ocupação irregular do solo, práticas agropecuárias inadequadas e intervenções nos cursos d’água.
O processo não é temporário e ocorre continuamente, podendo aumentar em períodos chuvosos devido ao maior escoamento superficial e transporte de sedimentos.
Segundo ele, reduzir os impactos para quem depende da pesca exige atuação conjunta entre órgãos ambientais, municípios e instituições responsáveis pela gestão da água e do território.
“Entre as medidas necessárias, estão o replantio das margens dos rios, a fiscalização de ocupações irregulares, o incentivo a práticas sustentáveis no campo, a recuperação de áreas degradadas e um melhor planejamento do uso do solo nas bacias hidrográficas. Essas são ações fundamentais para diminuir prejuízos para a pesca artesanal e para o equilíbrio da lagoa”, afirma.
Diante da situação, que só se agrava, o pescador Cristiano pede que as autoridades olhem para a lagoa. “Isso que eu faço é um apelo para os pescadores, para a natureza, para a lagoa, para os nossos netos que virão. Eu não quero daqui a dez, doze anos, não poder pegar um peixe para comer, para vender, para arrumar o pão de cada dia. Eu tô pensando no futuro, tô pensando como vai estar isso daqui há alguns anos. Isso vem acontecendo de cinco, seis anos para cá. E só as autoridades para fazer alguma coisa”, conclui.