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A LOTERIA DO NASCIMENTO

Fillipi Nascimento ganha o Jabuti e questiona a ideia de que basta esforço para 'vencer na vida'

Após vencer um dos mais importantes prêmios do país, maceioense recorda infância na capital e teme ver sua conquista instrumentalizada pelo discurso fácil da meritocracia

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O alagoano Fillipi Nascimento, vencedor do Jabuti, durante a cerimônia de premiação, em São Paulo
O alagoano Fillipi Nascimento, vencedor do Jabuti, durante a cerimônia de premiação, em São Paulo | Foto: DIVULGAÇÃO/CBL

No outro lado da Jatiúca, na parte que não aparece nas redes sociais da prefeitura e de onde o mar não se vê, há uma casa estreita onde uma família de cinco pessoas viveu. Fillipi Nascimento guarda na memória uma piada de infância sobre ela: quando o cachorro balançava a cauda lá dentro, precisava fazê-lo para cima e para baixo, porque para os lados não havia espaço. Ele revisitou a casa há pouco tempo, já adulto, já doutor, já sociólogo. Tudo continua lá, estreito e fora do mapa.

Fillipi cresceu nesse mundo estreito, primeiro na Jatiúca, depois no Vergel e, por fim, em Santa Lúcia. É o mais velho de três irmãos. Os pais vieram do interior de Alagoas em busca de alguma estabilidade na capital. Décadas depois, a trajetória da família se encontraria com o tema do livro que Fillipi escreveu ao lado do economista Michael França, “A Loteria do Nascimento: Filha do porteiro termina universidade, mas não alcança filho do rico”. Na terça-feira, 11 de agosto, em São Paulo, o livro venceu a categoria Economia do Jabuti Acadêmico, um dos prêmios mais concorridos do país para publicações científicas e técnicas.

Fillipi Nascimento tem 33 anos, fez mestrado em Ciências Sociais na Ufal e doutorado em Sociologia na Universidade Federal de Pernambuco. Hoje é pesquisador do Núcleo de Estudos Raciais do Insper, em São Paulo, e cursa o segundo pós-doutorado, na Fundação Oswaldo Cruz.

A ideia do livro surgiu de uma coluna que Michael escreveu para a Folha de S.Paulo. Fillipi leu numa postagem no LinkedIn, passou a acompanhar o trabalho do economista, que já coordenava o Núcleo de Estudos Raciais do Insper, e disputou uma seleção de pesquisadores aberta pelo núcleo pouco depois. Está lá desde então, há quase quatro anos. Foi dentro dessa convivência que recebeu o convite para escrever junto.

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Michael França e o alagoano Fillipi Nascimento, autores do livro "A Loteria do Nascimento", vencedor do Jabuti
Michael França e o alagoano Fillipi Nascimento, autores do livro "A Loteria do Nascimento", vencedor do Jabuti | Foto: DIEGO UBILLA/INSPER

“A gente conta um pouco das nossas próprias trajetórias, de como a falta de rede de contato, de modelos que pudessem nos inspirar fez com que a gente recorresse a caminhos autônomos”, diz. “E foi a partir desses caminhos que conseguimos o que conseguimos hoje”.

O que eles conseguiram foi um feito. A obra que venceu o Jabuti escolhe um caminho pouco convencional para um livro de economia. Em vez dos dados frios e estatísticos, dos tecnicismos e academicismos, os autores recorreram a uma das invenções mais antigas da humanidade para conseguir a adesão do público para um assunto tão espinhoso: a arte de contar histórias.

“A história gera adesão. E essa adesão facilita o entendimento dos conceitos e das teorias. Deu muito certo com ‘A Loteria do Nascimento’, muitas pessoas me procuraram para relatar essa proximidade, para dizer que se identificaram, que reconheceram situações parecidas com as que viveram, ou que entenderam melhor certos conceitos a partir disso. O segredo foi contar histórias”, avalia o alagoano.

Uma dessas histórias é a dos irmãos gêmeos Expedito e Expeditiano. Eles nascem na mesma casa, formam-se na mesma faculdade de Economia, e um segue para a Faria Lima, acumula dinheiro e projeção, e perde aos poucos a proximidade com a própria família, enquanto o outro migra para o interior da Bahia, não acumula riqueza equivalente, e chega ao fim da vida cercado pelas pessoas que ama.

