loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
sábado, 04/07/2026 | Ano | Nº 6260
Maceió, AL
24° Tempo
Logo Gazeta de Alagoas Logo Gazeta de Alagoas
Home > Caderno B

ENCONTRO COM PALMARES

Projeto leva a Serra da Barriga aos quilombos do Brasil e une tecnologia ancestral e realidade virtual

Iniciativa percorrerá cinco estados até 2027 levando saberes, intercâmbio cultural e experiência imersiva a territórios quilombolas

Ouvir
Compartilhar
Projeto cultural Encontro com Palmares. Fotos: César Pereira / @cesarpereir_
Projeto cultural Encontro com Palmares. Fotos: César Pereira / @cesarpereir_ | Foto: CÉSAR PEREIRA

Na Serra da Barriga, em Alagoas, existiu por quase um século o maior quilombo das Américas. Formado ainda no início do século 17 por africanos escravizados e seus descendentes, o Quilombo dos Palmares chegou a reunir dezenas de milhares de pessoas organizadas em mocambos, sob lideranças como Ganga Zumba e Zumbi. Resistiu a sucessivas expedições portuguesas e holandesas até ser destruído em 1694, num cerco que matou Zumbi no ano seguinte. Mais de três séculos depois, o território segue como o maior símbolo da resistência negra no Brasil, e é dali que parte o projeto Encontro com Palmares.

A iniciativa, idealizada pela ialorixá e chef Mãe Neide Oyá d’Oxum, propõe uma travessia diferente naquele território sagrado: usar óculos de realidade virtual 360º para levar a experiência de caminhar pela Serra da Barriga a quilombos que talvez nunca chegassem lá de outra forma. “Somos filhos de reis e rainhas que foram escravizados. Ainda sonhamos com a liberdade, em todos os sentidos”, diz Mãe Neide.

Liberdade. A palavra é pequena, mas carrega consigo uma busca humana difícil de dimensionar, e que agora viaja pelas estradas do Brasil dentro de um projeto batizado Encontro com Palmares. Para quem enxerga a história a partir da Serra da Barriga, liberdade tem ao menos um endereço: fica em Alagoas, no antigo território de Zumbi e Dandara, muitas vezes distante de quem mais precisaria alcançá-lo.

Projeto cultural Encontro com Palmares. Fotos: César Pereira / @cesarpereir_
Projeto cultural Encontro com Palmares. Fotos: César Pereira / @cesarpereir_ | Foto: CÉSAR PEREIRA

Encabeçado pela ialorixá e Patrimônio Vivo de Alagoas Mãe Neide Oyá d’Oxum, o projeto quer apresentar a liberdade de Palmares ao Brasil. A sua primeira experiência foi no final do mês passado, no lançamento em União dos Palmares, na Serra da Barriga, e agora segue para os quilombos ao redor do país.

A proposta une tecnologia atual e tecnologia ancestral. De um lado, óculos de realidade virtual 360º que simulam a caminhada pelo território sagrado; do outro, os sabores e os saberes que, segundo Mãe Neide, atravessam o tempo desde Zumbi e Dandara sem perder força. “Levar Palmares até eles é acreditar que nós tínhamos história, que nós pudemos construir uma vida mais leve. E nossa”, diz.

A iniciativa é realizada pelo Centro de Formação e Inclusão Social Inaê, com patrocínio da Petrobras Cultural. Uma equipe de dezessete pessoas segue rumo a cinco estados - Pará, Maranhão, Minas Gerais, São Paulo e Rio Grande do Sul - numa itinerância que deve durar até março de 2027. “O projeto nasceu do desejo de levar o Quilombo dos Palmares ao encontro dos quilombos do Brasil para trocarmos saberes, fortalecer identidades e celebrar nossas memórias”, afirma Mãe Neide, fundadora da Escola Inaê e do Centro de Formação Inaê, que atua há décadas no ativismo quilombola em Alagoas.

Imagem ilustrativa da imagem Projeto leva a Serra da Barriga aos quilombos do Brasil e une tecnologia ancestral e realidade virtual
| Foto: MATHEUS MONSTRO

Cada parada segue um roteiro parecido, ajustado às particularidades de cada território, com oficinas de gastronomia, ervas, dança, percussão e teatro, encerradas com a experiência em realidade virtual dentro da Sala de Saberes Petrobras. Ali, os óculos simulam a caminhada pela Serra da Barriga, numa parceria com o projeto Vamos Subir a Serra e com o TikTok. Há também apresentações artísticas, entre elas o espetáculo inédito Em Busca de Palmares.

Segundo Simone Benchimol, gestora e coidealizadora do projeto ao lado de Mãe Neide, a proposta nasceu de pedidos das próprias comunidades. “É um sonho de todo quilombola pisar na Serra da Barriga. Quando a gente diz que vai levar a experiência em VR (realidade virtual), é o momento que eles dizem que estavam esperando. A gente vai unir a ancestralidade com a tecnologia”, diz.

