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    ESPERANÇA

    Lutador alagoano quer ser incluído em estudo inicial da polilaminina

    Tetraplégico após luta de Jiu-jitsu, ex-campeão de MMA busca participar de pesquisa para restaurar movimentos da medula

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    A rotina de quem antes treinava em alta performance deu lugar a cuidados prestados pela família no Sertão de Alagoas
    A rotina de quem antes treinava em alta performance deu lugar a cuidados prestados pela família no Sertão de Alagoas | Foto: Arquivo pessoal

    O alagoano John David, conhecido nos ringues como John Snake, iniciou uma mobilização digital com um objetivo que transcende o esporte: tornar-se voluntário em um estudo experimental com a polilaminina. A substância é o foco de pesquisas que buscam restaurar a comunicação entre o cérebro e o corpo após lesões medulares graves. Tetraplégico desde janeiro de 2023, o ex-atleta de 33 anos vive na pequena cidade de Palestina, no Sertão de Alagoas.

    “Sabe o que é um médico dizer à sua mãe que você nunca mais moverá o corpo, apenas os olhos?”, questiona. A trajetória de John foi interrompida no auge da carreira. Campeão do Jungle Fight, o maior evento de MMA da América Latina, ele estava prestes a ingressar no UFC quando, durante uma competição de jiu-jitsu, sofreu uma fratura nas vértebras C4 e C5. Consciente no momento do acidente, ele lembra de ouvir os procedimentos médicos enquanto perdia a sensibilidade dos membros.

    A rotina de quem antes treinava em alta performance deu lugar a cuidados paliativos prestados pela família. O momento mais crítico, relata, foi a despedida da filha, que permaneceu em São Paulo enquanto ele retornava a Alagoas com a mãe. “Sempre fui um lutador. Lutei para dar um futuro à minha família e, agora, luto para ficar de pé”, resume. Com quase 10 mil seguidores, ele tenta atrair a atenção de gestores públicos e dos responsáveis pelo estudo científico com polilaminina.

    A CIÊNCIA POR TRÁS DA POLILAMININA

    A polilaminina, pesquisada há cerca de três décadas pela bióloga Tatiana Sampaio na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), propõe uma abordagem inovadora. Trata-se de um agrupamento de proteínas que forma uma rede capaz de funcionar como uma “ponte” para neurônios desconectados pela lesão. Dados preliminares de um estudo acadêmico com oito pacientes foram considerados históricos: enquanto a literatura registra recuperação motora em apenas 10% dos casos de lesão completa, o índice com o uso da substância chegou a 75%.

    Klaysa Moreira Ramos
    Klaysa Moreira Ramos | Foto: Arquivo pessoal

    A comunidade científica preza pela cautela. Klaysa Moreira Ramos, doutora em Imunologia e docente da Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas (Uncisal), explica que a substância está na fase 1 dos ensaios clínicos aprovados pela Anvisa, estágio voltado exclusivamente para testar a segurança e a dosagem em humanos. “A ideia é biologicamente plausível, mas não podemos falar em cura neste momento”, adverte a pesquisadora.

    Um dos principais entraves para o caso de John Snake é o tempo decorrido desde o acidente. Os estudos atuais focam em lesões agudas — preferencialmente até três dias após o trauma. Em casos crônicos, a formação de cicatrizes nos nervos medulares torna a transmissão de impulsos nervosos muito mais complexa. Além disso, Klaysa alerta que 95% das pesquisas clínicas não atingem os resultados esperados e podem apresentar riscos severos aos voluntários.

    REABILITAÇÃO E REALIDADE

    O ortopedista Carlos Eduardo Viterbo Prado reforça que o padrão ouro atual para lesões medulares envolve cirurgia descompressiva precoce e reabilitação funcional intensiva, com chances de melhora em até 30% dos pacientes. Mesmo ciente dos riscos e das limitações científicas para casos crônicos, John Snake mantém a postura de competidor. “Sou alguém que se recusa a aceitar o ponto final. Se existe uma chance de transformar dor em esperança, escolhi fazer parte dessa mudança”, conclui.

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