“Aqui a gente tem dois indivíduos que partem do mesmo ponto de partida e têm desfechos diferentes por causa de escolhas — isso é o que o economista americano John Roemer chama de desigualdade justa. O problema é que a história não para aí: ela segue para a geração seguinte. O filho do irmão rico herda dinheiro, influência, acesso. As filhas do irmão que ficou na Bahia não herdam nenhum desses capitais. Aqui, indivíduos partem de condições distintas e têm desfechos distintos — uma desigualdade injusta”, sintetiza Nascimento.

Maceió, agosto de 2026; Fillipi Nascimento venceu o Jabuti Acadêmico 2026 em São Paulo. Foto:@Ailton Cruz
Maceió, agosto de 2026; Fillipi Nascimento venceu o Jabuti Acadêmico 2026 em São Paulo. Foto:@Ailton Cruz | Foto: Ailton Cruz

Essa provocação que o livro faz encontra amparo em dados como os divulgados em 2018 pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). A pesquisa envolvendo 30 países apontou que o elevador social no Brasil está tão quebrado que levaria nove gerações para que um descendente de um brasileiro nascido pobre atingisse a classe média. A estimativa é a mesma para a África do Sul e só perde para a Colômbia, onde o período de ascensão levaria 11 gerações.

“Dizem que quanto mais ignorante a pessoa é em relação a essa realidade, talvez mais feliz ela seja. Mas não ter a exata dimensão das coisas tem consequências, que, nesse caso, é a continuidade desse sofrimento, sem que se ponha na roda o quão grotesco é saber que você não verá seu filho, seu neto, alcançando uma condição de vida melhor do que a sua. Que só seu tataraneto talvez consiga, e ainda assim muito abaixo do tipo de progressão que existe entre os filhos das elites.”

O autor diz que a angústia de estar acordado o assola todos os dias. Mas é dela que ele bebe para continuar suas pesquisas, consciente das limitações impostas pelo papel de acadêmico. “Isso me angustia e me indigna, mas, entendendo que não sou político, reconheço minhas competências enquanto pesquisador e denuncio isso. Talvez eu tenha eleito isso quase como um sacerdócio: denunciar essas desigualdades, evidenciá-las, colocar o dedo na ferida. Fico pensando numa frase do Ariano Suassuna que diz mais ou menos assim: ‘o otimista é um tolo, o pessimista é um chato; bom mesmo é ser um realista esperançoso’. Tento ser esse realista esperançoso todos os dias, sem me deixar levar pela leitura pessimista das coisas”, diz.

Esse “sacerdócio” começou de uma maneira inesperada. Na casa estreita da família Nascimento a ordem era estudar. Todos pensavam, conta, que ele cursaria Química, área na qual o pai trabalha e que poderia garantir um emprego mais rápido quando o jovem concluísse o ensino superior. “A princípio, eles não entendiam a razão de eu ter escolhido Ciências Sociais. Cheguei a passar em Química também, porém fiz a escolha certa, a meu ver. Tenho esse perfil analítico, de pesquisar, crítico, e acho que se não tivesse passado pelas Ciências Sociais, não teria desenvolvido essas vocações e afinidades que, hoje vejo, eu já tinha, mas ainda não tinham sido despertadas”, reflete o vencedor do Jabuti.

O trajeto até o prêmio traz cenas que, assim como a história de Expedito e Expeditiano, ajudam a ilustrar a origem das desigualdades. Numa mobilidade acadêmica entre o Rio de Janeiro e Belo Horizonte, trabalhando e estudando ao mesmo tempo, Fillipi desmaiou em sala de aula. Descartada qualquer causa física, o diagnóstico foi estresse agudo.

“O filho do rico e a filha do porteiro lidam com esse tipo de sofrimento de formas totalmente diferentes, porque os recursos à disposição são diferentes. O filho do rico tem condição de pagar terapia, de pagar medicamento, de se internar. E quando você está nesse estado de sofrimento psíquico, seu desempenho piora, sua disposição piora, e isso também é determinante do tipo de progressão que você consegue alcançar na vida”, analisa.