A primeira parada, nesta semana, levou a equipe ao Quilombo Cachoeira Porteira, em Oriximiná, no Pará. O caminho passa por Manaus e Porto Trombetas antes do trecho final, feito de lancha pelo rio Trombetas até a comunidade, que vive da extração de castanha-do-pará e da pesca. “A gente tem, a cada reunião com as lideranças quilombolas, descoberto um país quase que escondido”, diz Simone.

Projeto cultural Encontro com Palmares. Fotos: César Pereira / @cesarpereir_
Projeto cultural Encontro com Palmares. Fotos: César Pereira / @cesarpereir_ | Foto: CÉSAR PEREIRA

Os cinco destinos foram escolhidos a partir de pesquisa de campo e de critérios que a gestora descreve como afetivos. O Pará entrou pela relação pessoal dela com o estado. Codó, no Maranhão, por ser referência do Terecô. Em São Paulo o roteiro passa por uma comunidade de cultivo de banana e turismo de aventura; no Rio Grande do Sul, por um quilombo do litoral gaúcho.

GASTRONOMIA COMO INTERCÂMBIO CULTURAL

Mãe Neide é Patrimônio Vivo de Alagoas e defende a memória ancestral
Mãe Neide é Patrimônio Vivo de Alagoas e defende a memória ancestral | Foto: CÉSAR PEREIRA

Na bagagem da equipe, nada de pratos prontos. O que viaja são técnicas e referências da culinária de Palmares, que se combinam aos insumos produzidos localmente até desaguar num almoço coletivo com cada comunidade. “A cozinha quilombola é onde tudo nasceu. Em liberdade, não na senzala. A comida criada ali não é só alimento do corpo, mas também da alma e da resistência. É o útero do nosso povo”, diz Mãe Neide, que comanda o Restaurante Baobá e lida há anos com o apagamento das origens de certas receitas.

“É preciso que a gente marque bem essas formas de resistência do nosso povo que foram levadas para os livros dos alemães, dos portugueses e dos franceses como os melhores cozinheiros do mundo, quando na realidade o nosso Brasil é maravilhoso, e muito mais os nossos quilombos”, afirma. O pó de camarão e as técnicas de defumação estão entre os saberes que, segundo ela, circularam mundo afora sem reconhecimento de origem.

“Quando a gente trabalha isso com eles, acende aquela luz. Eles despertam a força que os quilombos do Brasil têm, porque essa sementinha dos outros quilombos é a semente daqui, que veio daqui.”

ECONOMIA

Imagem ilustrativa da imagem Projeto leva a Serra da Barriga aos quilombos do Brasil e une tecnologia ancestral e realidade virtual
| Foto: REPRODUÇÃO

A lógica econômica também está desenhada no roteiro. A equipe se hospeda dentro dos quilombos, contrata moradores como guias, compra alimentos produzidos ali e remunera quem participa das oficinas. O Cachoeira Porteira reúne cerca de 200 famílias, o equivalente a 570 pessoas; em Santo Antônio dos Pretos, no Maranhão, vivem outros 200 moradores.

Para Mãe Neide, essa circulação de recursos desfaz um engano comum sobre os territórios quilombolas. “Muitas vezes pensam que vão chegar e encontrar o quilombo com o povo passando fome. Quilombo é muito rico. Nós temos tudo, inclusive paz. Quilombo é casa cheia, é fartura na mesa, é saber utilizar os seus insumos, é ter orgulho de você”, diz.

Toda a jornada será registrada em minidocumentários e numa websérie de exibição gratuita no YouTube. O episódio sobre o Pará estreia em setembro de 2026, o do Maranhão em outubro, e o documentário final está marcado para 25 de maio de 2027, Dia da África.

Para Mãe Neide, levar Palmares à estrada é uma forma de reparação histórica. Conectar o solo da Serra da Barriga a outras comunidades quilombolas pelo Brasil é, para ela, reconstruir o que foi separado pelo desmonte do quilombo ao longo dos séculos, numa troca que pretende eternizar o legado de Zumbi e Dandara.

Projeto cultural Encontro com Palmares. Fotos: César Pereira / @cesarpereir_
Projeto cultural Encontro com Palmares. Fotos: César Pereira / @cesarpereir_ | Foto: CÉSAR PEREIRA

Ela insiste que ninguém é dono dessa história. “Somos condutores dela, responsáveis por ouvir, falar e agir com a permissão de quem veio antes”. E fala também da liberdade como algo que todos buscam, mas cujo preço nem sempre é lembrado por quem a desfruta hoje. “Ainda há um caminho, um caminho que nós estamos fazendo construindo. [...] O compartilhamento de saberes ancestrais, como o uso das ervas, é também uma maneira de libertar a sociedade do racismo e do preconceito, uma forma de mostrar um território de liberdade para o nosso povo”.

Os óculos de realidade virtual entram nessa conta como ferramenta de inclusão, um jeito de aproximar as novas gerações desse solo que ela chama de sagrado.

“Eu não quero mais que ninguém venha me representar, falar por mim. Nós precisamos do nosso espaço, ocupar os espaços e falar de nós da forma que nós queremos que a sociedade nos veja. Nós vivemos a história. Nós queremos contá-la.”

Relacionadas