Atlântico Sertão
Com 9 alagoanos, grande exposição em São Paulo destaca artistas nordestinos
Mostra de arte contemporânea no CCBB reúne mais de 70 criadores de todo o País e apresenta o sertão como território de memória, resistência e conexão
Às margens do Rio São Francisco, a cerca de 18 quilômetros do município de Pão de Açúcar, fica um dos lugares mais improváveis e mais fascinantes da arte popular brasileira de todos os tempos. A Ilha do Ferro, pequeno povoado ribeirinho do Sertão alagoano onde moradores encontraram na escultura em madeira fonte de sustento e expressão. Não são raras histórias de poetas autodidatas que antes eram pescadores, de trabalhadores braçais que viraram artesãos e passaram a transformar galhos retorcidos e troncos em cadeiras, figuras humanas, animais, seres híbridos que cruzam realismo com o fantástico de um jeito superoriginal.
Hoje, artistas formados nessa tradição da Ilha do Ferro estão em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo, numa das maiores mostras de arte contemporânea do ano no Brasil. “Atlântico Sertão” reúne mais de 70 artistas de diferentes regiões do país e ocupa todos os andares do edifício histórico do CCBB SP, com entrada gratuita, até 3 de agosto.
Alagoas está representada por nove artistas: Amilton, Antônio Sandes, Genauro, Gonçalves, Joaci do Pandeiro, Joaci Lima, José Cícero, Mestre Benon e Ziel Karapotó. A maioria deles vem diretamente da Ilha do Ferro, onde a escultura e o entalhe em madeira consolidaram ao longo das décadas uma linguagem própria, marcada pela inventividade formal e pelas narrativas do cotidiano sertanejo e ribeirinho. Genauro, por exemplo, é conhecido pelas esculturas que retratam a flora e a fauna locais, como o mandacaru e passarinhos. José Cícero, o Mestre Cícero, destaca-se por totens e figuras humanas alongadas que expressam a cultura sertaneja. Ziel Karapotó, artista indígena, une saberes ancestrais, espiritualidade e linguagem contemporânea em suas obras.
De acordo com a curadoria, a exposição parte de uma premissa conceitual elaborada pela pesquisadora Marina Maciel, idealizadora do projeto, que questiona a noção de sertão fixada nos mapas do IBGE e propõe uma leitura ampliada do território — não como lugar de escassez ou isolamento, mas como espaço de criação, circulação de saberes e resistência histórica. O “Atlântico” do título remete aos deslocamentos forçados da diáspora africana e às conexões que unem o interior nordestino ao continente africano por fluxos geológicos, culturais e humanos que atravessam séculos.
Jovem morre em acidente de moto em Girau do Ponciano
Sesc Alagoas oferta exames para mulheres no Shopping Miramar
Julgamento do caso Kleber Malaquias é adiado
Caminhão danifica poste e deixa região sem energia
Convenções partidárias começam e abrem fase decisiva na corrida eleitoral de 2026
A mostra está estruturada em seis eixos temáticos. No núcleo “Sertão Atlântico”, com curadoria de Marcelo Campos, a exposição parte da relação entre terra e mar para abordar heranças indígenas, africanas e populares. Em “Cosmologias em Movimento”, da curadora Rita Vênus, o foco são as práticas espirituais como formas de organização da vida. “Ecologias Ancestrais e Futuros da Terra”, de Thayná Trindade, apresenta o sertão como campo de conhecimento que resiste a lógicas externas. “Comunidade, Retomada e Sertões Negros”, com curadoria de Amanda Rezende, evidencia modos de vida baseados na partilha e na oralidade. “Arquivos Vivos, Grafias e Inscrições da Terra”, de Ariana Nuala, propõe o sertão como sistema ativo de registro onde inscrições ancestrais dialogam com tecnologias contemporâneas. O percurso se encerra com “Sertão Atlântico, Travessias e Poeiras que Vêm do Saara”, de Jean Carlos Azuos, que conecta Brasil e África por relações geológicas e culturais.
A mostra também reúne nomes de grande peso da arte brasileira de outros estados, como Ayrson Heráclito e Juraci Dórea, da Bahia, Tunga, de Pernambuco, e Antonio Obá e Dalton Paula, do Distrito Federal. O projeto tem raízes no Coletivo Atlântico, que já levou exposições à sede da ONU em Genebra — primeira vez na história que o edifício principal da organização recebeu uma mostra com artistas afro-brasileiros — e ao Museu de Arte do Rio durante o G20 de 2024.
Artistas participantes de Atlântico Sertão: Abiniel João Nascimento (PE), Adenor Gondim (BA), Alessandro Fracta (AM), Aline Motta (RJ), Amanda Melo (PE), Amilton (AL), Ana Neves (PE), Ana V. Lopes (RJ), André Vargas (RJ), Antonio Obá (DF), Antônio Sandes (AL), Aura do Nascimento (PE), Ayrson Heráclito (BA), biarritzzz (PE), Dalton Paula (DF), Denilson Baniwa (AM), Eliana Amorim (PE), Fykyá Pankararu (PE), Genauro (AL), George Teles (BA), Gervane de Paula (MT), Gilson Plano (GO), Gonçalves (AL), Gustavo Caboco (PR), J. Cunha (BA), Jaime Lauriano (SP), Jonas Van (CE) / Juno B (CE), Joaci do Pandeiro (AL), Joaci Lima (AL), José Alves (PE), José Cícero (AL), José Rufino (PB), Juraci Dórea (BA), Juniara Albuquerque (PE), Leonardo França (BA), Lidia Lisbôa (PR), Lita Cerqueira (BA), Lucélia Maciel (BA), Luiz Barroso (PB), Maria Lira Marques (MG), Maria Macêdo (CE), Maré de Matos (MG), Marlene Almeida (PB), Marcos da Matta (BA), Márvila Araújo (BA), Mayra Carvalho (RJ), Mestre Benon (AL), Mitsy Queiroz (PE), Moara Tupinambá (PA), Mônica Barbosa (PI), Nádia Taquary (BA), Naywá Moura (PI), Rafa Bqueer (PA), Rafael Chavez (PB), Rebeca Miguel (MG), rOnA (RJ), Rodrigo Braga (AM), Rose Afefé (BA) / Bysmarke Vaqueiro (BA), Rosana Paulino (SP), SouPixo (CE), Tainan Cabral (RJ), Thaís Iroko (RJ), Thiago Costa (PB), Trojany (CE), Tunga (PE), Ventura Profana (BA), Véio (SE), William Maia (RJ), Wisrah C. V. da R. Celestino (MG), Xamânica (RJ) / Tayná Uràz (RJ), Yacunã Tuxá (BA), Yhuri Cruz (RJ), Zé di Cabeça (BA), Ziel Karapotó (AL), Zumví Arquivo Afro Fotográfico (BA), Àwon arákùnrin onísé-onà méta (BA)
Após São Paulo, “Atlântico Sertão” segue para o CCBB Salvador em setembro e para o CCBB Brasília no início de 2027.