Fillipi Nascimento, ao centro, após receber o prêmio Jabuti Acadêmico 2026
Fillipi Nascimento, ao centro, após receber o prêmio Jabuti Acadêmico 2026 | Foto: Divulgação/CBL

Apesar das dificuldades que enfrentou, é possível afirmar que Fillipi Nascimento venceu na vida. Ainda mais agora, depois de um prêmio nacional. Mesmo que isso seja verdade e o mérito seja indiscutivelmente do sociólogo alagoano, essa conversa nos leva a um campo contaminado. No Brasil, se vende prosperidade nas esquinas. Coaches, influencers, políticos e até religiosos falam sobre isso por uma ótica sem amparo nos dados e nas experiências empíricas da maioria da população. Sim, estamos falando de meritocracia.

“É um discurso falacioso e que tem uma função política: sustentar os mecanismos de desigualdade e a estrutura de privilégios, que servem muito mais a quem está no topo do que a quem está na base”, afirma Fillipi.

“A ideia da loteria do nascimento é simples: quando você joga, não sabe se vai ganhar ou perder. Da mesma forma, a gente não sabe se vai nascer numa família rica ou numa família pobre. Quando você ganha, um leque de possibilidades se abre diante de você, que pode comprar coisas que antes não podia, ir a lugares que queria conhecer, acessar espaços e circuitos que antes eram impossíveis. É o mesmo que acontece quando você recebe as heranças de uma família rica. Não ser vencedor da loteria do nascimento significa um caminho mais longo e sem perspectiva de chegar lá”, explica Fillipi, recorrendo à tese do livro.

“Por isso que, simplesmente, não dá para falar de meritocracia sem falar de condições iguais de partida, de condições justas para todas as pessoas. E é exatamente por isso que ela é falaciosa, pois parte da ideia de que existe uma receita pronta para o sucesso. Mas, se o esforço fosse suficiente, se horas trabalhadas fossem indicador de melhores condições de vida, quantos garis não estariam milionários? Quantos professores? Quantos trabalhadores que acordam três horas da manhã, pegam ônibus, balsa, metrô, lutam contra não um leão por dia, mas cinco leões por dia, e não saem do lugar?”

Essa ideia de mérito individual vem de longe, do sonho americano, da ética protestante de Weber, do liberalismo de Adam Smith. Mas aqui ela encontrou um terreno muito fértil. “Sim, porque o discurso da meritocracia dá a receita do seu sucesso. E isso tem um apelo popular muito singular aqui, num país com os níveis de desigualdade que a gente vive, com gente que sobrevive com um salário mínimo ou menos. Riqueza é tudo o que essas pessoas querem na vida. Se alguém chega vendendo a receita da riqueza, é tudo o que elas querem ouvir. É um produto muito fácil de fazer circular, de fazer aderir, e é por isso que é tão popular por aqui. Iniciativas como o nosso livro nos fazem pensar na necessidade de questionar essa falácia, de mostrar que não é só com esforço que você melhora de vida — o esforço é importante, não estamos dizendo que não é, mas ele sozinho não é suficiente”.

Os vencedores do prêmio Jabuti Acadêmico 2026
Os vencedores do prêmio Jabuti Acadêmico 2026 | Foto: Divulgação/CBL

E se o esforço sozinho não resolve, o diploma sozinho também não. O que pode consertar esse elevador quebrado? Para o alagoano, a resposta está na política. “O livro também se propõe a apontar um caminho: a solução vem com disposição política. E disposição política só vem com maior engajamento popular em torno dessas questões. Vide, por exemplo, o fim da escala 6x1, a taxação de heranças e de grandes fortunas. É preciso política pública que amplie o acesso ao ensino superior, mas que, ao mesmo tempo, garanta que quem vem das periferias, das camadas populares, seja devidamente absorvido pelo mercado de trabalho, e que dentro dele existam condições de progressão. Porque o filho do pobre se forma, mas assim que se forma pega o primeiro emprego que aparece. Ele não tem a mesma margem que o filho do rico tem de tirar um ano sabático, de fazer uma especialização em Londres ou Paris e voltar ainda mais qualificado, de assumir um lugar na empresa do pai ou de um amigo do pai numa posição de gerência. Quem sai da periferia sabe que tem necessidades imediatas, o boleto chega todo final do mês e, pelas condições que descrevi, acaba pegando a primeira coisa que aparece”.

