MÚSICA
Quem é Cameron Winter, considerado um dos artistas promissores do rock
Artista, que vem sendo comparado a Bob Dylan e Leonard Cohe, se apresentou sozinho em São Paulo
A primeira impressão que Cameron Winter deixa não é a de um astro do rock. É mais a de um garoto que caiu numa entrevista por acidente. Não há nada de Mick Jagger ali - há mais moletons do que jaquetas de couro.
Ele fala baixo, evita contato visual, parece mastigar as respostas antes de as soltar em frases curtas e murmuradas. Às vezes, ri sozinho. Noutras, devolve um "não sei" e deixa o silêncio crescer. Há algo de brincadeira permanente na maneira como responde — mas nunca fica claro se é um menino tímido, um personagem ou uma grande piada.
No C6 Fest, em SP, o americano se apresentou sozinho no Auditório Ibirapuera. Sem banda, o cantor de 24 anos levou a apresentação apenas com um piano e um feixe de luz que criava mais sombra do que o iluminava. Foram raros os momentos em que o rosto dele ficou visível.
A sensação era a de assistir a alguém tocando no próprio quarto, dado que o auditório estava em completo silêncio —exceto pelas fungadas de choro vindas da plateia. Winter se dirigiu a ela só uma vez, com um "obrigado" dito ao fim da apresentação.
Esse desinteresse pela própria imagem parece ser o ingrediente principal do fascínio em torno do menino que foi comparado a Bob Dylan e Leonard Cohen e que encantou Patti Smith, que disse, de repente, ter se sentido otimista com a cena atual da música.
Se sua banda, Geese, desde o lançamento de "3D Country", em 2023, já era vista com grande entusiasmo pela cena alternativa de Nova York, "Heavy Metal", seu 1º álbum solo, de 2024, foi o que faltava para furar essa bolha cult.
Com um timbre que lembra o drama de Van Morrison e a forma balbuciante de pronunciar as palavras de Alan Wilson, Winter foi recebido com euforia pelo público jovem por ser capaz de criar uma sonoridade que, apesar do verniz sessentista, soa atual.
Talvez justamente por isso, a imprensa estrangeira, no último ano, tem projetado em Winter e sua banda uma expectativa quase messiânica. Rapidamente surgiu o velho clichê de que ele seria "o cara que vai salvar o rock".
Questionado, Winter disse que isso é verdade mesmo. Afirmou ainda "me sigam e vocês ficarão ricos", embora tenha acrescentado que o rock não anda precisando de salvação.
A fala veio com o mesmo humor torto que atravessou toda a entrevista. Winter prefere transformar tudo numa espécie de teatro improvisado, em que sinceridade e deboche coexistem. O mesmo tipo de humor é sentido nas letras do cantor.
Em "The Rolling Stones", música que abre o disco solo, ele se compara ao lendário Brian Jones, retratando de forma mórbida, mas doce, o afogamento do 1º líder da banda britânica. Para além de Jones, o álbum conta com vários outros personagens.
Sobre o futuro, Winter fala como alguém improvisando uma piada corporativa. "Estou trabalhando em novas oportunidades de negócio, onde tudo depende da atitude dos investidores". Diz ainda ter músicas novas circulando, mas que se desfaz delas "tão rápido quanto aparecem".