DA UTINGA LEÃO
Alagoano de 21 anos passa da graduação direto para doutorado
Com nota 9,83, jovem ficou em 1º lugar e utilizará inteligência artificial na pesquisa que irá desenvolver



Nascido e criado nas redondezas da usina de cana-de-açúcar Utinga Leão, em Rio Largo, Mayllon Emmanoel Pequeno alcançou um feito raro na academia brasileira. Aos 21 anos, o jovem saltou da graduação diretamente para o doutorado no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas (SP), um dos complexos científicos mais avançados da América Latina. O ingresso ocorreu com distinção: ele conquistou o primeiro lugar na seleção, obtendo a nota 9,83, a maior entre todos os candidatos.
Após concluir o Ensino Médio em Alagoas, Mayllon se mudou para o interior paulista para cursar o bacharelado interdisciplinar em Ciência e Tecnologia na Ilum Escola de Ciência. A instituição, vinculada ao CNPEM, oferece um dos cursos mais concorridos do país, com duração de três anos e matriz curricular totalmente voltada à formação de pesquisadores de alto nível.
Foi nesse ambiente de imersão que sua afinidade com as ciências naturais floresceu. Sua primeira experiência acadêmica de impacto investigou o comportamento de partículas microscópicas de sílica em contato com meios de cultura celular, estudo fundamental para a nanobiotecnologia. “Acredito que essa inserção precoce nos laboratórios me deu a confiança necessária para pleitear o doutorado direto”, explica o estudante. Durante o processo, Mayllon precisou equilibrar a preparação para a prova com as exigências finais da graduação.
No percurso tradicional da vida acadêmica, o graduado costuma percorrer etapas intermediárias, como especialização e mestrado, antes de alcançar o doutorado. O projeto que desenvolverá a partir de março é um desdobramento de estudos iniciados ainda no bacharelado e contará com parceria institucional: as aulas teóricas ocorrerão na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), enquanto a parte experimental será realizada nos laboratórios do CNPEM.
“A ideia do meu projeto de doutorado surgiu justamente nessas experiências de imersão. O trabalho consiste em utilizar bioinformática e inteligência artificial para identificar e classificar novas enzimas ativas sobre carboidratos (CAZymes), a partir de amostras do metagenoma de cervídeos endêmicos do Brasil”, detalha Mayllon. Segundo o pesquisador, essas enzimas possuem alto valor industrial e ambiental, sendo essenciais para a criação de novos biorrenováveis, como bioplásticos, biocombustíveis e outros compostos bioquímicos sustentáveis.
Para Mayllon, o sentimento após uma conquista tão expressiva é de gratidão e dever cumprido. Ele reconhece que a trajetória exigiu sacrifícios pessoais significativos. “Sair do meu estado para morar tão distante, longe da família e dos amigos, não foi fácil em muitos momentos, mas tudo valeu a pena. Agora, espero concluir o doutorado com o mesmo rigor e contribuir para que a ciência feita no Brasil continue avançando com qualidade”, conclui.
