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HERANÇA LITERÁRIA

Ricardo Ramos Filho volta à literatura juvenil em 'Vovô é uma estrela', seu novo romance

Neto de Graciliano Ramos e filho de Ricardo Ramos, autor transforma história pessoal em uma calorosa narrativa que aborda afeto, memória, superação e igualdade de gênero no esporte

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Imagem ilustrativa da imagem Ricardo Ramos Filho volta à literatura juvenil em 'Vovô é uma estrela', seu novo romance
| Foto: FERNANDO RABELO

Ricardo Ramos Filho tem 72 anos, diversos livros publicados, é doutor em Letras pela USP e tem a condição singular de pertencer à terceira geração consecutiva de escritores consagrados de uma mesma família: é filho do contista Ricardo Ramos e neto de Graciliano Ramos, autor de Vidas Secas. Essa herança literária e a voz singular do autor contemporâneo agora se voltam para uma história de futebol feminino, saudade e escolhas éticas, reunidas no novo livro Vovô é uma estrela, publicado pela Maralto Edições com ilustrações de Angelo Abu.

O livro é o segundo volume de uma série iniciada em Vovô é um cometa, onde os leitores acompanham a infância de Lalu, garota apaixonada pelo futebol, e sua relação com o trisavô Américo. Nesta continuação, Lalu é adulta e profissional. Após se destacar no Corinthians, ela recebe uma proposta para jogar no Portland Thorns, uma das principais equipes femininas dos Estados Unidos. A vida mudou, mas Américo, já morto, permanece como uma espécie de estrela-guia que continua influenciando as decisões da neta.

A origem do personagem é autobiográfica. Américo foi inspirado no bisavô materno do autor, com quem Ricardo conviveu até os 18 anos — e não no bisavô paterno, Sebastião Ramos, pai de Graciliano, com quem ele não chegou a ter contato. “Era um velhinho que gostava de contar histórias, e eu adorava ouvi-las. Acho que muito do escritor que me tornei nasceu dessa oralidade tão fascinante. Ele morava no Rio de Janeiro, era extremamente carinhoso e sempre festejava minha chegada. Eu me sentava ao lado de sua cadeira de balanço para ouvir relatos de um Brasil que já não existe mais”, recorda o autor.

A morte, no livro, não funciona como encerramento. Américo parte, mas continua presente na narrativa como força afetiva que orienta Lalu diante de dúvidas e mudanças. Para Ricardo, essa é uma forma de falar sobre luto sem tornar o assunto pesado demais para o público jovem. “Existir é, de certa forma, preparar-se para perder pessoas queridas. Choramos, passamos pelo luto e seguimos em frente. Mas acredito que algo dessas pessoas permanece conosco. Como estrelas que continuam nos guiando”, afirma.

Imagem ilustrativa da imagem Ricardo Ramos Filho volta à literatura juvenil em 'Vovô é uma estrela', seu novo romance
| Foto: DIVULGAÇÃO

Além da dimensão afetiva, Vovô é uma estrela incorpora debates contemporâneos. A obra aborda o movimento Equal Pay — que reivindica igualdade salarial entre atletas homens e mulheres —, tema que Ricardo usa como gancho para questionar preconceitos ainda associados ao futebol praticado por mulheres. Não é a primeira vez que o autor escreve assumindo perspectivas femininas. “Quem disse que futebol é uma atividade exclusivamente masculina? Gosto de explorar o universo feminino em meus livros. Muitas vezes escrevo em primeira pessoa assumindo a perspectiva de meninas e mulheres. É um exercício importante de empatia e aprendizado”, explica.

A ética ocupa papel central em um momento decisivo da trama. Em campo, Lalu escolhe o bem-estar de uma adversária acima da possibilidade de marcar um gol. A cena sintetiza uma das apostas do livro: a ideia de que competir com respeito vale mais do que vencer a qualquer custo, postura que Ricardo Ramos Filho coloca em contraste direto com o que ele enxerga como a lógica dominante na sociedade atual.

As ilustrações de Angelo Abu, animador formado pela UFMG com mais de três décadas de carreira, foram produzidas digitalmente no aplicativo Procreate, com caneta sobre tablet, mas mantendo as referências visuais que o artista usa no trabalho analógico — lápis, aquarela e pastel. “Como a fidelidade técnica e o prazer em fazer se mantiveram intactos, fiquei muito satisfeito com o método”, afirma Abu, que tem no currículo ilustrações de adaptações de Dom Casmurro, Moby Dick e Macunaíma em quadrinhos.

Ricardo Ramos Filho não chegou a conhecer Graciliano Ramos pessoalmente — nasceu dez meses após a morte do avô. A herança que carrega é literária e familiar, construída pelos relatos do pai e pelos anos que dedicou ao estudo da obra do avô no mestrado e no doutorado. “Sou neto, sou filho, mas principalmente sou eu mesmo”, disse o autor em entrevista à Gazeta de Alagoas, quando lançou seu primeiro romance, em 2025. Em Vovô é uma estrela, esse “eu mesmo” se apresenta na escolha de contar histórias sobre afeto, memória e futebol para leitores jovens — e, por extensão, para qualquer um que já tenha perdido alguém e encontrado nessa pessoa uma razão para seguir em frente.

Imagem ilustrativa da imagem Ricardo Ramos Filho volta à literatura juvenil em 'Vovô é uma estrela', seu novo romance
| Foto: LEONARDO ELIAS

O livro está disponível no e-commerce da Maralto Edições e integra o Programa de Formação Leitora Maralto, voltado a escolas de todo o país.

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