Fillipi sabe que corre o risco de virar, ele mesmo, um exemplo a favor do discurso que acabou de desmontar. Um homem negro, nascido numa casa estreita, que hoje segura um dos prêmios mais cobiçados do país — a tentação de ler essa história como prova de que o sistema funciona, de que basta querer, é imediata. Ele viu isso chegando antes mesmo de ser perguntado.

“Não quero que essa vitória seja lida pelo discurso da meritocracia. É muito fácil ler assim: saiu da periferia de Maceió e conseguiu. Eu não penso dessa forma. É perigoso tratar esse prêmio como o ápice de uma trajetória de esforço individual, que é exatamente o argumento que a gente quer combater”, diz.

E continua: “Me dediquei muito, estudei muito, foi difícil, sim, consegui. Mas a luta continua, porque tem muita gente que não conseguiu nada disso. Esse é o ponto em que a falácia da meritocracia termina. Tem muita gente que põe em suas trajetórias o mesmo nível de esforço que eu pus e não consegue nada. Muitos pararam no desmaio por estresse. Outros nunca tiveram a chance de continuar os estudos porque precisavam largar para trabalhar. Reconheço esse prêmio como uma oportunidade de dar oportunidade”, afirma.

Imagem ilustrativa da imagem Fillipi Nascimento ganha o Jabuti e questiona a ideia de que basta esforço para 'vencer na vida'
| Foto: Reprodução/Editora Jandaíra

Em um ano eleitoral, o vencedor do Jabuti lembra que o debate sobre mobilidade social desaparece dos guias eleitorais. “Porque não dá voto. Ou dá, mas apenas entre uma pequena parcela da população já instruída. Para uma grande parcela da população, o que dá voto é a capacidade que um político demonstra de resolver problemas imediatos. É por isso que se fala tanto em ‘fulano chegou no bairro, deixou cesta básica’. O pessoal está passando fome, e quando alguém se presta a resolver isso, mesmo que no período eleitoral, resolve uma necessidade daquele momento específico e, em troca, ganha um voto”, analisa.

A reportagem pede para o coautor de “A Loteria do Nascimento” imaginar uma pergunta que um candidato à Presidência da República fosse obrigado a responder.

“O senhor ou a senhora estaria disposto a enfrentar as elites brasileiras para promover melhores condições de vida para as classes populares do país? É uma pergunta difícil, porque pode ser respondida de forma demagógica, como ‘claro que sim, estou muito disposto’. Mas a questão é que a elite tem tentáculos na política: cria leis, coloca blocos políticos para se privilegiar, para conseguir isenção de imposto, para não taxar grandes fortunas, para desviar o olhar do que realmente importa.”

A mesma provocação foi feita em relação a um candidato ao governo de Alagoas. “Aí a pergunta seria: o senhor, a senhora e sua família — porque a gente tem umas figurinhas muito repetidas por aqui, famílias tradicionais da política alagoana — em tanto tempo na política de Alagoas, por que a gente ainda vê o estado na condição em que se encontra, com altas taxas de insegurança, uma série de indicadores de vulnerabilidade? Qual foi a contribuição do senhor, da senhora ou da sua família, no sentido de diminuir ou acabar com essas desigualdades, de mudar essa realidade?”, diz.

O livro premiado pelo Jabuti Acadêmico está disponível para compra no site da editora Jandaíra

DOIS ALAGOANOS

O Jabuti Acadêmico, criado em 2023 como derivação do Prêmio Jabuti, reconhece anualmente a produção científica e técnica brasileira. Na edição deste ano, Alagoas teve dois vencedores: além do sociólogo Fillipi Nascimento, na categoria Economia, o professor Fábio Lins, da Universidade Federal de Alagoas e do Cesmac, também subiu ao palco do Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo, na terça-feira, 11 de agosto.

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