FEITA EM MACEIÓ
Tela Brasil: governo federal lança streaming gratuito desenvolvido pela Ufal
Plataforma foi criada para exibir produções audiovisuais brasileiras; catálogo inicial terá mais de 500 títulos
A “Netflix” do governo federal foi feita em Maceió. A comparação é imperfeita, afinal a Tela Brasil opera por uma lógica completamente diferente das plataformas comerciais, mas a analogia ajuda a dimensionar o que a Universidade Federal de Alagoas (Ufal) entregou ao país.
Desenvolvida pelo Núcleo de Excelência em Tecnologias Sociais da Ufal (NEES/UFAL) e coordenada pelo Ministério da Cultura, a plataforma pública de streaming audiovisual será lançada neste sábado (30), no Rio de Janeiro, durante o Rio Creative Conference, com a presença do Presidente Lula. O acesso é gratuito, sem anúncios, sem mensalidade e dedicado exclusivamente ao cinema brasileiro.
Para Alagoas, o lançamento carrega uma camada a mais. Além de ter sido desenvolvida dentro da Ufal, o streaming já tem um longa alagoano selecionado para integrar o catálogo da plataforma, o “Ainda Estamos Sonhando”, de Ulisses Arthur.
O desenvolvimento foi realizado integralmente pelo NEES/UFAL, sem participação de empresas privadas. O projeto mobilizou cerca de 80 pessoas, entre pesquisadores, desenvolvedores, técnicos e estudantes de graduação e pós-graduação, vinculadas a instituições públicas de sete estados: Alagoas, Rio Grande do Norte, São Paulo, Ceará, Bahia, Pernambuco e Rio Grande do Sul.
“A Tela Brasil nasce como uma política pública voltada à difusão gratuita do audiovisual brasileiro, reunindo produções nacionais financiadas com recursos públicos e acervos de instituições culturais federais”, explica o coordenador do projeto, professor Thiago Cordeiro.
Para a vice-coordenadora, professora Luciana Santa Rita, a plataforma confirma uma função que as universidades públicas já exercem fora dos holofotes, especialmente quando pesquisa, tecnologia e políticas culturais passam a operar juntas. “A iniciativa reforça o papel das universidades públicas na criação de soluções tecnológicas estratégicas para o fortalecimento das políticas públicas”, diz.
O catálogo inaugural reúne 500 títulos, são longas, curtas, médias-metragens e telefilmes, incluindo 19 produções indicadas pelo Brasil ao Oscar. O acervo vem do Fundo Setorial do Audiovisual e de instituições do Sistema MinC, como a Cinemateca Brasileira, o Centro Técnico Audiovisual, a Funarte e a Fundação Palmares.
A plataforma também nasce com uma aposta forte em acessibilidade. Mais de 300 títulos já estão disponíveis com audiodescrição, legendagem descritiva e tradução para Libras. A interface foi desenvolvida seguindo diretrizes internacionais, o que coloca a Tela Brasil entre as plataformas públicas com maior densidade de recursos de acessibilidade audiovisual do mundo desde o primeiro dia.
O acesso se dá pelo endereço telabrasil.cultura.gov.br, com login pela conta Gov.br. No lançamento, estará disponível apenas a versão web.
A versão mobile, o aplicativo para Smart TV e o modo offline para baixa conectividade estão no horizonte de desenvolvimento. Também está previsto para lançamento posterior o Perfil Direcionado, voltado a escolas, cineclubes, unidades socioeducativas, unidades prisionais e Pontos de Cultura, com ferramentas de curadoria pedagógica, criação de playlists e agendamento de sessões coletivas.
A diferença em relação às plataformas comerciais não é apenas de preço. A Tela Brasil não coleta dados para fins publicitários, não rastreia comportamento do usuário para vender anúncios e não opera sob lógica de engajamento. De acordo com o governo federal, o tratamento de dados segue a LGPD, usando apenas o necessário para a operação do serviço.
Luciana Santa Rita lembra que o fundamento do projeto é constitucional: o artigo 215 da Constituição Federal reconhece o acesso às fontes da cultura nacional como direito fundamental do cidadão. “Na prática, a plataforma funciona na mesma lógica em que o Estado mantém museus, bibliotecas e rádios públicas — só que em código, desenvolvido numa universidade pública no Nordeste”, pontua.